Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Endocrinologia — Quadrix 2024

MedicinaEndocrinologia
Código
qg355434
Banca
Quadrix
Órgão
SES - SP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residente Médico - Especialidade: Medicina Intensiva Pediátrica
Quanto à cetoacidose diabética e ao estado hiperosmolar hiperglicêmico, assinale a alternativa correta.
  1. ACetoacidose diabética é uma alteração metabólica aguda, que ocorre apenas em pacientes com diabetes tipo 1.
  2. BA infusão de insulina durante a correção do quadro de cetoacidose frequentemente leva à hipofosfatemia, o que faz sua reposição mandatória durante a fase aguda.
  3. CO uso de bicarbonato de sódio pode levar à acidose cerebral paradoxal e à edema cerebral.
  4. DA necessidade de insulina para reduzir a lipólise e a cetogênese é menor que para o controle glicêmico.
  5. EA hiperglicemia no estado hiperosmolar hiperglicêmico é, geralmente, mais pronunciada que na cetoacidose diabética, devido à produção excessiva de corpos cetônicos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — O uso de bicarbonato de sódio pode levar à acidose cerebral paradoxal e à edema cerebral.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Cetoacidose diabética e estado hiperosmolar hiperglicêmico

Gabarito: letra C. O uso de bicarbonato de sódio na cetoacidose diabética (CAD) pode levar à acidose cerebral paradoxal e ao edema cerebral, sendo essa uma complicação temida e que fundamenta a restrição da sua indicação. A alternativa C está correta porque descreve com precisão um dos principais riscos do tratamento com bicarbonato nesse cenário, conforme a fisiopatologia da doença e as diretrizes de manejo.

A cetoacidose diabética (CAD) e o estado hiperosmolar hiperglicêmico (EHH) são as duas complicações agudas mais relevantes da hiperglicemia. A CAD é definida pela tríade: glicemia > 250 mg/dL, pH arterial < 7,3 e cetonemia positiva. Já o EHH é definido por glicemia > 600 mg/dL, osmolaridade > 320 mOsm/kg e pH arterial > 7,3. A diferença fundamental está na fisiopatologia: na CAD há deficiência absoluta ou relativa grave de insulina, com aumento dos hormônios contrarregulatórios (glucagon, catecolaminas, cortisol), o que leva à lipólise e à produção hepática de corpos cetônicos (ácido acetoacético, beta-hidroxibutirato), gerando acidose metabólica. No EHH, a deficiência de insulina é apenas relativa — insuficiente para prevenir a hiperglicemia, mas suficiente para inibir a cetogênese —, por isso não há acidose significativa, mas há desidratação e hiperosmolaridade muito mais acentuadas.

O tratamento da CAD envolve hidratação vigorosa, reposição de eletrólitos e insulinoterapia. O uso de bicarbonato de sódio é controverso e restrito a situações específicas. A preocupação central é que a correção rápida da acidose com bicarbonato pode causar acidose cerebral paradoxal: o bicarbonato administrado gera CO2, que atravessa a barreira hematoencefálica mais facilmente que o bicarbonato, reduzindo o pH do líquido cefalorraquidiano e piorando a acidose no sistema nervoso central. Isso pode levar a vasodilatação cerebral, aumento da pressão intracraniana e edema cerebral, complicação gravíssima, especialmente em crianças e adolescentes. Por isso, as diretrizes recomendam bicarbonato apenas em situações extremas, como pH < 6,9, e mesmo assim com cautela.

A alternativa D também merece atenção, pois aborda um conceito fisiopatológico importante: a quantidade de insulina necessária para inibir a lipólise e a cetogênese é menor do que a necessária para o controle glicêmico. Estima-se que a dose para suprimir a cetogênese seja cerca de um décimo da dose necessária para prevenir a hiperglicemia. No entanto, a alternativa D afirma o contrário — que a necessidade para reduzir lipólise e cetogênese é menor que para o controle glicêmico —, o que está correto, mas a banca considerou a letra C como gabarito. Vamos analisar cada alternativa em detalhe.

A pegadinha central desta questão está na alternativa D: ela afirma uma verdade fisiopatológica, mas a banca considerou a letra C como correta. Isso pode gerar confusão, pois ambas as afirmações são tecnicamente verdadeiras. No entanto, a alternativa C é a mais diretamente relacionada a uma complicação do tratamento, enquanto a D aborda um conceito fisiopatológico. A banca pode ter considerado a D incorreta por uma imprecisão na redação ou por considerar que a afirmação "a necessidade de insulina para reduzir a lipólise e a cetogênese é menor que para o controle glicêmico" está correta, mas não é o foco da questão. Vamos analisar cada alternativa com profundidade.

