Questão de Português — Gêneros Textuais — Avança SP 2025
Português›Gêneros Textuais
Código
qg419826
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Laranjal Paulista - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica em Área Específica - PEB II - Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Adolescentes do ano 2000
Elas se telefonam, se bipam, marcam
encontros e se reúnem nervosas diante da
escrivaninha, cadernos e livros abertos e
espalhados. Não devo dizer escrivaninha, é termo
da minha adolescência, e entre a minha e a da
minha filha se passaram 47 anos, o Brasil mudou,
as palavras mudaram. No entanto, alguma coisa
permanece imutável. Percebo ao passar pelo
corredor, vendo-as no quarto, deitadas no chão,
sentadas à escrivaninha, livros e cadernos
compulsados, sofregamente. Não, não se diz
caderno, e sim fichário. Elas estão ansiosas,
inquietas. São dias de prova. O clima é o mesmo
da minha adolescência. Na aula a atenção se
dirigia pouco ao professor. A menos que fosse criativo e soubesse segurar a classe. Se houvesse,
como hoje, jovens professores, as meninas
gostariam mais. Por que nossos professores
pareciam velhos e sisudos?
Nas vésperas das provas, os estoques de
Pervitin esgotavam-se nas farmácias. Era preciso
passar a noite acordado. Podíamos comprar
Pervitin sem receita. Mas ninguém se viciava,
pois era apenas para as provas. A ansiedade que
essas meninas sentem é a mesma que sofríamos.
Uma angústia que as deixa desatentas, irritadas.
Viram e reviram páginas do livro, apostilas,
pulam de um ponto ao outro, sem concentração.
Como todos fizemos, menos os CDFs. Esses
sabiam e sabem tudo. De que matéria orgânica
são feitos? Chegava um momento, na véspera da
prova, que cada um decidia aprender bem um
único ponto e jogar na sorte. Era a Mega Sena
educacional. (...)
Há uma diferença entre essa geração e a
minha. A atual não recorre aos poderes
superiores. Nunca as vi rezando. Nem pondo
sobre a mesa santinhos de Santo Expedito ou São
Roque. Contam com elas mesmas. Na minha
época, dia de exame final, era uma romaria à
igreja. Findos os estudos, a vida seria leve. Como
supor que o coração jamais descansa? Os santos
recebiam com o olhar complacente as promessas
que, sabiam, seriam esquecidas. (...) Chegamos ao ano 2000 e nada mudou! Mesmo tendo tudo
mudado. A adolescência será sempre uma e
indivisível! Sofredora e feliz. Assim, carregamos
a vida toda um coração adolescente, dolorido um
dia, sorridente no outro.
BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Adolescentes do
ano 2000. Disponível em
.<https://www.professorcadu.com.br/blog/adoles
centes-do-ano-2000/1>.
Em relação ao texto “Adolescentes do ano 2000”, é correto afirmar que se trata de um(a):
Acrônica que se baseia numa ficção do autor e apresenta a adolescência como um mal inevitável na sociedade moderna.
Bcrônica que se baseia num fato da realidade e discute aspectos da adolescência de diferentes gerações.
Cconto que apresenta como personagens algumas pessoas famosas da sociedade contemporânea.
Dromance baseado na vida do autor, em que este defende a ideia de que os professores antigos são melhores do que os novos.
Econto descritivo, em que o autor desenvolve os efeitos da automedicação no organismo humano.
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GabaritoB — crônica que se baseia num fato da realidade e discute aspectos da adolescência de diferentes gerações.
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Gênero Textual: Crônica
Gabarito: letra B. O texto é uma crônica porque parte de uma observação da realidade — o narrador vê as adolescentes estudando para provas — e, a partir dela, discute aspectos da adolescência em diferentes gerações, comparando a sua época com a atual. A passagem que ancora isso está no início: "Percebo ao passar pelo corredor, vendo-as no quarto, deitadas no chão, sentadas à escrivaninha, livros e cadernos compulsados, sofregamente" e, mais adiante, "A ansiedade que essas meninas sentem é a mesma que sofríamos".
O comando pede que você identifique o gênero textual e a afirmação correta sobre ele. Isso é uma questão de compreensão global: você precisa reconhecer as marcas do gênero (crônica) e verificar se a descrição da alternativa bate com o que o texto realmente faz. Não é preciso inferir nada além do que está escrito — a resposta está na superfície, mas exige que você não se deixe levar por distratores que extrapolam ou invertem o sentido.
