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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — Avança SP 2025

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
qg426308
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Morungaba - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Leia o texto a seguir para responder as questão.

Charlatões


Um amigo meu diz que em todos nós existe o charlatão. Concordei. Sinto em mim a charlatã me espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa. Há outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto. Ah, a vontade que tenho de ceder ao mau gosto. Em quê? Ora, o campo é ilimitado, simplesmente ilimitado. Vai desde o instante em que se pode dizer a palavra errada exatamente quando ela cairia pior – até o instante em que se diriam palavras de grande beleza e verdade quando o interlocutor está desprevenido e levaria um susto de constrangimento, e haveria o silêncio depois. Em que mais? Em se vestir, por exemplo. Não necessariamente o óbvio do equivalente a plumas. Não sei descrever, mas saberia usar um mau gosto perfeito. E em escrever? A tentação é grande, pois a linha divisória é quase invisível entre o mau gosto e a verdade. E mesmo porque, pior que o mau gosto em matéria de escrever, é um certo tipo horrível de bom gosto. Às vezes, de puro prazer, de pura pesquisa simples, ando sobre linha bamba.

Como é que eu seria charlatã? Eu fui, e com toda a sinceridade, pensando que acertava. Sou, por exemplo, formada em direito, e com isso enganei a mim e aos outros. Não, mais a mim que a todos. No entanto, como eu era sincera: fui estudar direito porque desejava reformar as penitenciárias no Brasil.

O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Que é mesmo o que estou dizendo? Era uma coisa, mas já me escapou. O charlatão se prejudica? Não sei, mas sei que às vezes a charlatanice dói e muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda a força. Não posso infelizmente me alongar mais nesse assunto.


LISPECTOR, C. Charlatões. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 1973. Disponível em

Compreende-se, a partir da leitura do texto, que:
  1. AHá uma relação intrínseca entre bom gosto e charlatanismo.
  2. BPara a narradora, a honestidade não é um valor atribuído aos charlatões.
  3. CCharlatões não necessariamente são desonestos.
  4. DO mau gosto é uma característica básica do charlatanismo.
  5. EA narradora considera-se charlatã por escrever somente a verdade.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Para a narradora, a honestidade não é um valor atribuído aos charlatões.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Compreensão do Texto "Charlatões" — Clarice Lispector

Gabarito: letra B. Para a narradora, a honestidade não é um valor atribuído aos charlatões — ela é exatamente o que os impede de sê-lo. A passagem que ancora a resposta é: "Sinto em mim a charlatã me espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa." Ou seja, a honestidade é o antídoto da charlatanice, não uma característica do charlatão.

O comando da questão é de compreensão: pede-se o que se "compreende" a partir da leitura, ou seja, uma paráfrase fiel de uma ideia que o texto sustenta, sem exigir inferências profundas. A tarefa é localizar, entre as alternativas, aquela que reescreve com outras palavras uma afirmação que está, ainda que implicitamente, ancorada no texto. Não se trata de deduzir algo novo, mas de reconhecer a reescritura de uma ideia presente.

O texto é uma crônica em que a narradora reflete sobre a presença do charlatão em si mesma e nos outros. Ela define o charlatão como "um contrabandista de si mesmo" e admite ter sido charlatã "com toda a sinceridade, pensando que acertava", ao estudar Direito com a intenção de reformar penitenciárias. O ponto central para a questão é a oposição entre charlatanice e honestidade: a narradora só não cede à charlatã que a espreita porque sua honestidade básica a impede. Essa oposição é a chave para eliminar as alternativas que aproximam os conceitos.

A técnica para resolver é simples: teste cada alternativa perguntando se o texto autoriza a afirmação ou se ela exige acrescentar algo de fora. A alternativa correta é a única que se sustenta integralmente no texto, sem extrapolar, restringir ou contradizer o que está escrito. As distratoras, como veremos, ou invertem a relação entre honestidade e charlatanismo, ou atribuem ao texto ideias que ele não defende.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que há uma relação intrínseca entre bom gosto e charlatanismo. O texto, porém, trata o mau gosto como uma tentação separada da charlatanice: "Há outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto." A narradora não estabelece uma relação necessária entre os dois; ela os apresenta como impulsos distintos. A alternativa extrapola ao criar um vínculo que o texto não sustenta.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que, para a narradora, a honestidade não é um valor atribuído aos charlatões. Isso é exatamente o que o texto diz: a honestidade é o que impede a narradora de ser charlatã. A passagem "Sinto em mim a charlatã me espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa" mostra que a honestidade é o antídoto da charlatanice. Além disso, o charlatão é definido como "um contrabandista de si mesmo", ou seja, alguém que engana, não alguém honesto. A alternativa é uma paráfrase fiel dessa ideia.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que charlatões não necessariamente são desonestos. O texto, porém, define o charlatão como "um contrabandista de si mesmo", o que implica desonestidade. Além disso, a narradora diz que foi charlatã "com toda a sinceridade, pensando que acertava", mas isso não significa que o charlatão seja honesto — significa que a narradora se enganou, não que a charlatanice seja compatível com a honestidade. A alternativa contradiz a definição de charlatão apresentada no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o mau gosto é uma característica básica do charlatanismo. O texto, porém, trata o mau gosto como uma tentação separada: "Há outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto." A narradora não diz que o mau gosto é uma característica do charlatão; ela o apresenta como um impulso distinto. A alternativa extrapola ao transformar uma tentação em uma característica definidora.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a narradora considera-se charlatã por escrever somente a verdade. O texto não diz isso. A narradora diz que foi charlatã ao estudar Direito, "pensando que acertava", e que a linha entre mau gosto e verdade é quase invisível. Mas ela não diz que escrever a verdade a torna charlatã. A alternativa extrapola ao criar uma relação que o texto não estabelece.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte a relação entre honestidade e charlatanismo. A alternativa correta afirma que a honestidade NÃO é atributo do charlatão, enquanto as distratoras tentam aproximar os conceitos ou extrapolar o texto.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "compreende-se" pede uma paráfrase fiel, não uma inferência profunda. Teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?

Gabarito: letra B.

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