Questão de Medicina — Epidemiologia — FUNDATEC 2025
Medicina›Epidemiologia
Código
qg483126
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto - Anestesiologia,Cirurgia Cardiovascular,Cirurgia Geral,Clínica Médica,Ginecologia e Obstetrícia,Medicina Intensiva,Neurocirurgia,Ortopedia e Traumatologia,Pediatria,Psiquiatria
Um estudo transversal avaliou a associação entre tempo de tela (>4h/dia) e obesidade em adolescentes. Os autores calcularam um OR ajustado de 1,9 (IC 95%: 1,2-3,0). Qual interpretação é a mais apropriada?
AAdolescentes com >4h de tela têm 1,9 vezes mais risco de obesidade.
BO OR indica que tempo de tela causa obesidade.
CA associação é estatisticamente insignificante.
DO IC indica que não há efeito clinicamente relevante.
EA associação é plausível, mas não permite inferência causal.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — A associação é plausível, mas não permite inferência causal.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Interpretação de OR e IC em estudos transversais
Gabarito: letra E. Em um estudo transversal, o odds ratio (OR) ajustado de 1,9 (IC 95%: 1,2–3,0) indica uma associação estatisticamente significativa e plausível entre tempo de tela e obesidade, mas o desenho transversal não permite estabelecer relação temporal entre exposição e desfecho, impossibilitando inferência causal. A alternativa E é a única que reconhece essa limitação inerente ao delineamento.
O odds ratio (OR) é uma medida de associação que quantifica a chance (odds) de um desfecho ocorrer em um grupo exposto em relação à chance no grupo não exposto. Um OR de 1,9 significa que a chance de obesidade entre adolescentes com mais de 4 horas de tela é 1,9 vezes maior do que entre aqueles com menos tempo de tela. O intervalo de confiança de 95% (1,2–3,0) não inclui o valor 1 (que indicaria ausência de associação), o que confirma a significância estatística do achado.
A interpretação correta de um OR exige atenção ao desenho do estudo. Em estudos transversais, a exposição e o desfecho são medidos simultaneamente, em um único momento. Isso significa que não é possível saber se o tempo de tela precedeu o desenvolvimento da obesidade ou se a obesidade (ou outros fatores) influenciou o tempo de tela. Essa ausência de temporalidade é o principal obstáculo para afirmar causalidade. A causalidade exige critérios adicionais, como precedência temporal, gradiente dose-resposta, plausibilidade biológica e consistência com outros estudos, que um estudo transversal isolado não consegue fornecer.
Na prática, um OR de 1,9 com IC 95% excluindo o 1 indica que a associação observada é estatisticamente significativa (o valor 1, que representa 'nenhuma associação', está fora do intervalo). No entanto, a magnitude do efeito (1,9) é moderada, e a relevância clínica deve ser avaliada no contexto da população estudada e da plausibilidade biológica. A alternativa E captura exatamente esse equilíbrio: reconhece a associação como plausível (estatisticamente significativa e com magnitude relevante) e, ao mesmo tempo, ressalta a impossibilidade de inferência causal devido ao delineamento transversal.
A pegadinha central desta questão é a confusão entre associação e causalidade, e entre OR e risco relativo (RR). O OR é frequentemente interpretado como 'risco', mas tecnicamente é uma razão de chances. Em estudos transversais, o OR é uma aproximação do RR quando o desfecho é raro, mas essa aproximação não é válida para desfechos comuns como a obesidade. Além disso, a banca explora a tentação de atribuir causalidade a um estudo que, por natureza, não pode estabelecê-la. Guarde a fronteira entre associação (o que o estudo mostra) e causalidade (o que o estudo não pode provar): é exatamente nela que as alternativas se dividem.
1IC 95% exclui o 1?
2Associação significativa
3OR = razão de chances
4Transversal não prova causa
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
O erro está em usar o termo 'risco'. O OR é uma razão de chances (odds), não uma razão de riscos. Dizer que adolescentes com >4h de tela têm '1,9 vezes mais risco' de obesidade é uma interpretação imprecisa, pois confunde odds com probabilidade. Em estudos transversais, o OR pode superestimar o risco quando o desfecho é comum, como é o caso da obesidade. A interpretação correta seria 'a chance de obesidade é 1,9 vezes maior', não o risco.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que o OR indica causalidade, o que é um erro grave. Um estudo transversal mede exposição e desfecho no mesmo momento, sem estabelecer qual veio primeiro. Portanto, não é possível afirmar que o tempo de tela 'causa' obesidade. A causalidade exigiria um desenho longitudinal (coorte) ou experimental (ensaio clínico), além de critérios como temporalidade e exclusão de fatores de confusão. A alternativa B ignora completamente a limitação do delineamento.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O IC 95% de 1,2–3,0 não inclui o valor 1, que é o valor nulo para OR. Quando o IC não cruza o 1, a associação é estatisticamente significativa ao nível de 5%. Portanto, dizer que a associação é 'estatisticamente insignificante' é exatamente o oposto do que os dados mostram. O intervalo de confiança confirma a significância, não a nega.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O IC 95% de 1,2–3,0 indica que o efeito é estatisticamente significativo e que a magnitude do OR está entre 1,2 e 3,0. O limite inferior (1,2) está acima de 1, o que sugere que mesmo o menor valor plausível do OR indica uma associação positiva. A relevância clínica é um julgamento que depende do contexto, mas o IC não indica 'ausência de efeito clinicamente relevante'. Pelo contrário, o intervalo sugere um efeito que pode ser clinicamente relevante, especialmente em saúde pública.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa reconhece corretamente que o OR de 1,9 com IC 95% de 1,2–3,0 indica uma associação estatisticamente significativa e plausível entre tempo de tela e obesidade. No entanto, por se tratar de um estudo transversal, não é possível estabelecer a relação temporal entre exposição e desfecho, o que impede a inferência causal. A associação pode ser real, mas também pode ser influenciada por fatores de confusão ou por causalidade reversa (a obesidade pode levar ao aumento do tempo de tela). A alternativa E é a interpretação mais apropriada e cientificamente correta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre associação e causalidade, e entre OR e risco relativo. O candidato tende a escolher a alternativa A, que usa 'risco' em vez de 'chance', ou a alternativa B, que atribui causalidade a um estudo transversal. Lembre-se: OR é razão de chances, não de riscos, e estudo transversal nunca prova causalidade. Com treino, você identifica essas armadilhas de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para interpretar OR em estudos transversais, siga este roteiro: (1) verifique se o IC 95% inclui o valor 1 — se não incluir, a associação é estatisticamente significativa; (2) interprete o OR como razão de chances, não como risco; (3) lembre-se de que o desenho transversal não permite inferência causal, independentemente da magnitude do OR. Essa sequência resolve a maioria das questões sobre o tema.