Questão de Medicina — Ortopedia e Traumatologia — Avança SP 2025
Medicina›Ortopedia e Traumatologia
Código
qg415247
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Caconde - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Ortopedista
Considere o quadro clínico de artropatia de Charcot em paciente diabético, caracterizada por edema, instabilidade e colapso ósseo evidenciados na radiografia na fase aguda; assinale a alternativa que correlacione corretamente os achados diagnósticos com a conduta terapêutica adequada:
AImobilize o paciente com descarga total utilizando gesso ou bota de contato total por, no mínimo, 12 semanas, associado a controle rigoroso da glicemia, indicado para a fase aguda da doença.
BProceda com artrodese interna imediata, indicada para estabilização em qualquer estágio, mesmo na fase aguda, independentemente da inflamação ativa.
CRealize revascularização com enxerto vascular, reservada para casos de isquemia crítica, sem correlação direta com a artropatia de Charcot.
DAdote órtese personalizada e modificação de atividades, indicada para manejo conservador em estágio crônico estabilizado com deformidade leve e sem instabilidade.
EUtilize terapia medicamentosa isolada com bifosfonatos, visando reduzir a reabsorção óssea, sem suporte de imobilização, indicada para casos refratários ao tratamento convencional.
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GabaritoA — Imobilize o paciente com descarga total utilizando gesso ou bota de contato total por, no mínimo, 12 semanas, associado a controle rigoroso da glicemia, indicado para a fase aguda da doença.
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Artropatia de Charcot no pé diabético: diagnóstico e conduta
Gabarito: letra A. Na fase aguda da artropatia de Charcot, o tratamento é conservador e baseia-se na imobilização com descarga total do membro — gesso ou bota de contato total — por, no mínimo, 12 semanas, associada ao controle rigoroso da glicemia. A alternativa A correlaciona corretamente os achados (edema, instabilidade e colapso ósseo) com a conduta adequada para a fase aguda.
A artropatia de Charcot, também chamada de neuroartropatia ou pé de Charcot, é uma complicação grave e progressiva que acomete principalmente pacientes diabéticos com neuropatia periférica. A perda da sensibilidade protetora faz com que o paciente não perceba microtraumas repetidos, levando a um processo inflamatório agudo que afeta os tecidos periarticulares do pé e tornozelo. Esse quadro resulta em subluxação óssea, deslocamento e fraturas, culminando no colapso progressivo do arco plantar e em deformidades características. O diagnóstico é essencialmente clínico e radiológico: na fase aguda, a radiografia pode evidenciar edema de partes moles, osteopenia, fragmentação óssea e colapso articular, enquanto na fase crônica predominam a esclerose, a deformidade e a instabilidade.
O tratamento da fase aguda é um dos pontos mais críticos e, ao mesmo tempo, mais cobrados em provas. O objetivo primordial é interromper o ciclo de trauma e inflamação, evitando a progressão da deformidade. Para isso, a imobilização com descarga total do membro é a pedra angular: o gesso ou a bota de contato total (total contact cast) distribui a pressão por toda a superfície plantar, protegendo as áreas de proeminência óssea e permitindo que o processo inflamatório ceda. O tempo mínimo de imobilização é de 12 semanas, podendo se estender por meses, até que haja evidência clínica e radiológica de consolidação e resolução do edema. O controle rigoroso da glicemia é fundamental, pois a hiperglicemia crônica perpetua a neuropatia e prejudica a cicatrização tecidual.
É importante distinguir a fase aguda da fase crônica, pois a conduta muda radicalmente. Na fase aguda, o tratamento é conservador, com imobilização e descarga total; na fase crônica, com deformidade estabilizada e sem instabilidade, pode-se optar por órteses personalizadas e modificação de atividades. A cirurgia (artrodese) é reservada para casos selecionados, geralmente na fase crônica, quando há deformidade grave, instabilidade ou ulceração recorrente que não responde ao tratamento conservador. A artrodese na fase aguda, com inflamação ativa, é contraindicada, pois a taxa de falha e complicações é alta.
