Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2025
Português›Interpretação de Textos
Código
qg425004
Banca
Avança SP
Órgão
UNESP
Ano
2025
Nível
Médio
Cargo
Assistente Administrativo II
Primeira paixão
O amor, nas crianças, é um estado de alma absorvente, pastoso e imenso que, embora não seja
uma coisa muito definida, leva o menino apaixonado a uma série de sonhos, de medos, de renúncias,
de tramas secretas e, principalmente, de ânsia heroica – quando a gente tem vontade que a amada
comece a morrer afogada para a gente salvar.
Eu me lembro de que o meu primeiro e grande amor aconteceu aos seis anos de idade.
Apaixonei-me perdidamente por uma moça de 30, por quem me cortaria, me queimaria, me desonraria
e morreria, se preciso fosse. Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer, embora todo mundo
houvesse descoberto nos meus olhos e na minha carinha de crime secreto. Ela era linda – achava eu
que a amava – e tudo era perfeito. E só muitos anos mais tarde fui ver que aquilo que os outros diziam
era verdade: ela era horrível.
Hoje ela vive ainda, vejo-a de vez em quando, velhinha gasta em tudo, muito mais feia do que
quando era horrível; mas sinto pela sua fealdade uma especial ternura, uma imensa gratidão. Foi ela –
e isto é importante – a chave que abriu meu coração para o amor e, pelos caminhos do amor, andei o
mais que pude, sem queixas e sem arrependimentos.
Hoje, minha filha entrou na sala onde escrevo e veio andando de olhos baixos. Quis pedir que
me deixasse em paz, mas seu jeito era tão solene e, ao mesmo tempo, tão humilde, tão vitorioso e tão
vencido, que senti solidariedade. Abracei-a antes que começasse a falar. Abraçamo-nos. E ela começou
a dizer: “Meu pai, estou noiva”. Perguntei de quem e ela disse o nome de um dos meninos da
vizinhança.
Olhei para sua carinha de oito anos, deu vontade de rir, mas seria estragar a festa, quebrar a
alegria de um dia de noivado. E falei, com o jeito mais sério que pude: “Meus parabéns, minha filha,
espero que vocês sejam muito felizes... E, em 1965, quero entrar com você, de braços dados, na
Candelária ou no Outeiro da Glória”. Olhei bem para ela e, em seus olhos da cor de abacate maduro,
havia acordes da “Marcha nupcial”, do alemão Felix Mendelssohn.
MARIA, A. Primeira paixão. In: TAUIL, G. (Org.) Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria, 2021, p. 277-
278. (Adaptado).
O excerto “Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer” permite inferir que:
AO caso de bem-querer do narrador era público.
BO narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer.
CO caso de bem-querer do narrador não era público, mas pelo menos duas pessoas sabiam a seu respeito.
DO narrador esperava que apenas a pessoa de quem gostava soubesse sobre a sua paixão.
EO narrador esperava que todos ao seu redor soubessem que ele estava apaixonado.
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GabaritoB — O narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer.
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Inferência a partir de "Só eu e eu sabíamos"
Gabarito: letra B. O excerto "Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer" permite inferir que o narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer — a expressão "só eu e eu" indica que, na visão do narrador, apenas ele tinha conhecimento do fato, ou seja, o segredo era guardado por ele. Essa inferência é autorizada pelo próprio texto, que logo em seguida afirma: "embora todo mundo houvesse descoberto nos meus olhos e na minha carinha de crime secreto". A alternativa B é a única que capta essa ideia de segredo mantido pelo narrador, sem extrapolar para o que os outros sabiam.
O comando: inferir, não localizar
O verbo "inferir" no enunciado muda tudo: a resposta não está literalmente escrita, mas é uma dedução ancorada em pistas do texto. Você não deve procurar uma frase que diga "o narrador manteve segredo"; deve encontrar os vestígios que levam a essa conclusão. Aqui, a pista é a expressão "Só eu e eu sabíamos" — a repetição do pronome "eu" reforça a exclusividade do conhecimento na perspectiva do narrador. É uma inferência legítima, pois se apoia em um pressuposto marcado linguisticamente: "só" indica que ninguém mais, além dele, sabia.
O texto: o segredo e a descoberta alheia
O cronista narra sua primeira paixão infantil e, no trecho central, diz:
"Só eu e eu sabíamos daquele caso de bem-querer, embora todo mundo houvesse descoberto nos meus olhos e na minha carinha de crime secreto."
