Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — Quadrix 2024
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg355380
Banca
Quadrix
Órgão
SES - SP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residente Médico - Especialidade: Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista
Um paciente de 65 anos de idade, com história de hipertensão e diabetes mellitus, apresentou‑se com dispneia aos esforços e sopro sistólico audível na borda esternal esquerda baixa, irradiando‑se para a base do coração.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta, na investigação inicial, o achado que é mais característico de um sopro sistólico funcional e não de uma lesão orgânica.
Asopro em crescendo‑decrescendo, que aumenta com a manobra de Valsalva
Bsopro holossistólico com intensidade fixa, não afetado pela manobra de Valsalva
Csopro que aumenta de intensidade ao se elevar as pernas do paciente
Dsopro sistólico intensificado com exercício e reduzido com a respiração profunda
Esopro em crescendo‑decrescendo, irradiando para as carótidas
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GabaritoC — sopro que aumenta de intensidade ao se elevar as pernas do paciente
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Sopro sistólico: funcional versus orgânico
Gabarito: letra C. O achado mais característico de um sopro sistólico funcional (inocente) é o que aumenta de intensidade ao se elevar as pernas do paciente — manobra que aumenta o retorno venoso (pré-carga) e, consequentemente, o débito cardíaco, intensificando o fluxo que gera o sopro. Essa é a base da semiologia cardiovascular: sopros funcionais respondem a manobras que aumentam o fluxo, enquanto sopros orgânicos (como o da miocardiopatia hipertrófica) têm comportamento oposto.
O sopro sistólico funcional, também chamado de inocente ou fisiológico, é a causa mais comum de sopro em adultos (cerca de 65% dos casos, conforme a literatura). Ele ocorre quando o fluxo sanguíneo turbulento atravessa estruturas cardíacas normais, sem lesão anatômica valvar ou septal. As causas mais frequentes são: aumento do débito cardíaco (febre, anemia, gravidez, hipertireoidismo), estados hiperdinâmicos e, em crianças, a proximidade das estruturas à parede torácica. O sopro funcional é tipicamente sistólico, de ejeção (crescendo-decrescendo), de baixa intensidade (grau ≤ 2/6), sem frêmito, e desaparece ou diminui com manobras que reduzem o fluxo, como a inspiração profunda (que diminui o retorno venoso) e a posição ortostática.
A distinção entre sopro funcional e orgânico é um dos pilares do exame cardiovascular. O sopro orgânico decorre de lesão anatômica — barreira ao fluxo (estenose), refluxo (insuficiência) ou comunicação anormal entre câmaras (CIV, CIA). Os sinais de organicidade incluem: sopro diastólico, intensidade ≥ 3/6, frêmito, irradiação para o pescoço (estenose aórtica), B2 reduzida ou ausente, impulso apical sustentado, e sintomas como dispneia, angina ou síncope. A manobra de Valsalva é um divisor de águas: ela aumenta o sopro da miocardiopatia hipertrófica (por reduzir a pré-carga e aumentar a obstrução) e diminui a maioria dos sopros de ejeção (por reduzir o retorno venoso). Já a elevação das pernas (ou agachamento) aumenta o retorno venoso e, portanto, intensifica os sopros funcionais e os de regurgitação, mas diminui o sopro da miocardiopatia hipertrófica.
Na prática clínica, o raciocínio é: se o sopro aumenta com manobras que aumentam a pré-carga (elevação das pernas, agachamento, exercício) e diminui com manobras que a reduzem (Valsalva, posição ortostática, inspiração profunda), ele é provavelmente funcional. Se o comportamento for inverso, pensa-se em lesão orgânica, especialmente miocardiopatia hipertrófica. A ecocardiografia é o exame confirmatório quando há suspeita de lesão significativa.
A pegadinha desta questão está em inverter o comportamento esperado: a banca descreve o sopro da miocardiopatia hipertrófica (que aumenta com Valsalva) como se fosse funcional, e o sopro funcional (que aumenta com elevação das pernas) como se fosse orgânico. O candidato que decora apenas o nome das manobras, sem entender o mecanismo fisiológico, cai na armadilha. O critério decisivo é o efeito da pré-carga: manobras que aumentam o retorno venoso intensificam o sopro funcional; manobras que o diminuem (Valsalva) intensificam o sopro da miocardiopatia hipertrófica.