A pegadinha clássica da banca é inverter as condutas entre as fases: apresentar a cirurgia como opção para a fase aguda ou a órtese como tratamento da fase aguda. O candidato deve ter em mente que a fase aguda é um processo inflamatório ativo, que exige repouso e imobilização, enquanto a fase crônica é um processo estabilizado, que pode ser manejado com órteses e, em casos selecionados, com cirurgia. Além disso, a banca pode tentar confundir com tratamentos de outras complicações do pé diabético, como a revascularização (para isquemia) ou o uso isolado de bifosfonatos (que não tem papel estabelecido no tratamento da artropatia de Charcot).
Guarde a fronteira entre fase aguda e fase crônica: é exatamente nela que as alternativas se dividem. A alternativa correta é a que associa a imobilização com descarga total à fase aguda, enquanto as incorretas misturam condutas de outras fases ou de outras complicações.
Artropatia de Charcot
1Fase aguda
Tratamento conservador
Imobilização com descarga total
gesso/bota de contato total
Mínimo 12 semanas
Controle rigoroso da glicemia
Cirurgia (artrodese) contraindicada
2Fase crônica
Deformidade estabilizada
Órtese personalizada
Modificação de atividades
Cirurgia (artrodese) em casos selecionados
Deformidade grave
Instabilidade
Ulceração recorrente
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A está correta porque descreve exatamente a conduta recomendada para a fase aguda da artropatia de Charcot: imobilização com descarga total (gesso ou bota de contato total) por, no mínimo, 12 semanas, associada ao controle rigoroso da glicemia. Essa conduta visa interromper o ciclo de trauma e inflamação, permitindo a consolidação óssea e a resolução do edema. O controle glicêmico é essencial para evitar a progressão da neuropatia e favorecer a cicatrização.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B está incorreta porque propõe artrodese interna imediata, indicada para estabilização em qualquer estágio, mesmo na fase aguda. A artrodese é um procedimento cirúrgico que deve ser evitado na fase aguda, quando há inflamação ativa, edema e hiperemia. A cirurgia nesse contexto apresenta alto risco de falha de consolidação, infecção e complicações. O tratamento inicial da fase aguda é sempre conservador, com imobilização e descarga total. A artrodese é reservada para a fase crônica, em casos de deformidade grave, instabilidade ou ulceração recorrente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C está incorreta porque associa a revascularização com enxerto vascular à artropatia de Charcot. A revascularização é indicada para casos de isquemia crítica, que é uma complicação vascular do pé diabético, não uma consequência direta da neuroartropatia. A artropatia de Charcot é causada por neuropatia periférica, não por doença arterial obstrutiva. Embora o paciente diabético possa ter ambas as condições, a revascularização não trata a artropatia de Charcot em si. A alternativa confunde duas complicações distintas do pé diabético: a neuropática e a isquêmica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D está incorreta porque indica órtese personalizada e modificação de atividades para o manejo conservador em estágio crônico estabilizado com deformidade leve e sem instabilidade. Embora essa conduta seja válida para a fase crônica, ela não é a conduta adequada para a fase aguda, que é o foco do enunciado. Na fase aguda, a imobilização com descarga total é obrigatória, e a órtese personalizada pode não proporcionar a descarga adequada necessária para interromper o processo inflamatório. A alternativa descreve uma conduta para a fase crônica, não para a fase aguda.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E está incorreta porque propõe terapia medicamentosa isolada com bifosfonatos, visando reduzir a reabsorção óssea, sem suporte de imobilização. Os bifosfonatos não têm papel estabelecido no tratamento da artropatia de Charcot, e o tratamento não pode ser feito sem imobilização. A imobilização com descarga total é a base do tratamento da fase aguda, e a terapia medicamentosa isolada não é suficiente para interromper o ciclo de trauma e inflamação. A alternativa sugere uma conduta sem suporte científico e sem correlação com a conduta adequada.