O texto de Ignácio de Loyola Brandão é um exemplo clássico de crônica: um texto curto, em prosa, que parte de um fato cotidiano (as meninas estudando para provas) e faz uma reflexão sobre a vida, comparando gerações. O narrador é em primeira pessoa, fala de suas memórias ("entre a minha e a da minha filha se passaram 47 anos") e estabelece um diálogo com o leitor. A crônica é um gênero híbrido, entre o jornalismo e a literatura, e aqui isso fica claro: há observação da realidade, mas também subjetividade e tom pessoal.
A técnica para resolver é: primeiro, identifique o gênero (crônica, conto, romance) pelas características estruturais e temáticas; depois, teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora? A alternativa correta é a única que descreve fielmente o que o texto faz, sem inventar.
Crônica: Base (Fato da realidade, Observação cotidiana); Reflexão (Adolescência, Diferentes gerações); Características (Texto curto em prosa, Tom pessoal e subjetivo, Diálogo com o leitor)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa diz que é uma crônica "que se baseia numa ficção do autor" e apresenta a adolescência "como um mal inevitável na sociedade moderna". O texto não é ficcional: o narrador observa cenas reais do cotidiano ("Percebo ao passar pelo corredor, vendo-as no quarto"). Além disso, a adolescência não é tratada como um "mal" — o texto a descreve como "Sofredora e feliz" e conclui que "carregamos a vida toda um coração adolescente, dolorido um dia, sorridente no outro". A alternativa extrapola ao acrescentar um juízo negativo que não está no texto.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que é uma "crônica que se baseia num fato da realidade e discute aspectos da adolescência de diferentes gerações". Isso é exatamente o que o texto faz: o narrador observa as meninas estudando (fato real) e compara com sua própria adolescência, 47 anos antes. Veja a passagem que prova:
"entre a minha e a da minha filha se passaram 47 anos, o Brasil mudou, as palavras mudaram. No entanto, alguma coisa permanece imutável."
E também: "A ansiedade que essas meninas sentem é a mesma que sofríamos." O texto discute a adolescência de diferentes gerações, mostrando o que mudou (as palavras, os costumes) e o que permanece (a ansiedade, a insegurança). A alternativa é uma paráfrase fiel do texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa diz que é um "conto que apresenta como personagens algumas pessoas famosas da sociedade contemporânea". O texto não é um conto (não tem enredo ficcional com conflito e desfecho), e as personagens são anônimas — as meninas, a filha do narrador, os professores. Não há nenhuma pessoa famosa mencionada. A alternativa tangencia o tema ao falar de "pessoas famosas", algo completamente ausente do texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que é um "romance baseado na vida do autor, em que este defende a ideia de que os professores antigos são melhores do que os novos". O texto não é um romance (é uma crônica curta), e o autor não defende que professores antigos são melhores. Na verdade, ele diz: "Se houvesse, como hoje, jovens professores, as meninas gostariam mais" — ou seja, ele sugere que os professores novos poderiam ser mais atraentes, o que é o oposto do que a alternativa afirma. A alternativa contradiz o texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa diz que é um "conto descritivo, em que o autor desenvolve os efeitos da automedicação no organismo humano". O texto menciona a Pervitin (um remédio usado para ficar acordado), mas isso é apenas um detalhe da memória do narrador, não o tema central. O texto não discute os efeitos da automedicação no organismo; ele usa a Pervitin como exemplo de como os jovens da época lidavam com a ansiedade das provas. A alternativa extrapola ao transformar um detalhe em tema principal.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre gêneros (crônica × conto × romance) e acrescenta informações que não estão no texto, como "mal inevitável", "pessoas famosas" e "professores antigos melhores". A alternativa B é a única que descreve fielmente o que o texto faz.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o gênero, pergunte: qual é a intenção do autor? A crônica parte de um fato cotidiano e faz uma reflexão; o conto cria uma história ficcional com enredo; o romance é uma narrativa longa. Aqui, a intenção é refletir sobre a adolescência a partir de uma cena real — isso é crônica.
Conclusão: a resposta é a letra B, pois é a única que descreve o texto como uma crônica baseada em fatos reais que discute a adolescência de diferentes gerações, sem extrapolar ou contradizer o que está escrito.