Sopro sistólico
1Funcional (inocente)
Aumenta com elevação das pernas
Aumenta com agachamento
Diminui com Valsalva
Diminui com posição ortostática
Mesossistólico (ejeção)
Intensidade ≤ 2/6
Sem frêmito
Sem irradiação para carótidas
2Orgânico (lesão anatômica)
Estenose aórtica
Irradia para carótidas
Diminui com inspiração
Miocardiopatia hipertrófica
Aumenta com Valsalva
Diminui com elevação das pernas
Insuficiência mitral / CIV
Holossistólico
Intensidade fixa
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O sopro em crescendo-decrescendo que aumenta com a manobra de Valsalva é característico da miocardiopatia hipertrófica (MCH), uma lesão orgânica. A Valsalva reduz o retorno venoso, diminui a pré-carga e o volume ventricular, aproximando as paredes do septo e da valva mitral, o que aumenta a obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo e, consequentemente, a intensidade do sopro. Esse é o comportamento oposto ao de um sopro funcional, que diminui com a Valsalva.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O sopro holossistólico com intensidade fixa é típico de lesões orgânicas como a insuficiência mitral ou a comunicação interventricular (CIV). O sopro funcional é, por definição, mesossistólico (de ejeção, crescendo-decrescendo) e não holossistólico. Além disso, a intensidade fixa sugere um defeito estrutural constante, não um fenômeno hemodinâmico variável. A manobra de Valsalva não afeta o sopro da CIV, mas isso não o torna funcional — ele é orgânico.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O sopro que aumenta de intensidade ao se elevar as pernas do paciente é o mais característico de um sopro funcional. A elevação passiva das pernas aumenta o retorno venoso (pré-carga), o que aumenta o volume diastólico final do ventrículo direito e, por consequência, o débito cardíaco e a velocidade do fluxo sanguíneo. Esse aumento de fluxo intensifica a turbulência que gera o sopro funcional. É exatamente o oposto do que ocorre na miocardiopatia hipertrófica, cujo sopro diminui com essa manobra.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O sopro sistólico intensificado com exercício pode ocorrer em sopros funcionais (pelo aumento do débito cardíaco), mas a segunda parte — reduzido com a respiração profunda — é o erro. A respiração profunda (inspiração) aumenta o retorno venoso e, portanto, intensifica os sopros do lado direito (como o funcional), não os reduz. A redução com a inspiração é característica de sopros do lado esquerdo, como o da estenose aórtica. A alternativa mistura comportamentos de lados diferentes, tornando-a incorreta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O sopro em crescendo-decrescendo irradiando para as carótidas é o achado clássico da estenose aórtica, uma lesão orgânica valvar. A irradiação para o pescoço segue o trajeto do fluxo sanguíneo através da valva aórtica estenótica. Embora o sopro funcional também seja crescendo-decrescendo, ele não irradia para as carótidas — essa irradiação é um sinal de organicidade, conforme os critérios de diferenciação clínica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca inverte o comportamento das manobras: descreve o sopro da miocardiopatia hipertrófica (que aumenta com Valsalva) como funcional, e o sopro funcional (que aumenta com elevação das pernas) como orgânico. O candidato que decora os nomes sem entender o mecanismo fisiológico cai na armadilha. Lembre-se: Valsalva diminui o retorno venoso e aumenta o sopro da MCH; elevação das pernas aumenta o retorno venoso e intensifica o sopro funcional.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar sopro funcional de orgânico, use o mnemônico "FUNCIONAL": Fluxo aumentado (febre, anemia, gravidez), Um sopro sistólico de ejeção, Não irradia para carótidas, Com intensidade ≤ 2/6, Intensifica com elevação das pernas, Ou seja, Nunca holossistólico, Ausência de frêmito, Localizado na borda esternal esquerda. Se o sopro aumentar com Valsalva, pensar em miocardiopatia hipertrófica (orgânico).