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Questão de Português — Conjunções: Relação de causa e consequência — Avança SP 2025

PortuguêsConjunções: Relação de causa e consequência
Código
qg426281
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Morungaba - SP
Ano
2025
Nível
Superior

Leia o texto a seguir para responder a questão.


Você é um número



    Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento – tudo é número. 


    Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube, tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras, tem o número da cadeira. 

    É por isso que vou tomar aulas particulares de matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral. 


    Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.


    Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência, também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio, recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações, também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico, recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica, tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também. 


    Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número. Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao posto de saúde. E recebeu a ficha de número dez. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número nove. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.


    Se há uma guerra, nós somos classificados por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica. 


    Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo. 


    E Deus não é número.


    Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco posto ao sol. Meu número íntimo é nove. Só. Oito. Só. Sete. Só. Sem somá-los nem transformá-los em 987. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Vejam, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem? 


LISPECTOR, C. Você é um número. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, 1984, p. 572-573. Disponível em < https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12336/vocee-um-numero>. 

Em “Vamos amar que amor não tem número”, a palavra “que” é empregada como:
  1. Aconjunção explicativa.
  2. Bconjunção consecutiva.
  3. Cconjunção comparativa.
  4. Dconjunção integrante.
  5. Econjunção concessiva.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — conjunção explicativa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A palavra "que" em "Vamos amar que amor não tem número"

Gabarito: letra A. O "que" é conjunção explicativa, pois introduz uma justificativa para o convite "Vamos amar": a razão apresentada é que o amor não tem número. A oração "que amor não tem número" explica o porquê do apelo, não expressa uma consequência, comparação, concessão ou completa o sentido de um verbo. Como se lê no trecho final da crônica:

"Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?"

Aqui, o "que" equivale a "porque" no sentido de explicação — o amor não tem número é o motivo pelo qual devemos amar, e não o efeito de amar.

O comando da questão

O enunciado pede a classificação morfossintática da palavra "que" no contexto específico. Isso é diferente de pedir o sentido geral do texto: aqui, a resposta depende da relação lógica que o conectivo estabelece entre as orações. Em questões assim, o caminho é: (1) identificar as duas orações ligadas pelo "que"; (2) testar qual valor semântico (causa, consequência, explicação, comparação, concessão, integração) melhor se encaixa; (3) confirmar com a substituição por outra conjunção equivalente.

O texto e o movimento argumentativo

A crônica de Clarice Lispector denuncia a redução do ser humano a números — identidade, título de eleitor, Imposto de Renda, tudo vira número. No desfecho, a autora faz um apelo: "Vamos amar que amor não tem número". A oração introduzida por "que" justifica o convite: amemos porque o amor escapa à lógica numérica. Não há relação de causa e efeito direta (amar não causa o amor não ter número), mas sim uma explicação do porquê do apelo.

A técnica que decide

A distinção central é entre oração explicativa e oração causal. Ambas podem ser introduzidas por "que", "porque", "pois", mas:

  • Causal: a oração introduzida expressa a causa real do fato da oração principal. Ex.: "A calçada está molhada, porque choveu." (a chuva causou o molhamento)

  • Explicativa: a oração introduzida expressa uma justificativa, um motivo para o que se afirma, muitas vezes após um imperativo ou um pedido. Ex.: "Estude, que seu futuro estará garantido!" (o estudo não causa o futuro garantido; é uma explicação do conselho)

No trecho, "Vamos amar" é um imperativo (convite/ordem). Quando o "que" vem após um verbo no imperativo, a tradição gramatical (Bechara, Cegalla) classifica a oração como coordenada explicativa. O conteúdo "amor não tem número" não é a causa de amar, mas a razão que justifica o convite.

Análise das alternativas

"Que" após imperativo
  • 1Explicativa (justifica o convite)
    • "Vamos amar, porque amor não tem número"
  • 2Causal (causa real)
    • "A calçada está molhada, porque choveu"
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O "que" é conjunção explicativa, pois introduz uma oração que explica o convite "Vamos amar". A substituição por "porque" mantém o sentido: "Vamos amar, porque o amor não tem número". A oração "que amor não tem número" é coordenada sindética explicativa, pois está ligada a uma oração independente e expressa justificativa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A conjunção consecutiva expressa consequência, normalmente com um termo intensificador antes (tão, tanto, tal). Ex.: "Amou tanto que sofreu." No trecho, não há intensificador e "amor não tem número" não é consequência de amar — é a razão do apelo. A banca tenta confundir com a relação de causa e consequência, mas aqui não há efeito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A conjunção comparativa estabelece comparação entre dois elementos (como, tal qual, que nem). Ex.: "Ele é mais alto que o irmão." No trecho, não há comparação entre amar e o amor não ter número; há uma justificativa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A conjunção integrante introduz uma oração subordinada substantiva que completa o sentido de um verbo (ex.: "Quero que você venha"). No trecho, "que amor não tem número" não é objeto de "amar" — o verbo "amar" já tem seu objeto implícito (amar algo/alguém). A oração é independente e explicativa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A conjunção concessiva expressa uma ressalva, uma ideia contrária que não impede a ação (embora, ainda que, conquanto). Ex.: "Ame, embora o amor não tenha número." Isso mudaria o sentido: indicaria que, apesar de o amor não ter número, devemos amar. O texto não traz essa oposição; traz uma justificativa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão clássica entre explicativa e causal. Muitos candidatos leem "que" como "porque" e marcam causal — mas não há alternativa causal! A presença do imperativo "Vamos" é a pista decisiva: após imperativo, o "que" é explicativo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de conjunção, substitua o conectivo por outro de mesmo valor e veja se o sentido se mantém. "Vamos amar, porque amor não tem número" — o "porque" aqui é explicativo (justifica o convite), não causal.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a letra A. As demais ou trocam o valor semântico (consecutiva, comparativa, concessiva) ou confundem a função sintática (integrante). Lembre-se: após verbo no imperativo, o "que" é explicativo.

Gabarito: letra A

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