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Questão de Português — Morfologia - Pronomes — Avança SP 2025

PortuguêsMorfologia - Pronomes
Código
qg412563
Banca
Avança SP
Órgão
Câmara de Rio Claro - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Controlador Interno
Leia o texto a seguir para responder à questão.


Meu coração


          No fim, desculpe a literatura, é tudo entre nós e o nosso coração. Depois do dito e do feito, depois da paixão e da razão, depois da vida das células e da vida social e da vida cívica e das idas e das voltas, e da História e da biografia, e do que os outros fizeram conosco e nós fizemos com os outros, é tudo entre nós e ele. Segundos fora. Nós e ele. A única conversa que vale, a única intimidade que conta. O coração não tem nada a ver com nada, fora a sístole e a diástole e a sua fisiologia medíocre. Ele nem nos daria conversa, se não dependesse de nós, se não precisasse da embalagem, dos terminais e de alguém que cuide dele. Tudo que lhe atribuem, do mais romântico ao mais calhorda, é falso. Trata-se de um mero músculo, e de um músculo egoísta, que só quer saber da sua própria sobrevivência. Da qual, por uma cruel coincidência, depende a nossa.

        Fala-se do “time do coração”. Mentira. O coração não tem time. O coração não se interessa por futebol. Só hoje, por exemplo, o meu se deu conta de onde estava. Paris, Nantes, Marselha ou qualquer outra cidade, é tudo o mesmo para ele, desde que ele tenha um lugar seguro onde possa bater e cuidar da sua vidinha. Mas de repente ele se deu conta e pediu satisfações. Para onde eu o tinha trazido? Expliquei. A França, a Copa, o Brasil, os jogos, a beleza dos jogos...

       Meu coração não quis ouvir falar da beleza dos jogos. Ele não tem nenhum senso estético. Quis saber que história era aquela de morte súbita.

         — É uma maneira nova de decidir as partidas que acabam empatadas. Há uma prorrogação e quem marcar o primeiro gol ganha.

        Meu coração não quis acreditar.

        — Quer dizer que, se esse time pelo qual você torce, como é mesmo o nome?

        — Brasil.

     — Quer dizer que, se o Brasil empatar com algum outro time, tem prorrogação com morte súbita?

        — É...

        — Você sabia disso quando me trouxe para cá?

        — Sabia.

       — Você deliberadamente me trouxe a um evento em que eu posso parar de repente, mesmo não tendo nada a ver com isso? Não era para ser um campeonato de futebol, um esporte, um divertimento, enfim, nada que me dissesse respeito?

       — Desculpe. Eu tentei substituí-lo pelo distanciamento crítico, mas...

    — Só me diz uma coisa. Se a prorrogação terminar sem que ninguém marque gol, o que acontece?

       — Aí decidem nos pênaltis.

    — Me leva pra casa. Me leva pra casa imediatamente. E pare de me envolver nos seus divertimentos. Você parece que não tem coração.

       — Mas nada disso vai acontecer com o Brasil. Prorrogação, pênaltis, nada disso.

       — Quase aconteceu contra a Dinamarca!

       — É, mas...

       — Me tira daqui!


VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
Considere o seguinte excerto: “Da qual, por uma cruel coincidência, depende a nossa.” O pronome relativo empregado neste excerto retoma no texto o termo antecedente:
  1. A“tudo que lhe atribuem”.
  2. B“músculo egoísta”.
  3. C“sua própria sobrevivência”.
  4. D“embalagem”.
  5. E“fisiologia medíocre”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — “sua própria sobrevivência”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise do Pronome Relativo “Da qual”

Gabarito: letra C. O pronome relativo “Da qual” retoma o termo “sua própria sobrevivência”, como se comprova no trecho: “que só quer saber da sua própria sobrevivência. Da qual, por uma cruel coincidência, depende a nossa.” A oração “depende a nossa” (nossa sobrevivência) depende da sobrevivência do coração. As demais alternativas ou estão fora do escopo ou confundem o referente.

Alternativa A — ❌ Incorreta

“tudo que lhe atribuem”

Esse trecho aparece antes: “Tudo que lhe atribuem, do mais romântico ao mais calhorda, é falso.” O pronome “Da qual” não se refere a “tudo”, pois o sentido não se encaixa. A oração “depende a nossa” não pode depender de “tudo que lhe atribuem”.

Erro: fora do escopo (o antecedente não é compatível com o sentido da oração subordinada).

Alternativa B — ❌ Incorreta

“músculo egoísta”

O texto diz: “Trata-se de um mero músculo, e de um músculo egoísta, que só quer saber da sua própria sobrevivência.” O pronome relativo “que” nessa oração retoma “músculo egoísta”, mas o “Da qual” aparece depois, referindo-se a “sua própria sobrevivência” (o termo feminino singular). “Músculo egoísta” é masculino, incompatível com “Da qual” (feminino). Além disso, a oração “depende a nossa” não faria sentido se ligada a “músculo egoísta”.

Erro: troca de conceito (confunde o referente do pronome, ignorando a concordância de gênero e a sequência lógica).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“sua própria sobrevivência”

Conforme justificado, o trecho “Da qual, por uma cruel coincidência, depende a nossa” explica que nossa sobrevivência depende da sobrevivência do próprio coração. O pronome “a qual” (precedido da preposição “de”) retoma anaforicamente o termo “sua própria sobrevivência”, estabelecendo a coesão referencial.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“embalagem”

A palavra “embalagem” aparece no texto: “se não precisasse da embalagem, dos terminais e de alguém que cuide dele.” Trata-se de algo de que o coração precisa, mas não é o antecedente de “Da qual”. A oração “depende a nossa” não se relaciona com “embalagem”.

Erro: fora do escopo (o termo não é retomado pelo pronome relativo em questão).

Alternativa E — ❌ Incorreta

“fisiologia medíocre”

O texto menciona “a sua fisiologia medíocre” logo antes: “O coração não tem nada a ver com nada, fora a sístole e a diástole e a sua fisiologia medíocre.” Esse termo é feminino, mas o sentido não se mantém. A oração “depende a nossa” não depende da fisiologia medíocre, mas da sobrevivência.

Erro: contradiz o texto (a relação de dependência é com a sobrevivência, não com a fisiologia).

Gabarito: letra C.

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