Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FUNDATEC 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg483148
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto - Anestesiologia,Cirurgia Cardiovascular,Cirurgia Geral,Clínica Médica,Ginecologia e Obstetrícia,Medicina Intensiva,Neurocirurgia,Ortopedia e Traumatologia,Pediatria,Psiquiatria
O médico é chamado no alojamento conjunto para avaliar um recém-nascido ictérico até a raiz da coxa. Nasceu de parto cesáreo, com 36 semanas de idade gestacional, está com 36 horas de vida e com dificuldade na amamentação. A mãe é do tipo sanguíneo A+, e o bebê, B+. Com base nessas informações, pode-se suspeitar que o mecanismo causador da icterícia é:
AIncompatibilidade RH.
BAumento da atividade da enzima uridino difosfato glicuronil transferase.
CAumento do nível sérico de albumina.
DAumento da captação hepática de bilirrubina indireta.
EAumento da circulação entero-hepática.
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GabaritoE — Aumento da circulação entero-hepática.
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Icterícia neonatal: mecanismos fisiopatológicos
Gabarito: letra E. O recém-nascido com 36 semanas, 36 horas de vida, ictérico até a raiz da coxa e com dificuldade na amamentação apresenta fatores de risco clássicos para hiperbilirrubinemia por aumento da circulação entero-hepática — mecanismo que se exacerba pela imaturidade da flora intestinal, pela baixa ingesta calórica e pela presença de beta-glicuronidase no leite materno, que desconjuga a bilirrubina no intestino e favorece sua reabsorção. A incompatibilidade ABO (mãe A+, bebê B+) é possível, mas não é o mecanismo mais provável diante do quadro descrito, e a incompatibilidade Rh está afastada pela tipagem materna positiva.
A icterícia neonatal é a expressão clínica da hiperbilirrubinemia, condição que acomete cerca de 50% dos recém-nascidos a termo e 80% dos prematuros. Ela ocorre porque, no período neonatal, há um desequilíbrio fisiológico entre a produção aumentada de bilirrubina (pela maior massa eritrocitária e menor vida média das hemácias) e a capacidade ainda imatura do fígado de captar, conjugar e excretar essa bilirrubina. A bilirrubina produzida é do tipo indireta (não conjugada), lipossolúvel, e precisa ser transportada ligada à albumina até o hepatócito, onde é conjugada pela enzima uridino difosfato glicuronil transferase (UDP-GT) e excretada na bile. No intestino, a bilirrubina conjugada é convertida em urobilinogênio pela flora bacteriana e eliminada nas fezes. Porém, no recém-nascido, esse processo é imaturo: a flora intestinal ainda não está plenamente estabelecida, e a enzima beta-glicuronidase, presente no leite materno e no intestino neonatal, desconjuga a bilirrubina, que é então reabsorvida pela circulação entero-hepática, perpetuando a hiperbilirrubinemia indireta.
O quadro clínico descrito — icterícia que progride no sentido cefalocaudal (atingindo a raiz da coxa, o que sugere bilirrubina em torno de 10-12 mg/dL), idade gestacional de 36 semanas (fator de risco), 36 horas de vida e dificuldade na amamentação — aponta para a icterícia fisiológica exacerbada por fatores que aumentam a circulação entero-hepática. A dificuldade na amamentação leva à baixa ingesta calórica e à redução do trânsito intestinal, o que aumenta o tempo de contato da bilirrubina com a beta-glicuronidase e, consequentemente, sua reabsorção. A prematuridade limítrofe (36 semanas) também contribui, pois a imaturidade hepática e intestinal é maior que no recém-nascido a termo.
