Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — Avança SP 2025
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
qg417762
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Cerquilho - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico da Estratégia da Saúde da Família
Qual é o principal mecanismo patogênico do Clostridium perfringens em infecções e qual é um achado clínico característico dessa condição?
AProdução de exotoxinas que causam diarreia aquosa intensa, com desidratação.
BFormação de gás no tecido, levando à fasciíte necrosante, com dor intensa e crepitação subcutânea.
CProdução de cápsulas que dificultam a fagocitose, resultando em abscessos cutâneos.
DInvasão direta das células epiteliais do intestino, causando colite pseudomembranosa.
EProdução de enterotoxinas que levam a um quadro de síndrome hemolítica-urêmica.
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GabaritoB — Formação de gás no tecido, levando à fasciíte necrosante, com dor intensa e crepitação subcutânea.
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Clostridium perfringens: gangrena gasosa e fasciíte necrosante
Gabarito: letra B. O principal mecanismo patogênico do Clostridium perfringens em infecções de tecidos moles é a produção de exotoxinas (especialmente a toxina alfa, uma lecitinase) que causam necrose tecidual e formação de gás no tecido, levando à fasciíte necrosante, com dor intensa e crepitação subcutânea — achado clínico característico. As demais alternativas descrevem mecanismos de outros agentes (toxinas de Vibrio cholerae, cápsula de Streptococcus pneumoniae, toxinas de Clostridioides difficile e toxina Shiga de Shigella dysenteriae).
O Clostridium perfringens é um bacilo gram-positivo anaeróbio formador de esporos, amplamente distribuído no solo e no trato gastrointestinal de humanos e animais. Em infecções de tecidos moles, o mecanismo patogênico central é a produção de exotoxinas, sendo a toxina alfa (fosfolipase C/lecitinase) a mais importante. Essa toxina degrada fosfolipídeos de membranas celulares, causando destruição de eritrócitos, leucócitos, plaquetas e células endoteliais, o que leva a necrose tecidual extensa e aumento da permeabilidade vascular. Além disso, o microrganismo é sacarolítico e proteolítico, fermentando carboidratos teciduais com produção de gás (hidrogênio e dióxido de carbono) que se acumula nos tecidos, gerando o enfisema subcutâneo e a crepitação característica.
A infecção mais grave é a gangrena gasosa (mionecrose clostridial), que ocorre quando os esporos contaminam feridas com tecido desvitalizado, necrótico ou com corpo estranho, criando ambiente anaeróbio propício à germinação. O período de incubação é curto, geralmente menos de 24 horas. Clinicamente, o paciente apresenta dor intensa e desproporcional às lesões aparentes, edema, sinais inflamatórios, febre baixa e, progressivamente, crepitação subcutânea pela presença de gás. A pele assume coloração bronzeada, evoluindo para azul-escura com flictenas serosas e hemorrágicas. A infecção pode progredir rapidamente para choque, insuficiência renal e óbito se não tratada precocemente com desbridamento cirúrgico amplo e antibióticos.
É fundamental distinguir o C. perfringens de outros agentes que causam diarreia ou colite. O Clostridioides difficile (anteriormente Clostridium difficile) produz toxinas citopáticas que causam colite pseudomembranosa, associada ao uso de antibióticos e hospitalização. O Vibrio cholerae produz enterotoxina que ativa a adenilato ciclase, causando diarreia aquosa profusa. A Shigella dysenteriae tipo 1 produz toxina Shiga, que pode causar síndrome hemolítico-urêmica. Já a cápsula bacteriana que dificulta a fagocitose é típica de Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Neisseria meningitidis, não do C. perfringens.
A pegadinha desta questão está em associar o C. perfringens a mecanismos de outros patógenos entéricos. O candidato que confunde os clostrídios (perfringens × difficile) ou que não conhece a apresentação clássica da gangrena gasosa tende a errar. Guarde a tríade: exotoxina + gás + crepitação = C. perfringens.
