Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2025
Português›Interpretação de Textos
Código
qg424385
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Águas de Lindóia - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Diretor de Escola
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Votos para o Ano-Novo
Os cronistas mais organizados costumam escolher, no fim de ano, os dez melhores, os dez maiores, os dez mais isto ou aquilo do ano que passou. Essas escolhas públicas não têm o encanto das escolhas particulares, feitas em uma pequena roda, em que se costuma decidir, depois de severos debates, qual foi o maior “fora”, o pior vexame, o melhor golpe do baú, o maior chato do ano, a mais bela dor de cotovelo, o mais louvável infarto do miocárdio, o party mais fracassado, a cena mais ridícula, o marido mais manso etc. Note-se que para a escolha deste último deve-se levar em conta que há muitos cavalheiros que não podem ser aceitos no páreo, devem ser considerados hors-concours. É preciso incentivar os valores novos.
Depois desse salutar exercício, proponho que cada pessoa faça um exame de consciência e pergunte a si mesma com que direito se arvora em juiz dos outros. Pense nos seus próprios pecados, nos seus próprios ridículos. Procure ver a si mesmo como se fosse alguém a quem quisesse ridicularizar. Como seria fácil! Quem sabe que a virtude de que você mais se envaidece é menos uma virtude do que medo da polícia, ou, mais comumente, do ridículo?
Dizem que o crime não compensa. E a virtude, compensará? Espero que sim, mas talvez só no outro mundo. Neste aqui não sei; mas conheço pessoas virtuosas que me parecem tão azedas, tão infelizes, tão entediadas, tão sem graça com a própria virtude que dão vontade da gente dizer:
― Está muito bem, nossa amizade, você é formidável. Mas assim também enjoa. Peque pelo menos uma vezinha, sim? É bom para relaxar.
Raul de Leoni sonhava com... “um cristianismo ideal, que não existe, onde a virtude não precisasse ser triste, onde a tristeza fosse um pecado venial...”.
Acho que a pessoa querer buscar a felicidade em pecados e sujeiras só não é um erro quando a pessoa tem mesmo muita vocação para essas coisas. Mas isso é raríssimo. A maior parte dos sujos tem uma inveja secreta e imensa dos honrados, dos limpos. Sofre com isto. Sofre tanto quanto os que vivem além do gabarito da própria virtude.
Desejo a todos, no Ano-Novo, muitas virtudes e boas ações e alguns pecados agradáveis, excitantes, discretos, e, principalmente, bem-sucedidos.
BRAGA, R. Votos para o Ano-Novo. In: BRAGA, R. As boas coisas da vida. Rio de Janeiro: Record, 1989, p. 185-187. Disponível em .<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/14877/voto
s-para-o-ano-novo>.
A ideia expressa pelo narrador no penúltimo parágrafo do texto é a de que:
Aa virtude causa apenas felicidade e os pecados, tristeza.
Bas pessoas virtuosas dificilmente sofrem por suas escolhas.
Cos honrados sofrem mais por inveja dos “sujos” do que por estarem além do gabarito de própria virtude.
Dem alguma medida, pecados e virtudes causam sofrimento.
Eas virtudes são prova de que o crime não compensa.
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GabaritoD — em alguma medida, pecados e virtudes causam sofrimento.
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A Ideia do Penúltimo Parágrafo: Pecados e Virtudes Causam Sofrimento
Gabarito: letra D. A ideia expressa pelo narrador no penúltimo parágrafo é a de que, em alguma medida, pecados e virtudes causam sofrimento. O texto sustenta isso ao afirmar que os "sujos" sofrem por inveja dos honrados e que os virtuosos sofrem por viverem "além do gabarito da própria virtude", como se lê no trecho: "A maior parte dos sujos tem uma inveja secreta e imensa dos honrados, dos limpos. Sofre com isto. Sofre tanto quanto os que vivem além do gabarito da própria virtude."
O comando pede a ideia expressa no penúltimo parágrafo, ou seja, uma questão de compreensão — a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem deduções ou acréscimos. O penúltimo parágrafo ("Acho que a pessoa querer buscar a felicidade em pecados e sujeiras...") desenvolve a tese de que tanto os que buscam o pecado quanto os que vivem na virtude sofrem: os primeiros, por inveja dos honrados; os segundos, por viverem além de suas forças morais. A alternativa D captura exatamente essa simetria: ambos os lados, pecado e virtude, geram sofrimento.
