Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg474017
Banca
FUNDATEC
Órgão
IF-RS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Clínica
Uma mulher de 37 anos apresenta crise de dor abdominal aguda, febre baixa, hipotensão, hiponatremia e hipercalemia, desencadeada por estresse cirúrgico. O exame físico constata alteração da coloração da pele, com hiperpigmentação especialmente em áreas expostas ao sol e em áreas de fricção e pressão. O diagnóstico mais provável é:
AAdenoma suprarrenal.
BAnemia aguda e deficiência de folato.
CInsuficiência suprarrenal.
DSíndrome de Cushing.
ESíndrome de ovários policísticos.
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GabaritoC — Insuficiência suprarrenal.
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Gabarito: letra C. O quadro descrito — dor abdominal aguda, hipotensão, hiponatremia, hipercalemia e hiperpigmentação em áreas de fricção/pressão, desencadeado por estresse cirúrgico — é a apresentação clássica da insuficiência suprarrenal aguda (crise addisoniana), uma emergência médica. A hiperpigmentação é o sinal mais específico que diferencia a insuficiência primária (doença de Addison) das demais causas, pois decorre do aumento compensatório de ACTH.
A insuficiência suprarrenal (ou adrenal) é a incapacidade das glândulas adrenais de produzir quantidades adequadas de cortisol e, na forma primária, também de aldosterona. Quando a destruição glandular é progressiva, o quadro crônico se instala; porém, diante de um estresse agudo — como uma cirurgia, infecção ou trauma — a demanda por cortisol aumenta abruptamente e o paciente pode descompensar, entrando em crise addisoniana, que é uma emergência com risco de vida.
O mecanismo da hiperpigmentação é a chave do diagnóstico. Na insuficiência primária, a queda do cortisol remove o feedback negativo sobre a hipófise, que passa a secretar grandes quantidades de ACTH. O ACTH, por sua vez, estimula os melanócitos, gerando o escurecimento da pele — que aparece preferencialmente em áreas expostas ao sol, nas dobras palmares, na mucosa oral e em regiões de fricção e pressão (como cotovelos, joelhos e cintura). Esse sinal é tão característico que, na prática clínica, sua presença já direciona fortemente o diagnóstico para a forma primária da doença.
As alterações laboratoriais confirmam o quadro: a deficiência de aldosterona leva à perda renal de sódio e retenção de potássio, resultando em hiponatremia e hipercalemia; a deficiência de cortisol contribui para a hipotensão, que pode evoluir para choque refratário à reposição volêmica. A dor abdominal, muitas vezes intensa, pode até mimetizar uma emergência cirúrgica — o que torna o diagnóstico ainda mais desafiador. O estresse cirúrgico, mencionado no enunciado, é um dos precipitantes clássicos da crise, presente em cerca de 80% dos casos.
A distinção que importa aqui é entre a insuficiência suprarrenal primária e as demais condições que cursam com excesso ou alteração de corticosteroides. Enquanto a insuficiência primária cursa com hipotensão, hiponatremia, hipercalemia e hiperpigmentação, a síndrome de Cushing (excesso de cortisol) apresenta hipertensão, hiperglicemia, obesidade central e estrias — exatamente o oposto. O adenoma suprarrenal, por sua vez, pode ser funcionante ou não, mas não explica o conjunto de sinais apresentado. A anemia aguda e a síndrome dos ovários policísticos não cursam com esse padrão de distúrbios eletrolíticos nem com hiperpigmentação.
Guarde o tripé que decide esta questão: hiperpigmentação + hiponatremia + hipercalemia em contexto de estresse = insuficiência suprarrenal aguda. É exatamente esse conjunto que as alternativas distratoras tentam desviar.
O adenoma suprarrenal é um tumor benigno da glândula adrenal. Pode ser não funcionante (incidentaloma) ou funcionante, produzindo excesso de cortisol (síndrome de Cushing), aldosterona (hiperaldosteronismo primário) ou andrógenos. Nenhuma dessas apresentações cursa com o quadro de hipotensão, hiponatremia, hipercalemia e hiperpigmentação descrito. O adenoma não causa destruição glandular com deficiência hormonal — pelo contrário, costuma causar excesso de produção.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A anemia aguda e a deficiência de folato não explicam o quadro. A anemia aguda cursaria com palidez, taquicardia e hipotensão, mas não com hiperpigmentação, hiponatremia ou hipercalemia. A deficiência de folato causa anemia megaloblástica, com manifestações hematológicas e neurológicas, sem relação com os distúrbios hidroeletrolíticos apresentados. A anemia pode até estar presente na insuficiência suprarrenal (em cerca de 40% dos casos), mas é um achado secundário, não o diagnóstico principal.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A insuficiência suprarrenal aguda (crise addisoniana) é o diagnóstico que reúne todos os elementos do enunciado: dor abdominal aguda (presente em cerca de 31% dos casos, podendo mimetizar abdome agudo), hipotensão (em ~90% dos pacientes), hiponatremia (88%) e hipercalemia (64%), além da hiperpigmentação — o sinal mais específico da forma primária, que ocorre em 92-97% dos casos, manifestando-se em áreas expostas ao sol e de fricção/pressão. O estresse cirúrgico é um precipitante clássico da crise, presente em cerca de 80% dos casos. O tratamento é emergencial, com reposição de glicocorticoide e mineralocorticoide, e não deve ser adiado para aguardar exames.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A síndrome de Cushing é causada por excesso de cortisol, não por deficiência. O quadro é oposto ao descrito: hipertensão arterial (não hipotensão), hiperglicemia, obesidade central, face em lua cheia, estrias violáceas e fraqueza muscular. Não cursa com hiponatremia, hipercalemia nem hiperpigmentação difusa — na verdade, a pele tende a ser mais fina e frágil. A confusão entre as duas condições é uma armadilha clássica, pois ambas envolvem as glândulas adrenais, mas com fisiopatologias opostas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é um distúrbio endócrino caracterizado por hiperandrogenismo, anovulação crônica e ovários policísticos à ultrassonografia. Manifesta-se com irregularidade menstrual, hirsutismo, acne e infertilidade. Não há qualquer relação com hiperpigmentação, hipotensão, hiponatremia ou hipercalemia. A presença de dor abdominal aguda e os distúrbios eletrolíticos graves afastam completamente essa hipótese.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre insuficiência suprarrenal e síndrome de Cushing — duas doenças adrenais com apresentações opostas. Enquanto a insuficiência cursa com hipotensão, hiponatremia e hipercalemia (deficiência hormonal), a síndrome de Cushing cursa com hipertensão, hiperglicemia e obesidade (excesso hormonal). A hiperpigmentação é o diferencial decisivo: ela só ocorre na insuficiência primária, pelo aumento de ACTH. Se o candidato memorizar apenas que "doença adrenal = Cushing", cai na alternativa D. Lembre-se: hipotensão + hiperpigmentação = Addison; hipertensão + estrias = Cushing.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de insuficiência suprarrenal, monte o quadro mental com os três pilares: (1) sinais — hiperpigmentação, hipotensão, perda de peso; (2) laboratório — hiponatremia, hipercalemia, hipoglicemia, eosinofilia; (3) precipitantes — cirurgia, infecção, trauma, suspensão de corticoides. Se a questão trouxer esses elementos, o diagnóstico é insuficiência suprarrenal aguda, independentemente de outros detalhes. E lembre-se: a hiperpigmentação é o sinal que diferencia a forma primária (ACTH alto) da secundária (ACTH baixo).