Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
qg412302
Banca
Avança SP
Órgão
Câmara de Itupeva - SP
Ano
2025
Nível
Médio
Cargo
Agente Legislativo - Serviços Gerais e Auxiliares
Leia o texto a seguir para responder à questão.
A cultura pode ser explícita ou implícita.
Algumas pessoas, mesmo de nível elevado,
sequer sabem que sua organização tem uma
cultura. Em consequência, não lhes é possível
identificá-la e compreendê-la, quanto mais
explicitá-la. Assim, algumas organizações não
têm uma cultura explícita, mas terão sempre uma
cultura, que poderá ser implícita.
A cultura pode ser explicitada por meio de
códigos de ética, declarações de princípios,
credos ou, simplesmente, por meio do conjunto
das políticas e normas da organização. Quando se
explicita a cultura, temos uma cultura oficial, que
são os valores e ideais estabelecidos pela alta
administração, os quais podem coincidir ou não
com o que é praticado.
A cultura de fato, implícita, penetra de forma
mais profunda do que palavras faladas ou
escritas. Quando a cultura real não coincide com
a oficial, o que vale é a real. A melhor maneira
de identificar a cultura real é observar as
preocupações, as decisões e as prioridades da alta
administração: as recompensas, as promoções,
punições, demissões e as razões que ocasionaram
essas decisões. Isso revela a crença e os
julgamentos da alta administração mais do que
qualquer documento escrito, uma vez que no
corpo do texto nem sempre é possível
compreender os elementos centrais de uma
cultura.
Fonte: LACOMBE, F. Teoria geral da administração. São
Paulo: Saraiva, 2009.
Volte ao último período do texto, na segunda oração, há uma figura de linguagem, assinale-a, dentre as opções abaixo:
AMetáfora
BComparação
CCatacrese
DMetonímia
EApóstrofe
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GabaritoC — Catacrese
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Catacrese no Último Período do Texto
Gabarito: letra C. A figura de linguagem presente na segunda oração do último período é a catacrese, pois a expressão "corpo do texto" emprega a palavra "corpo" em sentido figurado, mas de forma cristalizada pelo uso cotidiano, sem que haja um termo mais específico para designar a parte central de um texto. Como se lê no trecho: "no corpo do texto nem sempre é possível compreender os elementos centrais de uma cultura" — aqui, "corpo" não é o corpo humano, mas a parte principal do texto, uma extensão metafórica já incorporada à língua.
O Comando: identificar a figura de linguagem
A questão pede que você volte ao último período do texto e identifique a figura de linguagem presente na segunda oração. Isso exige, primeiro, localizar o trecho exato e, depois, reconhecer o recurso expressivo empregado. Não se trata de interpretar o sentido global do texto, mas de analisar um fragmento específico sob a ótica das figuras de palavras.
O Trecho em Análise
O último período do texto é: "Isso revela a crença e os julgamentos da alta administração mais do que qualquer documento escrito, uma vez que no corpo do texto nem sempre é possível compreender os elementos centrais de uma cultura." A segunda oração é a introduzida por "uma vez que" (oração subordinada adverbial causal): "no corpo do texto nem sempre é possível compreender os elementos centrais de uma cultura".
"no corpo do texto nem sempre é possível compreender os elementos centrais de uma cultura"
A expressão "corpo do texto" é o núcleo da questão. "Corpo" aqui não designa o organismo humano, mas a parte principal, o miolo de um texto escrito. Essa transferência de sentido é uma metáfora, porém cristalizada pelo uso: já não percebemos como figura, pois não há outra palavra mais simples e direta para dizer "parte central do texto". É exatamente essa cristalização que caracteriza a catacrese.
A Técnica: distinguir catacrese de metáfora e metonímia
A catacrese é um tipo de metáfora que se tornou obrigatória na língua, por falta de termo próprio. Exemplos clássicos: "braço da cadeira", "pé da mesa", "céu da boca", "cabeça de alho". Ninguém mais pensa em um braço humano ao dizer "braço da cadeira"; a expressão é cristalizada.
A metáfora, por outro lado, é uma comparação implícita viva, criada pelo autor para um efeito expressivo: "Ele é um leão no trabalho" (não há leão de verdade, mas a imagem é nova e impactante). A metonímia substitui um termo por outro com base em uma relação lógica (parte pelo todo, autor pela obra, continente pelo conteúdo): "Li Machado de Assis" (a obra pelo autor).
No trecho, "corpo do texto" não estabelece uma relação lógica de parte-todo (como "pernas" por "pessoas"), mas uma transferência metafórica que já se incorporou ao vocabulário comum. Por isso, é catacrese, e não metonímia.
Análise das Alternativas
Figuras de linguagem: Metáfora (Comparação implícita, Efeito expressivo (viva)); Catacrese (Metáfora cristalizada, Falta termo próprio, Ex.: "corpo do texto", "pé da mesa"); Metonímia (Relação lógica, Ex.: parte pelo todo, autor pela obra); Comparação (Conectivo explícito ("como")); Apóstrofe (Invocação (vocativo))
Alternativa A — ❌ Incorreta
Metáfora é a comparação implícita sem conectivo, criada para um efeito expressivo. Em "corpo do texto", há sim uma metáfora de origem, mas ela já se cristalizou no uso cotidiano, perdendo o caráter de novidade. A banca oferece "metáfora" como distrator porque a catacrese é, etimologicamente, uma metáfora "gasta". No entanto, a figura específica cobrada é a catacrese, que é a metáfora lexicalizada. A alternativa erra ao não reconhecer a cristalização.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Comparação (ou símile) exige conectivo comparativo explícito: "como", "tal qual", "assim como". No trecho, não há conectivo algum; a transferência de sentido é implícita. Além disso, a comparação estabelece uma relação entre dois elementos presentes no enunciado ("forte como um touro"), o que não ocorre aqui. A alternativa confunde comparação com metáfora/catacrese.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Catacrese é a metáfora cristalizada pelo uso, empregada por falta de termo específico. "Corpo do texto" é exemplo clássico: "corpo" é usado para designar a parte principal do texto, sem que exista outra palavra mais simples. O próprio texto reforça a ideia de "elementos centrais", ou seja, a parte central, o miolo — exatamente o que "corpo" expressa. A expressão é tão comum que não a percebemos mais como figura, mas ela é, sim, uma figura de linguagem do tipo catacrese.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Metonímia é a substituição de um termo por outro com base em uma relação lógica (parte pelo todo, autor pela obra, continente pelo conteúdo). Em "corpo do texto", não há essa relação de contiguidade lógica; há uma transferência metafórica (corpo humano → parte central). A metonímia seria, por exemplo, "o texto tem braços" (parte pelo todo), mas não é o caso. A alternativa confunde os dois mecanismos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Apóstrofe é a invocação a alguém ou algo, real ou imaginário, geralmente com vocativo: "Ó morte, vem!" ou "Meu Deus, ajudai-me!". No trecho, não há nenhuma invocação; o autor apenas constata um fato. A alternativa é totalmente estranha ao contexto, servindo apenas para testar se o candidato conhece a definição.
Conclusão
A questão exige reconhecer a catacrese em "corpo do texto", distinguindo-a da metáfora viva e da metonímia. A chave é perceber a cristalização do sentido figurado. Sempre que a expressão for tão comum que não percebemos mais a figura, trata-se de catacrese. Gabarito: letra C.