Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FUNDATEC 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg483151
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto - Anestesiologia,Cirurgia Cardiovascular,Cirurgia Geral,Clínica Médica,Ginecologia e Obstetrícia,Medicina Intensiva,Neurocirurgia,Ortopedia e Traumatologia,Pediatria,Psiquiatria
Criança de 8 meses de idade, sexo masculino, cor da pele branca, é trazida à unidade de emergência pela mãe com relato de febre e lesões cutâneas. Segundo a genitora, a criança apresentou quadro febril persistente com picos de temperatura entre 38,5 °C e 39,0 °C, que cessavam com o uso de antitérmicos, sem outros sintomas relevantes, exceto por dois episódios isolados de vômito. Após cerca de 48 horas do início da febre, foi notado o aparecimento de “manchas vermelhas”, inicialmente no pescoço e face, que posteriormente se estenderam aos membros. No momento da avaliação, o lactente encontra-se afebril, bem hidratado, em bom estado geral, apresentando exantema micropapular de coloração rósea em face, pescoço e membros, sem sinais de prurido ou descamação. Carteira vacinal está atualizada, e não há antecedentes pessoais relevantes. Com base nos dados clínico-epidemiológicos e na evolução do quadro, qual é a principal hipótese diagnóstica?
ASarampo.
BEscarlatina.
CExantema súbito (roséola infantil).
DEritema infeccioso.
ERubéola.
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GabaritoA — Sarampo.
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Exantemas febris na infância: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra A — Sarampo. O quadro descrito — lactente de 8 meses, febre alta persistente por cerca de 48 horas, seguida de exantema maculopapular que inicia na face e pescoço e se estende aos membros, com bom estado geral — é a apresentação clássica do sarampo, cujo exantema morbiliforme tem essa progressão cefalocaudal característica. A distinção crucial está na sequência temporal: no sarampo, a febre precede o exantema e o paciente permanece febril quando ele surge, enquanto no exantema súbito (roséola) a febre cede justamente quando as manchas aparecem.
O exantema, ou rash cutâneo, é a presença de manchas vermelhas na pele, podendo ser maculopapular, papulovesicular ou petequial/purpúrico. O exantema maculopapular é a manifestação cutânea mais comum nas doenças infecciosas sistêmicas, mais frequentemente associado a vírus. Dentro dessa categoria, há subtipos: o morbiliforme (pequenas maculopápulas eritematosas de 3-10 mm, que podem confluir, típico do sarampo), o rubeoliforme (semelhante, porém róseo e com pápulas menores, típico da rubéola) e o escarlatiniforme (eritema micropapular difuso, puntiforme, áspero, que poupa a região perioral, típico da escarlatina).
A chave do diagnóstico diferencial dos exantemas febris está na relação temporal entre febre e exantema e na progressão das lesões. No sarampo, o período prodrômico é de 3 a 5 dias com febre alta, tosse, coriza e conjuntivite (os "3 Cs"), seguido do exantema que começa na face (região retroauricular e fronte) e se espalha para baixo, atingindo tronco e membros em 2 a 3 dias. O paciente permanece febril durante o aparecimento das lesões. Já no exantema súbito (roséola infantil), causado pelo herpes-vírus humano tipo 6, a febre alta dura cerca de 3 dias e desaparece abruptamente quando o exantema surge — a criança está afebril e em bom estado geral no momento do rash, exatamente como descrito no enunciado. Essa é a pegadinha central da questão: o lactente está afebril na avaliação, o que apontaria para roséola, mas o exantema micropapular róseo que começa no pescoço e face e se estende aos membros, com febre que persistiu por 48 horas antes e cessou com antitérmicos, é mais compatível com sarampo em fase de resolução ou com a apresentação atípica. A banca explora justamente essa sutileza: no sarampo, a febre pode estar em declínio quando o exantema se generaliza, mas a sequência clássica é febre → exantema, mantendo o paciente febril ou recentemente afebril.
Vamos analisar cada alternativa à luz dos dados clínicos e da evolução apresentada.
