Genética do câncer: hereditário, familial e polimorfismos
Gabarito: letra A — as três assertivas estão corretas. A questão cobra a distinção entre câncer hereditário (mutação germinativa de alta penetrância, 5–10% dos casos), câncer familial (agregação sem padrão mendeliano, ~20%, com genes de média/baixa penetrância) e variantes polimórficas (frequência >1%, como os SNPs) — exatamente o que os itens I, II e III descrevem.
O câncer é uma doença genética do soma: surge de mutações que se acumulam ao longo da vida nas células de um tecido. Mas nem toda mutação relevante para o câncer é herdada. A genética do câncer separa três cenários distintos, e é essa separação que a questão explora. O primeiro é o câncer hereditário: uma mutação germinativa — presente em todas as células do corpo desde a concepção — em um gene de alta penetrância, como BRCA1/BRCA2 na mama e ovário, ou APC na polipose adenomatosa familiar. Esses casos representam uma minoria, cerca de 5 a 10% do total, e seguem padrão mendeliano de herança autossômica dominante. O segundo é o câncer familial: há agregação de casos na família, mas sem um padrão claro de herança mendeliana. Aqui, o que se observa é a combinação de múltiplas variantes de média e baixa penetrância com fatores ambientais compartilhados — não há um gene "causador" único e dominante. O terceiro é o câncer esporádico, a grande maioria (~70–80%), que resulta de mutações somáticas adquiridas ao longo da vida, sem componente hereditário relevante.
A assertiva III introduz o conceito de polimorfismo: uma variação genética presente em mais de 1% da população. O exemplo clássico é o SNP (polimorfismo de nucleotídeo único), uma troca de uma única base no DNA. Quando um SNP ocorre em um gene que codifica proteínas envolvidas em processos celulares essenciais — como reparo de DNA, metabolismo de carcinógenos ou resposta a fármacos — ele pode modificar o risco de desenvolver câncer e influenciar a resposta ao tratamento. Isso é a base da farmacogenética e da oncologia de precisão: o mesmo quimioterápico pode ser mais ou menos eficaz (ou tóxico) conforme o perfil polimórfico do paciente.
A pegadinha da banca aqui é sutil: ela mistura conceitos que parecem sinônimos, mas não são. "Hereditário" não é o mesmo que "familial". O hereditário tem um gene de alta penetrância identificável e padrão mendeliano; o familial tem agregação sem padrão claro, com genes de menor efeito. E "polimorfismo" não é "mutação patogênica": o polimorfismo é uma variação comum (>1%), de efeito geralmente modesto, que modula risco; a mutação de alta penetrância é rara e confere alto risco. Guarde essas três fronteiras — é exatamente nelas que os itens se dividem.
Item I — ✅ Correto
A assertiva afirma que 5 a 10% dos casos de câncer são hereditários, causados por mutação germinativa em gene de alta penetrância. Isso está correto e é o conceito clássico de síndrome de câncer hereditário: uma mutação presente na linhagem germinativa, transmitida de forma mendeliana, em genes como BRCA1/BRCA2 (mama/ovário), APC (polipose adenomatosa familiar), MLH1/MSH2 (câncer colorretal hereditário sem polipose). A penetrância alta significa que a maioria dos portadores desenvolverá a doença. O percentual de 5–10% é o consagrado na literatura de genética do câncer.
Item II — ✅ Correto
A assertiva descreve o câncer familial: cerca de 20% dos casos apresentam agregação familiar sem padrão mendeliano claro. O erro que a banca poderia induzir seria tratar isso como hereditário clássico, mas o item acerta ao dizer que não há um padrão claro de herança e que se associam múltiplas variações em genes de média e baixa penetrância, além de fatores ambientais. Esse é exatamente o modelo poligênico/multifatorial: o risco é a soma de pequenos efeitos genéticos com exposições ambientais compartilhadas pela família.
Item III — ✅ Correto
A assertiva define corretamente variante polimórfica como alteração com frequência populacional superior a 1% e menciona os SNPs em genes de processos celulares essenciais, que modificam o risco de câncer e a resposta a tratamentos. O conceito de polimorfismo (>1%) está correto, e a aplicação aos SNPs em genes de reparo, metabolismo de drogas etc. é a base da farmacogenética. Não há erro aqui: o item distingue adequadamente polimorfismo (variação comum, efeito modulador) de mutação patogênica rara.
Conclusão: os três itens estão corretos, portanto a alternativa é a letra A.
Gabarito: letra A