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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — Avança SP 2025

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
qg426846
Banca
Avança SP
Órgão
UNITAU
Ano
2025
Nível
Médio
Leia o texto a seguir para responder à questão. 


Da solidão


    Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à ideia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu “O corvo”: o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do “nunca mais”.

    Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o seu amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade — que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? — cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.

    Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina, no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n’alma na solidão dos últimos dias do pintor ToulouseLautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n’alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?

    Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão? 

    Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.


MORAES, V. Da solidão. In: MORAES, V. Para viver um
grande amor. 6ª ed., Sabiá, 1962, p. 182-183. Disponível
em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/19895/dasolidao>.
Ao afirmar que “Ele é a angústia do mundo que o reflete”, o narrador do texto refere-se:
  1. Aao poeta Hart Crane, que experienciava a maior das solidões quando decidiu se jogar ao mar.
  2. Bao poeta Rilke, que, ao sentir a maior das solidões, criou Elegias de Duino.
  3. Cao pintor Toulouse-Lautrec, que, em seu leito de morte, se sentiu abandonado pelo próprio pai.
  4. Dapenas aos artistas cujas obras refletem a respeito da maior solidão que se pode sentir.
  5. Ea qualquer pessoa que, por se privar do amor e das relações humanas, experimenta o que ele julga ser a maior solidão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — a qualquer pessoa que, por se privar do amor e das relações humanas, experimenta o que ele julga ser a maior solidão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referente do pronome "Ele" em "Ele é a angústia do mundo que o reflete"

Gabarito: letra E. O pronome "Ele" retoma "o ser que não ama" — a tese central do último parágrafo —, e não qualquer personagem citado anteriormente. A prova está na sequência imediata do trecho: o autor define o maior solitário como aquele que "se recusa a participar da vida humana" e "não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro". A alternativa E parafraseia exatamente essa ideia: "qualquer pessoa que, por se privar do amor e das relações humanas, experimenta o que ele julga ser a maior solidão".

O comando pede compreensão ("refere-se"), ou seja, exige localizar o referente do pronome no texto — uma tarefa de coesão referencial. Não se trata de inferir algo novo, mas de rastrear a cadeia anafórica: quem é "Ele"? Para responder, é preciso voltar ao parágrafo final e identificar o termo que o pronome substitui.

No último parágrafo, o autor constrói uma definição: "a maior solidão é a do ser que não ama". Em seguida, descreve esse ser: "que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana". Depois, usa o pronome "Ele" para retomar esse sujeito: "Ele é a angústia do mundo que o reflete". A cadeia é clara: "o ser que não ama" → "Ele". O pronome não pode retomar Hart Crane, Rilke ou Toulouse-Lautrec, pois esses foram citados como exemplos de solidões que não são as maiores — o autor os descarta ao longo do texto.

"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana."

Essa passagem é a chave: o autor define o "maior solitário" como aquele que se priva do amor e das relações. O pronome "Ele" retoma exatamente esse conceito, e a alternativa E traduz isso com precisão.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Atribui o pronome a Hart Crane, mas o texto o apresenta como um exemplo de solidão questionada ("Mas será ela, também, a maior solidão?"), não como a resposta final. O autor não diz que Crane é "a angústia do mundo"; ele apenas especula sobre os minutos do poeta no mar. Erro: troca de referente — o pronome não aponta para Crane.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Idem: Rilke é citado como outro exemplo de solidão que o autor descarta ("será ela a maior solidão? Não"). O pronome "Ele" não se refere a Rilke, e o texto não afirma que ele "criou Elegias de Duino" por ser o maior solitário. Erro: troca de referente — o pronome não aponta para Rilke.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Toulouse-Lautrec é mencionado como um caso de solidão "com mais frio n'alma", mas o texto não diz que ele se sentiu "abandonado pelo próprio pai" — diz apenas que lançou "um duro olhar de ódio" ao pai, como se o culpasse por tê-lo gerado "um monstro". Além disso, o pronome "Ele" não o retoma. Erro: troca de referente + extrapolação (o sentimento de abandono não está no texto).

Alternativa D — ❌ Incorreta

Restringe o referente a "artistas", mas o texto fala de qualquer ser humano que se priva do amor — não apenas artistas. O autor generaliza: "o ser que não ama", "o homem encerrado em si mesmo". A alternativa limita indevidamente o alcance. Erro: restrição indevida (transforma uma afirmação universal em particular).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Parafraseia fielmente a definição do autor: "o ser que não ama" = "qualquer pessoa que se priva do amor e das relações humanas". O pronome "Ele" retoma esse sujeito, e a alternativa o identifica corretamente, sem acrescentar nem restringir nada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca lista os nomes citados no texto (Hart Crane, Rilke, Toulouse-Lautrec) para tentar fazer você acreditar que "Ele" se refere a um deles. Mas o pronome retoma o conceito definido no parágrafo final, não um personagem. Sempre rastreie a cadeia anafórica: quem é o sujeito mais próximo e lógico?

PEGA ESSA DICA!

Em questões de coesão referencial, volte ao texto e identifique o termo que o pronome substitui. Pergunte: "Ele" = quem? A resposta está no parágrafo imediatamente anterior.

Gabarito: letra E — a única que identifica corretamente o referente do pronome "Ele" como o ser que se priva do amor e das relações humanas.

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