Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Oncologia — Quadrix 2024

MedicinaOncologia
Código
qg355521
Banca
Quadrix
Órgão
SES - SP
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Residente Médico - Especialidade: Oncologia Pediátrica
Um homem de 63 anos de idade, com adenocarcinoma de pulmão metastático em vigência de quimioterapia paliativa com cisplatina e pemetrexede (último ciclo há 10 dias), chegou ao pronto‑socorro com quadro de mal‑estar progressivo, fraqueza, taquicardia e hipotensão persistente. Ele relatou náuseas, vômitos e diminuição do apetite nas últimas 48 horas. Ao exame físico, apresentava‑se pálido, com pressão arterial de 80 x 50 mmHg, frequência cardíaca de 115 bpm e temperatura de 37,8 °C. Extremidades com sinais de hipoperfusão e leve confusão mental. Exames laboratoriais evidenciam: leucócitos de 900/mm3; hemoglobina de 9 g/dL; plaquetas de 60.000/mm3; sódio de 128 mEq/L; potássio de 5,5 mEq/L; creatinina de 1,2 mg/dL; e lactato de 3,0 mmol/L. Foi admitido na sala de emergência para serem iniciadas as medidas de suporte.Com base nessa situação hipotética, assinale a alternativa recomendada para a condução do caso.
  1. AIniciar antibioticoterapia de amplo espectro com combinação de Amoxicilina‑clavulanato e Ciprofloxacino
  2. BApesar da gravidade, como paciente proveniente da comunidade, não se faz necessária a indicação de antibioticoterapia de amplo espectro. Conduta que pode induzir à resistência bacteriana.
  3. CPaciente com adenocarcinoma de pulmão em cenário metastático, doença sem proposta de tratamento curativo. Como em vigência de quimioterapia paliativa, não é adequado que sejam instituídas medidas invasivas. Após a estabilização inicial do caso, transferir para a enfermaria e priorizar o conforto.
  4. DIniciar antibioticoterapia de amplo espectro com cefepime e considerar associar vancomicina em contexto de choque. Além das medidas de ressuscitação volêmica, prescrever hidrocortisona pela alta suspeita de insuficiência adrenal associada.
  5. EIniciar antibioticoterapia de amplo espectro com cefepime apenas. Seguir expansão volêmica e na ausência de resposta indicar vasopressores.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Iniciar antibioticoterapia de amplo espectro com cefepime e considerar associar vancomicina em contexto de choque. Além das medidas de ressuscitação volêmica, prescrever hidrocortisona pela alta suspeita de insuficiência adrenal associada.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Choque séptico em paciente oncológico: manejo emergencial

Gabarito: letra D. O paciente apresenta choque séptico (hipotensão refratária, taquicardia, lactato elevado, confusão mental) em contexto de neutropenia febril pós-quimioterapia, o que exige antibioticoterapia de amplo espectro com cobertura para Pseudomonas (cefepime) e, no choque, associação de vancomicina, além de ressuscitação volêmica agressiva e hidrocortisona pela alta suspeita de insuficiência adrenal relativa — condição frequente em pacientes críticos e naqueles em uso prévio de corticoides. A conduta está alinhada às diretrizes de sepse (Surviving Sepsis Campaign) e às recomendações de neutropenia febril.

O choque séptico é uma síndrome de disfunção circulatória aguda causada por infecção, caracterizada por hipotensão persistente que não responde adequadamente à reposição volêmica e exige o uso de vasopressores para manter pressão arterial média adequada, associada a hipoperfusão tecidual (lactato elevado, extremidades frias, confusão mental). No paciente oncológico em quimioterapia, a neutropenia febril (febre + neutrófilos < 500/mm³, aqui 900/mm³ com tendência à queda) é uma emergência: a ausência de neutrófilos compromete a resposta inflamatória local, tornando os sinais clássicos de infecção menos evidentes e acelerando a progressão para sepse grave e choque. Por isso, a regra de ouro é iniciar antibiótico de amplo espectro na primeira hora, sem aguardar confirmação microbiológica, priorizando cobertura para bacilos Gram-negativos, especialmente Pseudomonas aeruginosa, e para Gram-positivos (S. aureus, inclusive MRSA) em situações de instabilidade hemodinâmica.

O cefepime é uma cefalosporina de 4ª geração com excelente cobertura para Pseudomonas e boa atividade contra Gram-negativos e alguns Gram-positivos, sendo uma das opções de primeira linha na neutropenia febril de alto risco. A vancomicina deve ser associada quando há choque séptico, pneumonia, cateter infectado ou colonização por MRSA — exatamente o cenário do paciente em questão. A hidrocortisona (200-300 mg/dia) está indicada no choque séptico refratário a vasopressores, e a suspeita de insuficiência adrenal relativa é ainda maior em pacientes oncológicos, especialmente aqueles com tumores de pulmão (risco de metástases adrenais) ou em uso prévio de corticoides — o que justifica sua prescrição precoce neste caso. A ressuscitação volêmica com cristaloides (30 mL/kg) é a primeira medida, seguida de vasopressores (noradrenalina) se não houver resposta.