A técnica central aqui é não extrapolar. O texto não diz que a virtude causa apenas felicidade (A), nem que os virtuosos dificilmente sofrem (B), nem que os honrados sofrem mais por inveja do que por estarem além do gabarito (C), nem que as virtudes provam que o crime não compensa (E). Cada uma dessas alternativas ou inverte o sentido, ou restringe indevidamente o alcance do que foi dito, ou acrescenta uma opinião que o autor não externou.
Para resolver com segurança, leia o penúltimo parágrafo com atenção e identifique os dois grupos mencionados: os "sujos" (que buscam o pecado) e os "honrados/limpos" (que vivem na virtude). O narrador afirma que ambos sofrem: os sujos, por inveja; os virtuosos, por viverem além do próprio gabarito. A alternativa D é a única que generaliza corretamente essa dupla fonte de sofrimento, sem privilegiar um lado ou absolutizar o efeito.
PEGA ESSA DICA!
Ao responder questões de "ideia expressa", grife os sujeitos e os verbos de estado (sofrer, sentir) no parágrafo. Isso revela quem sofre e por quê, evitando que você caia em alternativas que trocam o sujeito ou a causa.
Sofrimento no penúltimo parágrafo
1"Sujos" (pecado)
Sofrem por inveja dos honrados
2Honrados (virtude)
Sofrem além do gabarito da própria virtude
3Conclusão
Pecados e virtudes causam sofrimento
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "a virtude causa apenas felicidade e os pecados, tristeza". Isso contradiz o texto, que mostra justamente o oposto: os virtuosos sofrem ("Sofre tanto quanto os que vivem além do gabarito da própria virtude") e os sujos também sofrem ("Sofre com isto"). A palavra "apenas" é o termo que denuncia a restrição indevida: o texto não diz que a virtude traz só felicidade; pelo contrário, descreve virtuosos "azedos, infelizes, entediados". Portanto, a alternativa restringe o sentido ao absolutizar o efeito da virtude.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que "as pessoas virtuosas dificilmente sofrem por suas escolhas". O texto afirma o oposto: os virtuosos sofrem tanto quanto os sujos ("Sofre tanto quanto os que vivem além do gabarito da própria virtude"). A palavra "dificilmente" inverte o sentido, pois o texto mostra que o sofrimento é comum, não raro. Trata-se de uma contradição com o texto, disfarçada por uma paráfrase parcial.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa propõe que "os honrados sofrem mais por inveja dos 'sujos' do que por estarem além do gabarito de própria virtude". O texto não estabelece essa comparação de intensidade; ele apenas diz que os sujos sofrem por inveja e que os virtuosos sofrem por viverem além do gabarito, sem hierarquizar os sofrimentos. A alternativa extrapola ao introduzir uma relação de "mais... do que" que não existe no texto. Além disso, inverte os sujeitos: quem sente inveja são os "sujos", não os honrados.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que "em alguma medida, pecados e virtudes causam sofrimento". Isso é exatamente o que o penúltimo parágrafo sustenta: os sujos sofrem por inveja ("Sofre com isto") e os virtuosos sofrem por viverem além do próprio gabarito ("Sofre tanto quanto os que vivem além do gabarito da própria virtude"). A expressão "em alguma medida" é feliz, pois o texto não diz que todo pecado ou toda virtude causa sofrimento, mas que há sofrimento em ambos os casos. A alternativa é uma paráfrase fiel do texto, sem acréscimos ou restrições indevidas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que "as virtudes são prova de que o crime não compensa". O texto menciona o ditado "Dizem que o crime não compensa", mas logo questiona: "E a virtude, compensará? Espero que sim, mas talvez só no outro mundo." Ou seja, o autor não afirma que as virtudes provam que o crime não compensa; pelo contrário, ele duvida que a virtude compense neste mundo. A alternativa extrapola ao transformar uma dúvida em uma prova, e ainda tangencia o tema central do parágrafo, que é o sofrimento, não a compensação do crime.
Conclusão: A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a D, pois ela parafraseia com precisão a dupla fonte de sofrimento (pecados e virtudes) apresentada no penúltimo parágrafo. As demais ou contradizem o texto, ou restringem indevidamente, ou extrapolam com informações que não estão nele.