Aqui há uma aparente contradição: se "só eu e eu sabíamos", como "todo mundo" descobriu? A chave está na distinção entre saber (ter conhecimento íntimo, consciente) e descobrir (perceber pelos sinais externos). O narrador guardava o segredo em seu íntimo — ninguém sabia por confissão ou por conhecimento direto —, mas seus olhos e sua expressão o denunciavam, permitindo que os outros desconfiassem ou percebessem algo. A alternativa B capta exatamente isso: o narrador manteve o caso em segredo, mesmo que os outros tenham notado.
A técnica: pressuposto e inferência
Pressuposto é a informação implícita que está marcada linguisticamente. Na frase "Só eu e eu sabíamos", o advérbio "só" pressupõe que, na visão do narrador, ninguém mais sabia. Essa é uma pista forte, pois "só" restringe o conjunto de conhecedores a uma única pessoa (o próprio narrador). A repetição "eu e eu" é um recurso expressivo que intensifica essa exclusividade — é como se o narrador dissesse "apenas eu, e mais ninguém".
Inferência é a conclusão que tiramos a partir dessas pistas. Se "só eu sabia", então o caso era secreto — pelo menos do ponto de vista do narrador. Essa é uma inferência legítima, pois não acrescenta informação externa; apenas explicita o que a expressão já sugere.
A pegadinha da banca
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a ambiguidade de "só eu e eu" para induzir o candidato a pensar que duas pessoas sabiam (o narrador e a amada), quando o texto deixa claro que o segredo era só do narrador. A alternativa C é a mais traiçoeira, pois parece razoável, mas contradiz o pressuposto de "só".
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, grife as palavras que indicam exclusividade ("só", "apenas", "somente") e as que indicam totalidade ("todo", "ninguém"). Elas são as pistas mais fortes para decidir o alcance da afirmação.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
O caso de bem-querer do narrador era público.
O texto afirma exatamente o contrário: "Só eu e eu sabíamos". Se fosse público, não haveria segredo. A alternativa contradiz o texto — inverte o sentido da expressão "só eu". Além disso, o trecho "embora todo mundo houvesse descoberto" indica que a descoberta alheia foi posterior e não tornou o caso público no sentido de conhecimento íntimo. Erro: contradiz o texto.
Alternativa B — ✅ Correta
O narrador manteve em segredo o seu caso de bem-querer.
Esta é a inferência direta do pressuposto "só eu e eu sabíamos". O narrador afirma que apenas ele tinha conhecimento do caso, o que caracteriza segredo. O trecho "embora todo mundo houvesse descoberto" não invalida isso: os outros podem ter percebido pelos sinais, mas o narrador não compartilhou o segredo. Correta: ancorada no pressuposto de "só".
Alternativa C — ❌ Incorreta
O caso de bem-querer do narrador não era público, mas pelo menos duas pessoas sabiam a seu respeito.
Aqui está a armadilha: a banca explora a repetição "eu e eu" para sugerir que duas pessoas sabiam (o narrador e a amada). Mas o texto não diz isso — "eu e eu" é uma ênfase retórica, não uma enumeração de pessoas. O pressuposto de "só" indica que apenas o narrador sabia. A alternativa extrapola ao acrescentar a ideia de que a amada sabia, informação que não está no texto. Erro: extrapolação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O narrador esperava que apenas a pessoa de quem gostava soubesse sobre a sua paixão.
O texto não menciona nenhuma expectativa do narrador sobre quem deveria saber. Ele apenas constata que "só eu e eu sabíamos". A alternativa acrescenta uma opinião (a esperança de que a amada soubesse) que não está no texto. Erro: acrescenta opinião.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O narrador esperava que todos ao seu redor soubessem que ele estava apaixonado.
Novamente, o texto não fala de expectativas. Além disso, a ideia de que ele queria que todos soubessem contradiz o fato de que ele guardava segredo ("só eu e eu sabíamos"). A alternativa contradiz o texto e ainda extrapola ao inventar um desejo de publicidade. Erro: contradiz o texto e extrapola.
Conclusão
A questão testa a habilidade de inferir a partir de pressupostos. A expressão "só eu e eu" é a pista central: ela pressupõe exclusividade de conhecimento, o que leva à conclusão de que o narrador manteve o caso em segredo. As demais alternativas ou contradizem essa pista ou acrescentam informações que o texto não autoriza. Gabarito: letra B.