Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — Avança SP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg415261
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Caconde - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Pediatra
Adolescente de 14 anos, com diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1 há 5 anos, em uso de insulina glargina e lispro, apresenta controle glicêmico inadequado (HbA1c: 9,8%). Monitorização glicêmica por sensor evidencia grande variabilidade, com hipoglicemias noturnas frequentes e hiperglicemia persistente no período pré-prandial matutino. Nega omissão de doses ou erros na aplicação. Exame físico sem lipodistrofias. Em relação ao fenômeno observado e sua abordagem terapêutica, assinale a alternativa correta:
AO efeito Somogyi é improvável neste caso, sendo a hiperglicemia matinal decorrente do pico da glargina após 12 horas da aplicação noturna.
BA redução da dose de insulina basal noturna em 20% está indicada, mantendo-se o mesmo esquema de correção com insulina ultra-rápida.
CA mudança para esquema de múltiplas doses com insulina degludeca e lispro pode reduzir a variabilidade glicêmica pela maior previsibilidade farmacocinética.
DO sistema híbrido de infusão contínua de insulina está contraindicado pela presença de hipoglicemia desapercebida noturna.
EA metformina deve ser associada ao esquema insulínico para redução do fenômeno do alvorecer e da resistência insulínica puberal.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — A mudança para esquema de múltiplas doses com insulina degludeca e lispro pode reduzir a variabilidade glicêmica pela maior previsibilidade farmacocinética.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Fenômeno do alvorecer e efeito Somogyi no diabetes mellitus tipo 1
Gabarito: letra C. O quadro descrito — hipoglicemias noturnas frequentes com hiperglicemia pré-prandial matinal — é compatível com o efeito Somogyi (hipoglicemia noturna seguida de hiperglicemia de rebote por hormônios contrarreguladores), e a alternativa correta propõe a troca da glargina pela degludeca, análogo de ação ultraprolongada com perfil farmacocinético mais previsível e menor risco de hipoglicemia noturna, o que reduz a variabilidade glicêmica. As demais alternativas contêm erros conceituais ou de conduta.
O efeito Somogyi é um fenômeno clássico no tratamento do diabetes: uma hipoglicemia noturna (geralmente assintomática) desencadeia a liberação de hormônios contrarreguladores — glucagon, adrenalina, cortisol e hormônio do crescimento — que, por sua vez, provocam hiperglicemia de rebote nas horas seguintes, frequentemente percebida como hiperglicemia matinal. O fenômeno do alvorecer (dawn phenomenon), por outro lado, é a hiperglicemia matinal causada pelo pico fisiológico de hormônio do crescimento nas primeiras horas da manhã, sem hipoglicemia prévia. A distinção é crucial: no Somogyi, há hipoglicemia noturna documentada (como no caso, pela monitorização por sensor); no alvorecer, não há hipoglicemia — apenas o aumento da demanda de insulina ao amanhecer.
A insulina glargina U100 tem duração de aproximadamente 24 horas, mas com perfil não totalmente plano, podendo apresentar pequenos picos e maior variabilidade em alguns pacientes. A insulina degludeca é um análogo de ação ultraprolongada (duração > 42 horas), com perfil farmacocinético mais estável e previsível, associado a menor risco de hipoglicemia, especialmente noturna, e menor variabilidade glicêmica. Por isso, em pacientes com hipoglicemias noturnas recorrentes e grande variabilidade, a troca da glargina pela degludeca é uma estratégia racional e respaldada pelas diretrizes.
A bomba de infusão subcutânea contínua de insulina (ISCI) é uma opção terapêutica válida e não está contraindicada pela presença de hipoglicemia noturna — pelo contrário, sistemas híbridos com suspensão automática por sensor de glicose podem reduzir a hipoglicemia. A metformina não é indicada rotineiramente no DM1 pediátrico; embora possa ser considerada em adolescentes com sobrepeso/obesidade e resistência insulínica, não é a abordagem para o fenômeno descrito. A redução da dose basal noturna em 20% sem reavaliação do esquema não é a conduta mais adequada, pois não aborda a causa da variabilidade.