A alternativa C é um erro grave de raciocínio: doença metastática não é sinônimo de não tratar complicações agudas reversíveis. O paciente tem uma condição potencialmente fatal, mas tratável (choque séptico), e negar medidas invasivas com base no estágio da doença oncológica contraria os princípios da medicina de emergência e da ética médica — o conforto e a não futilidade não se aplicam a uma complicação aguda com chance real de reversão. A alternativa A erra na escolha do esquema: amoxicilina-clavulanato + ciprofloxacino não é o padrão para neutropenia febril de alto risco com choque, pois não oferece cobertura adequada para Pseudomonas com a mesma segurança do cefepime, e a associação com ciprofloxacino não substitui a necessidade de vancomicina no choque. A alternativa B é perigosamente incorreta: a origem comunitária não reduz a gravidade nem a necessidade de antibiótico de amplo espectro — o risco de resistência não justifica omitir tratamento em paciente com choque séptico e neutropenia. A alternativa E é incompleta: cefepime isolado, sem vancomicina, é insuficiente no choque séptico, pois não cobre adequadamente Gram-positivos resistentes, e a conduta de "esperar resposta à expansão para indicar vasopressores" atrasa o tratamento — vasopressores devem ser iniciados precocemente se a hipotensão persiste após a reposição volêmica inicial.

A pegadinha central desta questão é a tentação de "desistir" do paciente oncológico metastático (alternativa C) ou de subtratar o choque (alternativas A, B e E). O candidato deve lembrar que neutropenia febril é emergência oncológica com protocolo bem definido, e que o choque séptico exige intervenção agressiva e imediata, independentemente do prognóstico da doença de base. A distinção que importa é entre "doença incurável" e "complicação aguda tratável": o primeiro não justifica negligenciar o segundo.

Alternativa A — ❌ Incorreta

O esquema amoxicilina-clavulanato + ciprofloxacino não é o recomendado para neutropenia febril de alto risco com choque séptico. Embora ambos tenham espectro razoável, a combinação não oferece a cobertura antipseudomonas otimizada do cefepime e, principalmente, não inclui vancomicina, que é necessária no contexto de choque para cobertura de Gram-positivos resistentes (MRSA). Além disso, o uso de ciprofloxacino como parte do esquema empírico inicial em neutropenia febril é reservado a situações de baixo risco ou como profilaxia, não como tratamento de choque.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A origem comunitária não exclui a necessidade de antibioticoterapia de amplo espectro. O paciente tem neutropenia febril com critérios de sepse e choque — a gravidade do quadro, e não a origem da infecção, determina a urgência e a amplitude da cobertura antibiótica. A preocupação com resistência bacteriana é legítima, mas não se sobrepõe ao risco imediato de morte por choque séptico não tratado. A conduta correta é iniciar antibiótico de amplo espectro na primeira hora, com cobertura para Pseudomonas e Gram-positivos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Esta alternativa comete um erro ético e clínico grave: doença metastática não é contraindicação para tratamento de complicações agudas reversíveis. O choque séptico é uma condição potencialmente fatal, mas com tratamento eficaz disponível. Negar medidas invasivas (antibióticos, vasopressores, hidrocortisona) com base no estágio da doença oncológica é negligenciar uma emergência tratável e contraria os princípios da medicina de emergência. O conforto e os cuidados paliativos são indicados quando o tratamento não oferece benefício — não é o caso de uma infecção aguda com chance real de reversão.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Esta é a conduta recomendada. O paciente tem choque séptico em contexto de neutropenia febril pós-quimioterapia, o que exige: (1) antibioticoterapia de amplo espectro com cefepime (cobertura antipseudomonas) e associação de vancomicina no choque (cobertura de Gram-positivos resistentes); (2) ressuscitação volêmica agressiva com cristaloides; e (3) hidrocortisona pela alta suspeita de insuficiência adrenal relativa — condição frequente em pacientes críticos e naqueles com tumores sólidos (risco de metástases adrenais) ou uso prévio de corticoides. A conduta está alinhada às diretrizes de sepse e neutropenia febril.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Cefepime isolado, sem vancomicina, é insuficiente no choque séptico. A associação de vancomicina é recomendada quando há instabilidade hemodinâmica, pois amplia a cobertura para Gram-positivos resistentes (MRSA), que podem ser agentes etiológicos em neutropênicos. Além disso, a conduta de "seguir expansão volêmica e na ausência de resposta indicar vasopressores" é passiva e atrasa o tratamento: vasopressores (noradrenalina) devem ser iniciados precocemente se a hipotensão persiste após a reposição volêmica inicial, não apenas após "ausência de resposta" prolongada.

Gabarito: letra D — cefepime + vancomicina no choque, ressuscitação volêmica e hidrocortisona pela suspeita de insuficiência adrenal.

Link permanente: /questoes/qg355521