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Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg426283
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Morungaba - SP
Ano
2025
Nível
Superior

Leia o texto a seguir para responder a questão.


Você é um número



    Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento – tudo é número. 


    Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube, tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras, tem o número da cadeira. 

    É por isso que vou tomar aulas particulares de matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral. 


    Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.


    Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência, também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio, recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações, também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico, recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica, tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também. 


    Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número. Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao posto de saúde. E recebeu a ficha de número dez. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número nove. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.


    Se há uma guerra, nós somos classificados por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica. 


    Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo. 


    E Deus não é número.


    Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco posto ao sol. Meu número íntimo é nove. Só. Oito. Só. Sete. Só. Sem somá-los nem transformá-los em 987. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Vejam, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem? 


LISPECTOR, C. Você é um número. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, 1984, p. 572-573. Disponível em < https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12336/vocee-um-numero>. 

A crônica apresentada, de autoria de Clarice Lispector, revela uma crítica:
  1. AAo excesso de questões matemáticas inseridas disfarçadamente no cotidiano.
  2. BÀ falta de organização dos sistemas que atendem à sociedade quanto aos seus documentos.
  3. CAo excesso de intimidade entre as pessoas, que reflete nas formas de tratamento por elas empregadas.
  4. DÀ forma, por vezes impessoal, como as pessoas são tratadas na sociedade.
  5. EÀ sua dificuldade em compreender questões que envolvem matemática e física.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — À forma, por vezes impessoal, como as pessoas são tratadas na sociedade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crônica de Clarice Lispector: crítica à impessoalidade

Gabarito: letra D. A crônica critica a forma impessoal como as pessoas são tratadas na sociedade, reduzidas a números em todas as esferas da vida. A passagem que ancora essa leitura é o protesto final da autora: "Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco" — o que revela a tese central: a mecanização do indivíduo, que perde sua identidade ao ser classificado numericamente.

O comando pede que se identifique a crítica revelada pela crônica. Isso exige interpretação (inferir a tese a partir das pistas textuais), não mera localização de informação explícita. A autora não diz diretamente "critico a impessoalidade"; ela constrói essa crítica pela enumeração exaustiva de situações em que o ser humano vira número — do nascimento ("a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número") à morte ("no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também").

A técnica decisiva é perceber o movimento argumentativo: a lista de exemplos (registro civil, título de eleitor, Imposto de Renda, telefone, apartamento, crediário, clube, Academia Brasileira de Letras, alvará, avião, ações, batismo, jazigo) serve para demonstrar que não há escapatória — o número acompanha o indivíduo em todas as dimensões da vida. O clímax é a anedota da criança que morre "por causa de um número" (a ficha 10 não foi atendida porque só atenderam até o 9), que transforma a abstração em tragédia concreta.

A crítica não é à matemática em si, nem à falta de organização dos documentos, nem à intimidade entre as pessoas. É à desumanização: o ser humano deixa de ser tratado como gente e passa a ser tratado como dado, como código. A autora explicita isso no apelo final: "Vamos ser gente, por favor" — e na constatação de que a sociedade está "nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco posto ao sol". A imagem do osso seco reforça a perda de vitalidade e de identidade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que tangenciam o tema (matemática, documentos, intimidade) para desviar da tese central. A correta é a única que captura o sentido global da crítica: a impessoalidade no tratamento das pessoas.

Crítica da crônica
  • 1Tese central
    • Impessoalidade no tratamento
    • Redução do indivíduo a número
  • 2Estratégia argumentativa
    • Enumeração de situações (nascimento à morte)
    • Anedota da criança (ficha 10)
    • Apelo final ("Vamos ser gente")
  • 3Distratores
    • Matemática (símbolo, não alvo)
    • Documentos (consequência, não crítica)
    • Intimidade (inverte o sentido)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa extrapola o texto. A crônica não critica "questões matemáticas inseridas disfarçadamente no cotidiano"; a matemática é apenas o símbolo da impessoalidade. A autora até ironiza: "vou tomar aulas particulares de matemática. Preciso saber das coisas" — mas isso é uma metáfora da necessidade de entender o mundo, não uma crítica ao ensino de matemática. O texto não menciona "questões matemáticas disfarçadas"; essa ideia é inventada pelo candidato.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa tangencia o tema. O texto cita documentos (registro civil, título de eleitor, certidão de óbito), mas a crítica não é à "falta de organização dos sistemas". Pelo contrário, os sistemas funcionam — e é justamente por isso que numeram as pessoas. A anedota da criança que morre por causa do número 10 mostra a consequência trágica da impessoalidade, não uma falha burocrática. A alternativa restringe o alcance da crítica a um aspecto administrativo, quando a crítica é existencial.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa contradiz o texto. A crônica não fala de "excesso de intimidade entre as pessoas"; fala do oposto: da falta de contato humano, da redução do indivíduo a um número. A palavra "intimidade" aparece apenas no final, quando a autora diz que "a intimidade não deixa" (de classificá-la com um número) — ou seja, a intimidade é apresentada como resistência à impessoalidade, não como algo excessivo. A alternativa inverte o sentido.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa parafraseia a tese central. O texto mostra, por meio de inúmeros exemplos, que as pessoas são tratadas como números em todas as esferas da vida — do nascimento à morte. A autora protesta: "Nós não somos ninguém? Protesto" e conclui: "Vamos ser gente, por favor". A expressão "forma impessoal" captura exatamente essa redução do indivíduo a um código. A passagem decisiva é:

"Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco posto ao sol."

A imagem do "osso seco" reforça a desumanização: o ser humano perde a vitalidade, a identidade, a singularidade. A crítica é à impessoalidade — ao tratamento que ignora a pessoa por trás do número.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa extrapola o texto. A autora menciona sua dificuldade com matemática e física de forma irônica ("Preciso saber das coisas. Ou aulas de física"), mas isso é um recurso retórico para ilustrar a onipresença dos números, não uma confissão de dificuldade pessoal. A crítica não é à sua própria limitação intelectual, mas à sociedade que reduz tudo a números. A alternativa confunde o exemplo com a tese.

Conclusão: a crônica critica a impessoalidade — a redução do ser humano a um número, a perda da identidade e da humanidade. As demais alternativas ou extrapolam (A, E), tangenciam (B) ou contradizem (C) o texto. A resposta é a letra D.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a crítica de um texto, pergunte-se: qual é a tese que o autor defende? A tese é a resposta à pergunta "o que o autor quer que eu conclua?". As alternativas que citam exemplos isolados (matemática, documentos) geralmente são distratores — a tese é sempre mais ampla.

Gabarito: letra D

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