Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FUNDATEC 2025
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
qg474013
Banca
FUNDATEC
Órgão
IF-RS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Clínica
Um paciente de 27 anos, em situação de rua, vive perto de água salobra e apresenta infecção aguda com febre alta, cefaleia, mialgias, injeção conjuntival e icterícia. Qual é o diagnóstico mais provável?
AEnterite por Salmonella.
BEnterite por Campylobacter jejuni.
CLeptospirose.
DLegionelose.
EMionecrose por Clostridium.
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GabaritoC — Leptospirose.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Leptospirose: diagnóstico sindrômico e epidemiológico
Gabarito: letra C. O quadro descrito — febre alta, cefaleia, mialgias, injeção conjuntival e icterícia em paciente em situação de rua, vivendo perto de água salobra — é a apresentação clássica da leptospirose, zoonose causada pela espiroqueta Leptospira interrogans, transmitida pelo contato com água ou solo contaminados pela urina de roedores. A combinação de sufusão conjuntival (injeção conjuntival) com icterícia em um paciente com síndrome febril aguda é altamente sugestiva de leptospirose, especialmente na forma íctero-hemorrágica (síndrome de Weil).
A leptospirose é uma infecção zoonótica de distribuição mundial, mais prevalente nos trópicos, que acomete roedores, bovinos, suínos, cães e outros animais, sendo eliminada na urina. O ser humano se infecta ao entrar em contato com água, lama ou alimentos contaminados por essa urina — exatamente o cenário do paciente, que vive em situação de rua, próximo a água salobra, ambiente propício para a proliferação de roedores e contaminação ambiental. A doença tem espectro clínico amplo: pode ser subclínica, autolimitada ou grave e fatal, com falência de múltiplos órgãos.
Na fase aguda (septicêmica), que dura cerca de 5 a 7 dias, o paciente apresenta início abrupto de febre alta, calafrios, mialgias intensas (principalmente em panturrilhas e região lombar) e cefaleia. A sufusão conjuntival — hiperemia ou hemorragia subconjuntival — é um sinal clínico de grande valor, pois é infrequente em outras doenças infecciosas febris. A icterícia rubínica (alaranjada) é característica da forma grave, resultante de injúria vascular sem necrose hepatocelular significativa, com elevação importante de bilirrubinas (frequentemente > 20 mg/dL) e transaminases que raramente ultrapassam 200 U/L. Essa combinação — febre, icterícia e sufusão conjuntival — é o tripé que fecha o diagnóstico clínico de leptospirose.
A segunda fase (imune) ocorre após 1 a 3 dias de defervescência, com recrudescência dos sintomas, aparecimento de anticorpos IgM e possibilidade de meningite asséptica, uveíte, lesão renal aguda e hemorragia pulmonar. A síndrome de Weil, forma mais grave, ocorre em 10 a 15% dos pacientes e associa insuficiência hepática e renal, pneumonite hemorrágica, miocardite e colapso hemodinâmico. O diagnóstico é essencialmente clínico-epidemiológico, confirmado por sorologia (ELISA IgM, microaglutinação) ou isolamento do agente; o tratamento de escolha para pacientes sintomáticos é a doxiciclina.
A banca explora aqui a síndrome febril ictérica com sufusão conjuntival — um padrão que aponta diretamente para leptospirose, especialmente quando há contexto epidemiológico de exposição a água contaminada. As demais alternativas apresentam agentes que cursam com quadros febris, mas sem essa tríade característica. Guarde o critério: febre + icterícia + sufusão conjuntival + exposição a água/lama = leptospirose até prova em contrário.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A enterite por Salmonella (salmonelose) manifesta-se predominantemente com diarreia, dor abdominal, náuseas e vômitos, podendo haver febre, mas não cursa com icterícia nem sufusão conjuntival. A Salmonella typhi (febre tifoide) pode causar febre prolongada, cefaleia e mialgias, mas o quadro é diferente: ausência de icterícia, presença de manchas rosadas no tronco, bradicardia relativa e hepatoesplenomegalia — sem o padrão ocular e ictérico da leptospirose.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A enterite por Campylobacter jejuni é uma das principais causas de diarreia bacteriana, com febre, dor abdominal tipo cólica e diarreia (frequentemente sanguinolenta). Não há icterícia nem sufusão conjuntival nessa infecção. O quadro gastrointestinal predomina, e a associação com síndrome de Guillain-Barré é uma complicação clássica, mas não há comprometimento hepático com icterícia como na leptospirose.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A leptospirose é a única alternativa que explica todos os elementos do caso: febre alta, cefaleia, mialgias, injeção conjuntival (sufusão) e icterícia, em paciente com exposição a água contaminada (vive perto de água salobra, em situação de rua). A sufusão conjuntival é um sinal quase patognomônico — presente em 75 a 100% dos casos na fase aguda — e a icterícia rubínica marca a forma íctero-hemorrágica. O diagnóstico clínico é sustentado pelos critérios: febre aguda + cefaleia/mialgia + pelo menos um sinal de alarme (sufusão conjuntival, icterícia, insuficiência renal, fenômeno hemorrágico) + antecedente epidemiológico de exposição a água/lama nos últimos 30 dias.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A legionelose (doença dos legionários), causada pela Legionella pneumophila, é uma pneumonia atípica que se apresenta com febre alta, cefaleia, mialgias, tosse seca e dispneia, podendo haver confusão mental e diarreia. Não há icterícia nem sufusão conjuntival — o comprometimento é predominantemente respiratório. A transmissão ocorre por aerossóis de água contaminada (torres de resfriamento, chuveiros), não por contato com água salobra, e o quadro pulmonar é o destaque.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A mionecrose por Clostridium (gangrena gasosa) é uma infecção grave de tecidos moles, geralmente pós-traumática ou cirúrgica, com dor intensa desproporcional, edema, crepitação e toxemia sistêmica. Não se manifesta com febre, icterícia e sufusão conjuntival como quadro inicial. O comprometimento é local (muscular) com evolução para sepse, e não há o padrão sindrômico febril-ictérico da leptospirose.
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta no candidato que decora apenas os sintomas "febre + mialgia" e esquece os sinais que fecham o diagnóstico. A sufusão conjuntival é o achado que separa a leptospirose de todas as outras febres — ela é infrequente em outras doenças infecciosas e, quando presente com icterícia, o diagnóstico é leptospirose. As alternativas A, B, D e E são distratores que cursam com febre, mas nenhuma explica a tríade completa. Fique atento: em questão de síndrome febril, o contexto epidemiológico (água, lama, roedores) e os sinais oculares são decisivos.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de síndrome febril aguda, monte o raciocínio em etapas: (1) febre + cefaleia + mialgia → pensar em doenças sistêmicas; (2) presença de icterícia → hepatite viral, leptospirose, malária, febre amarela; (3) presença de sufusão conjuntival → leptospirose é a principal hipótese. Essa combinação é o "gatilho" que a banca usa para diferenciar a leptospirose das demais zoonoses febris.