Característica
Clostridium perfringens (Gabarito B)
Vibrio cholerae (A)
Clostridioides difficile (D)
Shigella dysenteriae (E)
Mecanismo patogênico
Exotoxinas (toxina alfa) + fermentação de carboidratos com produção de gás
Enterotoxina que ativa adenilato ciclase (aumento de AMPc)
Toxinas A e B (citotoxinas) que destroem o epitélio colônico
Toxina Shiga que danifica células endoteliais renais
Achado clínico característico
Fasciíte necrosante/mionecrose com dor intensa e crepitação subcutânea
Diarreia aquosa intensa com desidratação
Colite pseudomembranosa
Síndrome hemolítico-urêmica (SHU)
Tipo de infecção
Tecidos moles (gangrena gasosa)
Intestinal (secretora)
Intestinal (pós-antibiótico, hospitalar)
Intestinal (disenteria)
Clostridium perfringens: Mecanismo patogênico (Exotoxina alfa (lecitinase), Fermentação de carboidratos, Formação de gás no tecido); Quadro clínico (Gangrena gasosa, Dor intensa desproporcional, Crepitação subcutânea); Diagnóstico diferencial (C. difficile → colite pseudomembranosa, V. cholerae → diarreia aquosa, Shigella → SHU)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A produção de exotoxinas que causam diarreia aquosa intensa com desidratação é característica do Vibrio cholerae, cuja enterotoxina ativa a adenilato ciclase, aumentando o AMP cíclico e causando hipersecreção de líquido isotônico. No C. perfringens, a toxina alfa causa necrose tecidual, não diarreia secretora. A diarreia aquosa intensa é típica de toxinas que agem no intestino delgado, não de toxinas que agem em tecidos moles.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão o mecanismo patogênico do C. perfringens: produção de exotoxinas (toxina alfa) que causam necrose tecidual e formação de gás (pela fermentação de carboidratos), resultando em fasciíte necrosante/mionecrose com dor intensa e crepitação subcutânea — o achado clínico mais característico da gangrena gasosa. A crepitação é o sinal patognomônico que reflete a presença de gás no tecido subcutâneo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A produção de cápsulas que dificultam a fagocitose é um mecanismo de virulência de bactérias como Streptococcus pneumoniae, Neisseria meningitidis e Haemophilus influenzae, que causam abscessos e infecções respiratórias/meningeas. O C. perfringens não é capsulado e não causa abscessos cutâneos como apresentação típica; sua virulência está nas exotoxinas e na capacidade de produzir gás.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A invasão direta das células epiteliais do intestino causando colite pseudomembranosa é o mecanismo do Clostridioides difficile, que produz toxinas A e B (citotoxinas) que destroem o epitélio colônico, formando pseudomembranas. O C. perfringens pode causar enterite necrosante (enterotoxemia) em raros casos, mas não colite pseudomembranosa — essa é a assinatura do C. difficile, não do C. perfringens.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A produção de enterotoxinas que levam à síndrome hemolítico-urêmica (SHU) é característica da Shigella dysenteriae tipo 1 e da E. coli produtora de toxina Shiga (STEC). A toxina Shiga danifica células endoteliais renais, causando SHU. O C. perfringens não produz toxina Shiga e não está associado à SHU; sua toxina alfa causa necrose tecidual local, não dano renal sistêmico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os clostrídios: C. perfringens (gangrena gasosa, gás, crepitação) × C. difficile (colite pseudomembranosa, diarreia pós-antibiótico). Além disso, mistura mecanismos de outros patógenos entéricos (cólera, Shigella) para induzir o erro. Decore a tríade do perfringens: exotoxina + gás + crepitação — e separe mentalmente cada agente pelo seu quadro clínico típico.
Gabarito: letra B — a única que associa corretamente o mecanismo (exotoxinas com formação de gás) ao achado clínico (fasciíte necrosante com crepitação subcutânea).