Critério

Cetoacidose Diabética (CAD)

Estado Hiperosmolar Hiperglicêmico (EHH)

Glicemia

> 250 mg/dL

> 600 mg/dL

pH arterial

< 7,3 (acidose metabólica)

> 7,3 (sem acidose significativa)

Cetonemia

Positiva (produção hepática de corpos cetônicos)

Negativa ou mínima (cetogênese inibida)

Osmolaridade

Geralmente < 320 mOsm/kg

> 320 mOsm/kg

Deficiência de insulina

Absoluta ou relativa grave

Apenas relativa (suficiente para inibir cetogênese, mas não a hiperglicemia)

Mecanismo fisiopatológico principal

Lipólise e cetogênese hepática

Hiperosmolaridade e desidratação acentuadas

Alternativa A — ❌ Incorreta

A cetoacidose diabética não ocorre apenas em pacientes com diabetes tipo 1. Embora seja mais comum no DM tipo 1, pode ocorrer também no DM tipo 2, especialmente em situações de estresse agudo, infecções, cirurgias ou uso de medicamentos como os inibidores de SGLT2 (que podem causar CAD euglicêmica). O próprio material de apoio menciona que a CAD pode ser a primeira manifestação de DM em cerca de 20% dos pacientes, inclusive naqueles que depois evoluem como diabéticos tipo 2. Portanto, a afirmação de que ocorre "apenas" em DM tipo 1 é incorreta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A infusão de insulina durante a correção da CAD pode levar à hipofosfatemia, pois a insulina promove a entrada de fosfato nas células. No entanto, a reposição de fosfato não é mandatória na fase aguda. O material de apoio afirma que "não existe evidência de benefício da reposição de fosfato nos desfechos clínicos dos pacientes com CAD" e que se pode administrar fosfato apenas em situações específicas, como disfunção cardíaca, anemia, depressão respiratória ou hipofosfatemia grave (< 1,0 mg/dL). Portanto, a reposição não é mandatória, tornando a alternativa incorreta.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O uso de bicarbonato de sódio na CAD pode levar à acidose cerebral paradoxal e ao edema cerebral. Isso ocorre porque o bicarbonato administrado gera CO2, que atravessa a barreira hematoencefálica e reduz o pH do líquido cefalorraquidiano, piorando a acidose no SNC. Esse mecanismo pode causar vasodilatação cerebral, aumento da pressão intracraniana e edema cerebral, complicação grave e potencialmente fatal. Por isso, o bicarbonato é reservado para casos extremos (pH < 6,9) e com cautela. A alternativa C está correta e é o gabarito.

Alternativa D — ❌ Incorreta (na visão da banca)

A afirmação de que "a necessidade de insulina para reduzir a lipólise e a cetogênese é menor que para o controle glicêmico" é fisiologicamente correta. Estima-se que a dose de insulina necessária para inibir a cetogênese seja cerca de um décimo da dose necessária para prevenir a hiperglicemia. No entanto, a banca considerou esta alternativa incorreta. Isso pode ser devido a uma imprecisão na redação ou a uma interpretação diferente. Na prática clínica, durante o tratamento da CAD, a dose de insulina é ajustada para corrigir tanto a hiperglicemia quanto a cetose, e a afirmação isolada pode ser considerada incompleta ou mal formulada. O candidato deve seguir o gabarito oficial.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A hiperglicemia no EHH é, de fato, geralmente mais pronunciada que na CAD (glicemia > 600 mg/dL vs > 250 mg/dL). No entanto, a justificativa apresentada está errada: a hiperglicemia mais acentuada no EHH não se deve à produção excessiva de corpos cetônicos, mas sim à deficiência relativa de insulina, que é suficiente para inibir a cetogênese, mas não para prevenir a hiperglicemia. Além disso, no EHH há redução da filtração glomerular e do fluxo sanguíneo renal, o que dificulta a excreção de glicose pela diurese osmótica, contribuindo para a hiperglicemia mais acentuada. A produção de corpos cetônicos é rara no EHH, não excessiva.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/qg355434