Furtei uma flor daquele jardim. O
porteiro do edifício cochilava e eu furtei a flor.
Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com
água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo
destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.
Passei-a para o vaso, e notei que ela me
agradecia, revelando melhor sua delicada
composição. Quantas novidades há numa flor, se
a contemplarmos bem. Sendo autor do furto, eu
assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a
água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por
sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim.
Nem apelar para o médico das flores. Eu a
furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte,
peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim
onde desabrochara. O porteiro estava atento e
repreendeu-me:
– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste
jardim!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Furto de flor. Contos plausíveis.
1985. Disponível em <https://www.culturagenial.com/cronicas-curtascom-interpretacao/>.
“Eu a furtara, eu a via morrer. Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara.”
As formas verbais destacadas acima, no tempo em que se encontram, indicam ações:
Aque começaram no passado e continuam até o presente.
Bque acontecem no momento presente da história contada pelo autor.
Cprojetadas para acontecerem num futuro próximo.
Dpresas a alguma condição.
Eque aconteceram no passado, antes de outras ações também passadas.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — que aconteceram no passado, antes de outras ações também passadas.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Valor do Pretérito Mais-que-Perfeito
Gabarito: letra E. As formas "furtara" e "desabrochara" estão no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, tempo que expressa uma ação passada anterior a outra ação também passada. No trecho, o narrador diz que "furtara" a flor (ação anterior) e depois "via" ela morrer (ação posterior no passado); e que a depositou no jardim "onde desabrochara" (ação ainda mais remota). A alternativa E é a única que capta exatamente esse valor de anterioridade em relação a outro fato passado.
O que o comando pede
A questão pergunta "no tempo em que se encontram" — ou seja, exige que você identifique o tempo verbal das formas destacadas e o valor semântico que ele carrega no contexto. Não é uma questão de interpretação de sentido figurado, mas de morfologia verbal aplicada ao texto: você precisa reconhecer o pretérito mais-que-perfeito e saber o que ele significa.
O texto e as formas verbais
No trecho:
"Eu a furtara, eu a via morrer. Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara."
"furtara" = pretérito mais-que-perfeito de furtar (1ª pessoa do singular). Indica que o furto ocorreu antes do momento em que ele "via" a flor morrer.
"desabrochara" = pretérito mais-que-perfeito de desabrochar (3ª pessoa do singular). Indica que a flor havia desabrochado antes de ele a depositar no jardim.
O pretérito mais-que-perfeito do indicativo é formado, nos verbos regulares, pela desinência -ra (ou -re, na 2ª pessoa do plural) acrescida ao tema. Ele expressa um fato passado anterior a outro fato passado, ou seja, uma ação que já estava concluída quando outra ação passada aconteceu. É o tempo da anterioridade no passado.
A técnica que decide
Para resolver, você precisa reconhecer o tempo verbal e entender o valor semântico que ele carrega no contexto. Não basta saber que é "passado"; é preciso perceber que o mais-que-perfeito indica anterioridade em relação a outro passado. No trecho, o narrador furtou a flor (ação 1), depois viu ela morrer (ação 2), e só então a depositou no jardim (ação 3). O mais-que-perfeito marca as ações 1 e 3 como anteriores às demais.
Análise das alternativas
1Identificar desinência -ra/-re
2Ação concluída no passado
3Anterior a outro passado
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que as ações "começaram no passado e continuam até o presente". Isso descreveria o presente do indicativo ou o pretérito perfeito composto (ex.: "tenho furtado"), não o mais-que-perfeito. No texto, o furto e o desabrochar são ações concluídas no passado, sem qualquer ligação com o presente. O trecho "eu a via morrer" mostra que a flor já estava morta, não que algo continua até hoje.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que as ações "acontecem no momento presente da história contada pelo autor". Isso seria o presente do indicativo (ex.: "furto", "vejo"). No trecho, as formas "furtara" e "desabrochara" são claramente passadas — o narrador está contando algo que já ocorreu, não algo que ocorre agora. A presença de "via" (pretérito imperfeito) e "peguei" (pretérito perfeito) confirma que toda a cena é passada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que as ações são "projetadas para acontecerem num futuro próximo". Isso seria o futuro do presente (ex.: "furtarei") ou o futuro do pretérito (ex.: "furtaria"). No trecho, não há qualquer ideia de futuro — o narrador já furtou, já viu morrer, já depositou. As formas "furtara" e "desabrochara" são passadas, não futuras.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que as ações estão "presas a alguma condição". Isso seria o futuro do pretérito (ex.: "furtaria, se pudesse") ou o pretérito imperfeito do subjuntivo (ex.: "se furtasse"). No trecho, não há qualquer condição expressa — o narrador furtou a flor sem condição alguma, e a flor desabrochou sem condição. As formas estão no indicativo, não no subjuntivo, e não há conjunção condicional ("se", "caso") no trecho.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. As formas "furtara" e "desabrochara" estão no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, que expressa uma ação passada anterior a outra ação também passada. No trecho:
"Eu a furtara, eu a via morrer."
O narrador furtou a flor (ação 1) antes de vê-la morrer (ação 2). E:
"fui depositá-la no jardim onde desabrochara."
A flor desabrochou (ação 3) antes de ele a depositar no jardim (ação 4). Portanto, o mais-que-perfeito marca exatamente a anterioridade de uma ação passada em relação a outra também passada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que descrevem outros tempos verbais (presente, futuro, condicional) para desviar do valor de anterioridade do mais-que-perfeito. A pegadinha está em confundir o mais-que-perfeito com o pretérito perfeito simples ("furtou") ou com o imperfeito ("furtava"), que não indicam anterioridade.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o mais-que-perfeito, procure a desinência -ra (ou -re) e pergunte: "essa ação aconteceu antes de outra ação passada?". Se sim, é mais-que-perfeito. Ex.: "Quando cheguei, ele já saíra" — "saira" é anterior a "cheguei".
Conclusão: a alternativa E é a única que descreve corretamente o valor do pretérito mais-que-perfeito: ações que aconteceram no passado, antes de outras ações também passadas. As demais alternativas descrevem outros tempos verbais (presente, futuro, condicional) ou extrapolam o sentido do texto.