Questão de Medicina Legal — Tanatologia Forense — FUNDATEC 2025
Medicina Legal›Tanatologia Forense
Código
qg474382
Banca
FUNDATEC
Órgão
IGP-RS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Perito Criminal
Durante a aplicação dos protocolos de identificação de vítimas de desastres (DVI) da INTERPOL nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, entre abril e maio de 2024, equipes de perícia enfrentaram desafios típicos de desastres hidrológicos de grande escala. Considerando as diretrizes internacionais de DVI, bem como as características forenses dos corpos recuperados em ambientes de enxurrada, assinale a alternativa correta.
AA fase antemortem (AM) é dispensável quando há comprometimento facial decorrente de maceração hídrica severa, permitindo que a equipe priorize a identificação visual realizada por familiares presentes em centros de acolhimento, desde que acompanhada por fotografia recente da vítima.
BEm enchentes, é comum que a dermatoglifia esteja totalmente inutilizada, motivo pelo qual a INTERPOL recomenda que, nesses cenários, a papiloscopia seja excluída como método primário, priorizando exclusivamente DNA e odontologia para fins de identificação.
CA dispersão hidrogeológica dos corpos pode provocar separação anatômica, transporte de segmentos corporais por longas distâncias e heterogeneidade no estado de preservação, exigindo que a fase de reconciliação trabalhe com múltiplas peças corporais potencialmente atribuídas à mesma vítima.
DA presença de lamas minerais em suspensão, típica de enchentes de grande porte, inviabiliza o uso de radiologia comparativa na fase post mortem, pois impede a visualização de estruturas densas, como implantes metálicos, próteses e fraturas antigas.
EEm eventos hidrológicos, a coleta de DNA mitocondrial deve ser evitada, pois a imersão prolongada em água corrente reduz drasticamente a preservação desse tipo de material, sendo recomendável sempre optar por DNA nuclear extraído de tecidos moles.
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GabaritoC — A dispersão hidrogeológica dos corpos pode provocar separação anatômica, transporte de segmentos corporais por longas distâncias e heterogeneidade no estado de preservação, exigindo que a fase de reconciliação trabalhe com múltiplas peças corporais potencialmente atribuídas à mesma vítima.
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Identificação de Vítimas de Desastres (DVI) — Protocolos INTERPOL
Gabarito: letra C. A alternativa descreve corretamente o desafio da dispersão hidrogeológica em enchentes: corpos podem sofrer separação anatômica, transporte de segmentos e diferentes estados de preservação, exigindo que a fase de reconciliação integre múltiplas peças da mesma vítima. As demais alternativas contêm erros conceituais ou contrariam as diretrizes internacionais de DVI.
A questão aborda as diretrizes do Disaster Victim Identification Guide da INTERPOL, que organiza o processo em fases: antemortem (colheita de dados de desaparecidos), post mortem (exame dos corpos), reconciliação (comparação de dados) e identificação final. Em desastres hidrológicos, a ação da água pode fragmentar corpos e alterar a preservação dos tecidos, o que demanda adaptações nos protocolos.
Fase DVI
Descrição
Desafio em enchentes
Método/Recomendação
Antemortem (AM)
Coleta de dados de desaparecidos (registros odontológicos, exames de imagem, impressões digitais, perfis genéticos)
Maceração facial severa pode dificultar identificação visual
Indispensável para comparação científica; identificação visual é pouco confiável e desaconselhada como método primário
Post mortem (PM)
Exame dos corpos (incluindo papiloscopia, odontologia, radiologia, DNA)
Dermatoglifia pode ser danificada pela água; lamas minerais podem interferir em radiografias
Papiloscopia ainda é viável com técnicas especiais (reidratação, reagentes); radiologia comparativa pode ser usada para visualizar implantes metálicos e próteses
Reconciliação
Comparação de dados AM e PM para identificar vítimas
Dispersão hidrogeológica: corpos podem sofrer separação anatômica, transporte de segmentos e diferentes estados de preservação
Fase deve integrar múltiplas peças corporais potencialmente atribuídas à mesma vítima
Identificação final
Confirmação da identidade com base em múltiplas linhas de evidência
Imersão prolongada em água corrente pode degradar DNA mitocondrial
Recomenda-se usar DNA nuclear extraído de tecidos moles, quando possível; DNA mitocondrial pode ser alternativa em casos de degradação extrema
1Antemortem (AM)Dados de desaparecidos
2Post mortem (PM)Exame dos corpos
3ReconciliaçãoComparação AM × PM
4Identificação finalConclusão do caso
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a fase antemortem é dispensável quando há maceração facial severa, priorizando a identificação visual por familiares. Erro: A fase antemortem é indispensável para coletar dados objetivos (registros odontológicos, exames de imagem, impressões digitais, perfis genéticos) que permitam comparação científica. A identificação visual é pouco confiável em corpos macerados, sendo desaconselhada como método primário. O próprio protocolo DVI recomenda que a identificação seja baseada em múltiplas linhas de evidência, não na simples visualização.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Alega que a dermatoglifia (impressões digitais) está totalmente inutilizada em enchentes e que a INTERPOL recomenda excluir a papiloscopia, priorizando apenas DNA e odontologia. Erro: Embora a água possa danificar as cristas papilares, a papiloscopia ainda pode ser empregada com técnicas especiais (por exemplo, reidratação, uso de reagentes). A INTERPOL não exclui a papiloscopia como método primário; ela é um dos métodos de identificação primários (juntamente com DNA, odontologia e radiologia comparativa). A recomendação é utilizar todos os métodos disponíveis, e não descartar um a priori.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve corretamente o fenômeno: em enchentes, a força da água pode causar separação de segmentos corporais (desmembramento), transportar partes por longas distâncias e gerar estados de preservação heterogêneos (algumas regiões do corpo podem estar mais degradadas que outras). A fase de reconciliação deve então comparar múltiplas peças (por exemplo, fragmentos ósseos, dentes, tecidos moles) que podem pertencer à mesma vítima, integrando informações das fases antemortem e post mortem para atribuir identidades.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Sustenta que lamas minerais inviabilizam o uso de radiologia comparativa na fase post mortem, impedindo a visualização de estruturas densas como implantes metálicos. Erro: A radiologia (raios-X, tomografia) é justamente indicada para detectar objetos metálicos, próteses e fraturas antigas, independentemente da presença de lama. As estruturas densas aparecem com nitidez em contraste com os tecidos circunvizinhos; a lama não bloqueia a visualização de metais. A radiologia comparativa continua sendo um método útil em desastres hidrológicos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Diz que a coleta de DNA mitocondrial deve ser evitada em imersão prolongada, recomendando sempre DNA nuclear de tecidos moles. Erro: O DNA mitocondrial (mtDNA) é mais resistente à degradação que o DNA nuclear, justamente por sua estrutura circular e múltiplas cópias por célula. Em ambientes aquáticos, onde o DNA nuclear pode se degradar rapidamente, o mtDNA frequentemente permanece viável por mais tempo e é a melhor opção quando o nuclear está fragmentado. Portanto, o mtDNA não deve ser evitado; pode ser a única fonte de perfil genético.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora ideias aparentemente lógicas, como descartar a papiloscopia em água (alternativa B) ou preferir DNA nuclear (alternativa E). O candidato deve lembrar que em DVI todos os métodos são válidos e que o mtDNA é mais robusto que o nuclear.
PEGA ESSA DICA!
Estude as fases do DVI (AM, PM, reconciliação) e os métodos primários de identificação: papiloscopia, odontologia, DNA e radiologia. Em desastres com fragmentação, a reconciliação é a etapa-chave.