A incompatibilidade ABO (mãe A+, bebê B+) é uma causa possível de icterícia hemolítica, mas geralmente se manifesta com icterícia mais precoce (nas primeiras 24 horas) e com anemia, reticulocitose e esplenomegalia. No caso descrito, a icterícia aparece com 36 horas, o que é mais compatível com a icterícia fisiológica exacerbada. Além disso, a incompatibilidade ABO costuma ser mais leve que a Rh, e o mecanismo predominante ainda é o aumento da circulação entero-hepática secundário à hemólise. A incompatibilidade Rh está descartada, pois a mãe é Rh positivo (A+).
As demais alternativas descrevem mecanismos que, se presentes, reduziriam a bilirrubina, não a aumentariam: o aumento da atividade da UDP-GT aumentaria a conjugação; o aumento da albumina sérica aumentaria o transporte; e o aumento da captação hepática reduziria a bilirrubina indireta circulante. Todas são, portanto, incorretas.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os mecanismos que AUMENTAM a bilirrubina (produção aumentada, conjugação diminuída, circulação entero-hepática aumentada) e os que a REDUZEM (captação aumentada, conjugação aumentada, albumina aumentada). O candidato que não domina a fisiologia do metabolismo da bilirrubina pode marcar a alternativa A (incompatibilidade Rh) por associar icterícia neonatal a incompatibilidade sanguínea, sem perceber que a mãe é Rh positivo e que o quadro é mais compatível com a icterícia fisiológica exacerbada.
Icterícia neonatal
1Mecanismos que AUMENTAM a bilirrubina
Produção aumentada (hemólise)
Conjugação diminuída (UDP-GT imatura)
Circulação entero-hepática aumentada
Flora intestinal imatura
Beta-glicuronidase (leite materno)
Baixa ingesta calórica
2Mecanismos que REDUZEM a bilirrubina
Captação hepática aumentada
Conjugação aumentada (UDP-GT ativa)
Albumina sérica aumentada
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A incompatibilidade Rh ocorre quando a mãe é Rh negativo e o bebê é Rh positivo, levando à produção de anticorpos anti-D pela mãe que atravessam a placenta e hemolisam as hemácias fetais. No caso, a mãe é A+ (Rh positivo), o que torna essa hipótese impossível. Além disso, a incompatibilidade Rh costuma causar icterícia mais precoce e grave, com anemia importante, o que não é o quadro descrito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O aumento da atividade da enzima uridino difosfato glicuronil transferase (UDP-GT) aumentaria a conjugação da bilirrubina indireta, reduzindo seus níveis séricos. Na icterícia neonatal, ocorre justamente o oposto: a atividade dessa enzima está diminuída ou imatura, o que contribui para o acúmulo de bilirrubina indireta. A alternativa inverte o mecanismo fisiopatológico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O aumento do nível sérico de albumina aumentaria a capacidade de transporte da bilirrubina indireta no sangue, reduzindo a fração livre e, portanto, diminuindo o risco de icterícia e kernicterus. Na prática, a hipoalbuminemia (albumina baixa) é que pode agravar a hiperbilirrubinemia, pois aumenta a bilirrubina livre. A alternativa descreve um mecanismo protetor, não causador de icterícia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O aumento da captação hepática de bilirrubina indireta reduziria os níveis séricos de bilirrubina, pois mais bilirrubina seria retirada do sangue e encaminhada para conjugação. Na icterícia neonatal, a captação hepática está diminuída ou imatura, contribuindo para o acúmulo de bilirrubina indireta. A alternativa inverte o mecanismo.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O aumento da circulação entero-hepática é um dos principais mecanismos da icterícia neonatal, especialmente em prematuros e em recém-nascidos com dificuldade de amamentação. A bilirrubina conjugada excretada na bile é desconjugada pela beta-glicuronidase no intestino e reabsorvida, retornando ao fígado e perpetuando a hiperbilirrubinemia. A baixa ingesta calórica (dificuldade na amamentação) reduz o trânsito intestinal e aumenta o tempo de contato da bilirrubina com a enzima, exacerbando o mecanismo. A idade gestacional de 36 semanas e a icterícia com 36 horas de vida são fatores de risco que reforçam essa hipótese.