Uma criança do sexo masculino, afrodescendente, nascida de termo, apresentava antropometria neonatal normal. A triagem neonatal para hipotireoidismo congênito e distúrbios metabólicos hereditários foi negativa. Apresentou icterícia neonatal tratada com fototerapia. Aos 30 meses de vida, dois dias após a ingestão de uma porção de favas, apresentou anemia hemolítica grave, que é, provavelmente, devido à
Aincompatibilidade ABO materno‑fetal.
Besferocitose hereditária.
Cdeficiência de piruvato quinase.
Dtalassemia major.
Edeficiência de G6PD.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — deficiência de G6PD.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Anemia hemolítica por deficiência de G6PD
Gabarito: letra E. A anemia hemolítica grave desencadeada pela ingestão de favas em uma criança afrodescendente é classicamente causada pela deficiência de glicose-6-fosfato-desidrogenase (G6PD), uma enzimopatia ligada ao cromossomo X que predispõe os eritrócitos à hemólise quando expostos a agentes oxidantes, como os compostos presentes nas favas (vicina e convicina). O quadro clínico descrito — criança do sexo masculino, afrodescendente, com episódio hemolítico agudo após ingestão de favas — é o protótipo do favismo, uma manifestação da deficiência de G6PD.
A deficiência de G6PD é a enzimopatia mais comum em humanos, afetando mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. A enzima G6PD é a primeira da via das pentoses-fosfato, responsável pela produção de NADPH, que por sua vez mantém a glutationa reduzida (GSH) nos eritrócitos. A GSH é o principal antioxidante celular, protegendo a hemoglobina e as proteínas de membrana contra o dano oxidativo. Quando há deficiência de G6PD, a capacidade de regenerar GSH fica comprometida, e a exposição a agentes oxidantes — como medicamentos (primaquina, sulfonamidas, nitrofurantoína), infecções ou alimentos como as favas — leva à precipitação da hemoglobina (corpos de Heinz) e à hemólise intravascular e extravascular.
A herança é recessiva ligada ao X, o que explica a predominância no sexo masculino: homens têm apenas um cromossomo X, portanto, se herdarem o alelo mutante, expressarão a deficiência. Mulheres, por serem heterozigotas na maioria dos casos, geralmente apresentam atividade enzimática intermediária e são menos sintomáticas. A prevalência é maior em populações de origem africana, mediterrânea e asiática, o que se deve à proteção relativa que a deficiência confere contra a malária grave — um exemplo clássico de seleção natural.
O diagnóstico é feito pela dosagem da atividade enzimática da G6PD, que deve ser realizada após a resolução do episódio hemolítico agudo, pois os reticulócitos (células jovens) têm maior atividade enzimática e podem mascarar a deficiência. O tratamento do episódio agudo é de suporte: hidratação, monitorização e, em casos graves, transfusão de hemácias. A prevenção é a medida mais importante: evitar a exposição aos agentes desencadeantes.
A distinção entre as anemias hemolíticas hereditárias é fundamental para a prática clínica. A esferocitose hereditária é uma membranopatia, caracterizada por esferócitos no sangue periférico e aumento da fragilidade osmótica, sem relação com a ingestão de favas. A deficiência de piruvato quinase é uma enzimopatia da via glicolítica, que cursa com hemólise crônica, mas não é desencadeada por favas. A talassemia major é uma hemoglobinopatia que se manifesta precocemente, com anemia grave desde os primeiros meses de vida, e não tem relação com a ingestão de favas. A incompatibilidade ABO materno-fetal causa hemólise no período neonatal, não aos 30 meses de vida.
A pegadinha desta questão está em reconhecer o gatilho alimentar (favas) como a chave diagnóstica. O candidato que conhece a associação clássica entre favismo e deficiência de G6PD acerta a questão; aquele que se prende a outras anemias hemolíticas hereditárias pode se confundir. A banca explora exatamente essa associação, que é um marco na semiologia das anemias hemolíticas.
Guarde a fronteira entre as anemias hemolíticas hereditárias: membranopatias (esferocitose), enzimopatias (G6PD, piruvato quinase) e hemoglobinopatias (talassemia, anemia falciforme). O gatilho alimentar (favas) aponta diretamente para a deficiência de G6PD.
Anemias hemolíticas hereditárias
1Membranopatias
Esferocitose hereditária
Hemólise crônica exacerbada por infecções
2Enzimopatias
Deficiência de G6PD
Hemólise aguda por oxidantes (favas, medicamentos)
Deficiência de piruvato quinase
Hemólise crônica
3Hemoglobinopatias
Talassemia major
Anemia grave desde os primeiros meses
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A incompatibilidade ABO materno-fetal causa doença hemolítica do recém-nascido, manifestando-se nas primeiras horas ou dias de vida, com icterícia neonatal. No caso descrito, a criança já tem 30 meses de vida, o que exclui essa possibilidade. Além disso, a incompatibilidade ABO não é desencadeada pela ingestão de favas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A esferocitose hereditária é uma membranopatia autossômica dominante, caracterizada por anemia hemolítica, esplenomegalia e esferócitos no sangue periférico. Embora cause anemia hemolítica, não é desencadeada pela ingestão de favas. A hemólise na esferocitose é crônica e exacerbada por infecções, mas não por alimentos específicos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A deficiência de piruvato quinase é uma enzimopatia da via glicolítica, de herança autossômica recessiva, que causa anemia hemolítica crônica. Não há associação com a ingestão de favas. O favismo é uma manifestação específica da deficiência de G6PD, não da deficiência de piruvato quinase.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A talassemia major é uma hemoglobinopatia grave, de herança autossômica recessiva, que se manifesta nos primeiros meses de vida com anemia grave, hepatoesplenomegalia e alterações ósseas. Não é desencadeada pela ingestão de favas. O quadro descrito, com desenvolvimento normal até os 30 meses, não é compatível com talassemia major.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A deficiência de G6PD é a causa clássica de anemia hemolítica aguda desencadeada pela ingestão de favas (favismo). A criança do sexo masculino, afrodescendente, com episódio hemolítico grave após ingestão de favas, é o quadro clássico. A herança recessiva ligada ao X explica a predominância em homens, e a prevalência em afrodescendentes é bem documentada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece outras anemias hemolíticas hereditárias (esferocitose, piruvato quinase, talassemia) para confundir, mas o gatilho alimentar (favas) é a pista decisiva. O candidato que conhece a associação favismo-G6PD acerta; quem se prende a outras causas pode errar. Com treino, você reconhece esses gatilhos clássicos de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as anemias hemolíticas hereditárias, lembre-se do gatilho: membranopatias (esferocitose) → hemólise crônica exacerbada por infecções; enzimopatias (G6PD) → hemólise aguda desencadeada por oxidantes (favas, medicamentos, infecções); hemoglobinopatias (talassemia) → hemólise crônica desde a infância. O favismo é patognomônico da deficiência de G6PD.