A pegadinha central desta questão é a distinção entre efeito Somogyi e fenômeno do alvorecer, além do conhecimento das diferenças farmacocinéticas entre os análogos de insulina basal. O candidato que confunde os dois fenômenos pode errar a alternativa A (que nega o Somogyi) ou a E (que atribui ao alvorecer).
Fenômeno
Hipoglicemia noturna prévia
Mecanismo
Hiperglicemia matinal
Efeito Somogyi
Presente
Hormônios contrarreguladores (rebote)
Sim
Fenômeno do alvorecer
Ausente
Pico fisiológico de GH ao amanhecer
Sim
Hiperglicemia matinal no DM1: Efeito Somogyi (hipoglicemia noturna prévia, rebote por contrarreguladores); Fenômeno do alvorecer (pico de GH ao amanhecer, sem hipoglicemia prévia); Conduta (Degludeca (perfil estável), reduz hipoglicemia noturna)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o efeito Somogyi é improvável e que a hiperglicemia matinal decorre do pico da glargina após 12 horas. Erro duplo: (1) o quadro de hipoglicemias noturnas frequentes com hiperglicemia matinal é exatamente o padrão do efeito Somogyi — a hipoglicemia noturna precede e causa a hiperglicemia de rebote; (2) a glargina U100 tem perfil "sem pico" (pouco ou nenhum pico), com duração de até 24 horas, não apresentando pico às 12 horas. A descrição de pico após 12 horas se aproximaria mais do perfil da NPH (ação intermediária, pico em 6-15 horas), não da glargina.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A redução da dose de insulina basal noturna em 20% é uma conduta pontual que não aborda a causa da variabilidade glicêmica. Embora ajustes de dose sejam necessários, a simples redução de 20% sem reavaliação do esquema e sem considerar a troca para um análogo mais estável não é a abordagem mais adequada para o caso. Além disso, a alternativa sugere manter o mesmo esquema de correção, o que não resolve o problema de fundo — a instabilidade do perfil basal.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A troca da glargina pela degludeca é uma estratégia racional e respaldada. A degludec é um análogo de ação ultraprolongada (duração > 42 horas) com perfil farmacocinético mais plano e previsível, associado a menor risco de hipoglicemia noturna e menor variabilidade glicêmica em comparação com a glargina. As diretrizes recomendam a degludeca como opção para pacientes com hipoglicemias noturnas recorrentes ou grande variabilidade glicêmica, exatamente o perfil do paciente descrito. A manutenção da lispro como insulina bolus é apropriada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O sistema híbrido de infusão contínua de insulina (bomba com suspensão automática por sensor) não está contraindicado pela presença de hipoglicemia noturna desapercebida — pelo contrário, é uma das indicações, pois o sistema pode suspender a infusão quando detecta glicose baixa, reduzindo o risco de hipoglicemia. A alternativa inverte a lógica: a hipoglicemia noturna é uma indicação relativa, não contraindicação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A metformina não é indicada rotineiramente no DM1 pediátrico. Embora possa ser considerada em adolescentes com sobrepeso/obesidade e resistência insulínica (especialmente na puberdade), não é a abordagem para o fenômeno descrito (efeito Somogyi). Além disso, a metformina não atua sobre o fenômeno do alvorecer nem sobre o efeito Somogyi — sua ação é sobre a sensibilidade à insulina, não sobre a fisiopatologia desses fenômenos. A alternativa mistura conceitos e indica uma conduta não padronizada para o caso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre efeito Somogyi e fenômeno do alvorecer. No Somogyi, há hipoglicemia noturna que precede a hiperglicemia matinal (como no caso); no alvorecer, não há hipoglicemia — apenas o pico de hormônio do crescimento ao amanhecer. A alternativa A nega o Somogyi e atribui a hiperglicemia a um pico inexistente da glargina; a E atribui ao alvorecer e sugere metformina. Identificar a presença de hipoglicemia noturna é a chave para diferenciar os dois fenômenos.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, ao ver "hipoglicemia noturna + hiperglicemia matinal", pense em Somogyi; ao ver "hiperglicemia matinal sem hipoglicemia noturna", pense em alvorecer. E lembre: a degludeca é o análogo basal com perfil mais estável, indicado para reduzir variabilidade e hipoglicemia noturna — é a resposta quando a questão pede otimização do esquema basal.