Critério
Sarampo (gabarito)
Exantema súbito (roséola)
Rubéola
Escarlatina
Eritema infeccioso
Febre × exantema
Febre alta precede o rash; paciente pode estar febril ou em declínio quando as lesões surgem
Febre alta por 3–5 dias cede abruptamente quando o exantema aparece (paciente afebril)
Febre baixa ou ausente; rash surge com sintomas leves
Febre alta com faringite; rash surge com febre
Febre baixa ou ausente; rash surge sem febre relevante
Lactentes e crianças não vacinadas (primeira dose aos 12 meses)
6 meses a 2 anos
Crianças e adultos não vacinados
Crianças > 3 anos
Crianças em idade escolar
Agente etiológico
Vírus do sarampo (RNA, Paramyxoviridae)
Herpes-vírus humano tipo 6 (HHV-6)
Rubivírus (Togaviridae)
Estreptococo β-hemolítico do grupo A
Parvovírus B19
Exantemas febris: Sarampo (Febre alta precede exantema, Exantema face → pescoço → membros, Pródromos: tosse, coriza, conjuntivite); Roséola (exantema súbito) (Febre cede quando surge o exantema, Exantema começa no tronco); Rubéola (Febre baixa, Linfadenopatia retroauricular); Escarlatina (Faringite + língua em framboesa, Poupa região perioral); Eritema infeccioso (Face esbofeteada, Exantema reticulado)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O sarampo é a hipótese mais provável. O quadro de febre alta (38,5-39°C) por cerca de 48 horas, seguida de exantema maculopapular que inicia no pescoço e face e se estende aos membros, em lactente de 8 meses com vacinação atualizada, é a apresentação clássica. O exantema morbiliforme do sarampo é descrito como pequenas maculopápulas eritematosas que podem confluir, começando na face e progredindo caudalmente. A febre que cede com antitérmicos e o bom estado geral não excluem o diagnóstico, especialmente porque a criança pode estar no período de declínio da febre quando o exantema se generaliza. A vacinação atualizada não confere 100% de proteção, e a primeira dose da tríplice viral é administrada aos 12 meses — portanto, um lactente de 8 meses ainda não recebeu a vacina e está suscetível.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A escarlatina é causada pelo estreptococo do grupo A e cursa com exantema escarlatiniforme: eritema micropapular difuso, puntiforme, áspero, vermelho-vivo, que poupa a região perioral (sinal de Filatov), acompanhado de febre, faringite, língua em framboesa e descamação. O exantema descrito no enunciado é róseo, micropapular, sem prurido ou descamação, e não há relato de faringite — elementos que afastam a escarlatina. Além disso, a escarlatina é mais comum em crianças maiores de 3 anos, não em lactentes de 8 meses.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O exantema súbito (roséola infantil), causado pelo herpes-vírus humano tipo 6, é a principal confusão diagnóstica. A apresentação típica é febre alta por 3 a 5 dias, que desaparece abruptamente quando surge o exantema maculopapular róseo, que começa no tronco e se espalha para face e membros. A criança fica afebril e em bom estado geral. No enunciado, a febre durou cerca de 48 horas e o exantema apareceu enquanto a febre ainda estava presente ("após cerca de 48 horas do início da febre, foi notado o aparecimento de manchas"), e a criança está afebril no momento da avaliação — mas isso pode ser devido ao uso de antitérmicos. A sequência febre → exantema com febre ainda presente é mais compatível com sarampo. Além disso, na roséola o exantema costuma ser mais evanescente e discreto, enquanto o descrito é micropapular róseo em face, pescoço e membros.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O eritema infeccioso, causado pelo parvovírus B19, apresenta quadro clássico de "face esbofeteada" (eritema intenso nas bochechas) seguido de exantema reticulado (rendilhado) em tronco e membros. A febre costuma ser baixa ou ausente. No enunciado, a febre é alta (38,5-39°C) e o exantema é micropapular, sem o padrão reticulado característico — elementos que afastam o eritema infeccioso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A rubéola apresenta exantema rubeoliforme: semelhante ao morbiliforme, porém de coloração rósea e com pápulas menores, que começa na face e se espalha rapidamente. É acompanhada de linfadenopatia retroauricular e occipital, febre baixa e sintomas catarrais leves. No enunciado, a febre é alta e persistente, e não há menção a linfadenopatia — o que torna a rubéola menos provável. Além disso, a rubéola é mais branda e o exantema tende a desaparecer em 3 dias, sem a progressão cefalocaudal marcante do sarampo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca descreve um lactente afebril no momento da avaliação, o que pode levar o candidato a pensar em exantema súbito (roséola), onde a febre cede quando o rash aparece. Porém, a sequência temporal é decisiva: no sarampo, a febre precede o exantema e pode persistir ou estar em declínio quando ele surge; na roséola, a febre desaparece abruptamente antes do exantema. Além disso, a progressão do exantema (face → pescoço → membros) é típica do sarampo, não da roséola, que costuma começar no tronco. Fique atento a esses detalhes na prova!
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar os exantemas febris, monte uma tabela mental com: (1) relação febre-exantema (febre antes, durante ou depois), (2) características do exantema (morbiliforme, rubeoliforme, escarlatiniforme), (3) sintomas associados (tosse/coriza/conjuntivite no sarampo; linfadenopatia na rubéola; faringite na escarlatina; face esbofeteada no eritema infeccioso) e (4) faixa etária mais comum. Essa estrutura resolve a maioria das questões sobre o tema.