Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg483170
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto - Anestesiologia,Cirurgia Cardiovascular,Cirurgia Geral,Clínica Médica,Ginecologia e Obstetrícia,Medicina Intensiva,Neurocirurgia,Ortopedia e Traumatologia,Pediatria,Psiquiatria
Mulher, 35 anos, procura pronto atendimento por palpitações, tremores, sudorese e sensação de falta de ar. Relata que episódios semelhantes ocorrem de forma súbita, duram cerca de 15 minutos e são acompanhados de medo intenso de “morrer ou enlouquecer”. Refere que desde o primeiro episódio, há 2 meses, passou a evitar lugares públicos por receio de novas crises. Exames laboratoriais (TSH, hemograma, eletrólitos, ECG) estão normais. O diagnóstico mais provável e a conduta inicial recomendada são, respectivamente:
ATranstorno de ansiedade generalizada – iniciar benzodiazepínico em monoterapia de uso contínuo.
BTranstorno de pânico – iniciar tratamento com antidepressivo ISRS, podendo associar benzodiazepínico por curto prazo.
CFobia social – encaminhar exclusivamente para terapia cognitivo-comportamental, sem indicação farmacológica.
DHipoglicemia recorrente – indicar dieta fracionada e evitar uso de ansiolíticos.
ETranstorno obsessivo-compulsivo – iniciar tratamento com clomipramina como primeira escolha, independentemente do perfil clínico.
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GabaritoB — Transtorno de pânico – iniciar tratamento com antidepressivo ISRS, podendo associar benzodiazepínico por curto prazo.
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Transtorno de Pânico: diagnóstico e conduta inicial
Gabarito: letra B. O quadro descrito — crises súbitas de palpitações, tremores, sudorese, falta de ar, medo intenso de morrer/enlouquecer, com duração de minutos e seguido de comportamento de evitação (evitar lugares públicos) — é a apresentação clássica do transtorno de pânico, e a conduta inicial recomendada é o tratamento com antidepressivo ISRS, podendo associar benzodiazepínico por curto prazo. O diagnóstico é eminentemente clínico, apoiado na exclusão de causas orgânicas (exames laboratoriais e ECG normais), e a alternativa B espelha exatamente a diretriz terapêutica de primeira linha.
O transtorno de pânico é um transtorno de ansiedade caracterizado por ataques de pânico recorrentes e inesperados — episódios abruptos de medo intenso ou desconforto que atingem o pico em minutos e cursam com sintomas autonômicos (palpitações, sudorese, tremores, dispneia, sensação de asfixia, tontura) e cognitivos (medo de perder o controle, enlouquecer ou morrer). O que diferencia o pânico de outros transtornos de ansiedade é justamente a natureza paroxística e bem-definida das crises, em contraste com a ansiedade difusa e persistente da TAG, por exemplo. Além dos ataques, o diagnóstico exige a presença de ansiedade antecipatória (medo de ter novas crises) e comportamentos de evitação — exatamente o que a paciente descreve ao evitar lugares públicos desde o primeiro episódio, há 2 meses. Essa tríade — crises recorrentes + preocupação persistente com novas crises + mudança de comportamento — é o núcleo do transtorno de pânico, e a agorafobia frequentemente se desenvolve como complicação, quando a evitação se generaliza para situações das quais seria difícil escapar ou obter ajuda.
O diagnóstico é clínico, mas exige exclusão de causas orgânicas que mimetizam o pânico: hipertireoidismo (TSH), anemia (hemograma), distúrbios eletrolíticos, arritmias e cardiopatias (ECG). No caso, todos os exames estão normais, reforçando a hipótese psiquiátrica. O tratamento de primeira linha é farmacológico com antidepressivos ISRS (fluoxetina, sertralina, paroxetina, escitalopram), que reduzem a frequência e a intensidade das crises; os benzodiazepínicos podem ser associados por curto prazo (primeiras 2–4 semanas) para controle sintomático imediato, enquanto o ISRS ainda não fez efeito pleno (que leva de 4 a 8 semanas), mas nunca em monoterapia de uso contínuo, pelo risco de dependência e tolerância. A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental (TCC), é adjuvante importante, mas não substitui o tratamento farmacológico na fase aguda.
A banca explora aqui a fronteira entre os transtornos de ansiedade — pânico × TAG × fobia social × TOC — e a conduta correta para cada um. O erro mais comum é confundir o pânico com a TAG (que tem ansiedade crônica e difusa, sem crises paroxísticas bem-definidas) ou com a fobia social (que se limita a situações de exposição social). Outro erro frequente é acreditar que benzodiazepínico em monoterapia é tratamento de primeira linha para qualquer ansiedade — na verdade, é coadjuvante de curto prazo, sendo o ISRS a base do tratamento do pânico. Guarde o par crise paroxística + evitação + exames normais = pânico → ISRS ± BZD curto prazo: é exatamente esse critério que separa as alternativas.
Critério
Transtorno de Pânico (gabarito)
TAG (alternativa A)
Fobia Social (alternativa C)
TOC (alternativa E)
Natureza das crises
Paroxísticas, súbitas, bem-definidas (pico em minutos)
Ansiedade difusa e persistente, sem crises paroxísticas
Medo restrito a situações de exposição social
Obsessões (pensamentos intrusivos) e compulsões (rituais)
Sintomas centrais
Palpitações, tremores, sudorese, dispneia + medo de morrer/enlouquecer
Preocupação excessiva sobre múltiplos domínios da vida
Medo de avaliação negativa em situações sociais
Pensamentos recorrentes + comportamentos repetitivos para aliviar ansiedade
Comportamento de evitação
Evita lugares públicos por medo de novas crises (agorafobia)
Não há evitação fóbica típica
Evita situações sociais específicas
Pode evitar situações que disparam obsessões, mas sem padrão fóbico
Tratamento de primeira linha
ISRS ± BZD por curto prazo
ISRS (BZD nunca em monoterapia contínua)
TCC + ISRS (não exclusivamente TCC)
ISRS (clomipramina é reserva para refratários)
Transtorno de pânico: Crise paroxística (Súbita, pico em minutos, Sintomas autonômicos, Medo de morrer/enlouquecer); Ansiedade antecipatória (Medo de nova crise); Evitação (agorafobia) (Evita lugares públicos); Diagnóstico (Clínico, Excluir causas orgânicas); Tratamento (ISRS (1ª linha), BZD curto prazo, TCC adjuvante)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O diagnóstico está errado: a TAG se caracteriza por ansiedade e preocupação excessivas e persistentes (na maioria dos dias, por pelo menos 6 meses) sobre diversos domínios da vida, sem ataques de pânico bem-definidos. A paciente tem crises paroxísticas súbitas com medo de morrer/enlouquecer e comportamento de evitação — quadro típico de pânico, não de TAG. Além disso, a conduta está errada: benzodiazepínico em monoterapia de uso contínuo não é recomendado como primeira linha para nenhum transtorno de ansiedade — o tratamento de base é com ISRS, e o BZD é apenas adjuvante de curto prazo, pelo risco de tolerância e dependência.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O diagnóstico de transtorno de pânico é o mais provável: crises súbitas e recorrentes (15 minutos), com sintomas autonômicos (palpitações, tremores, sudorese, falta de ar), medo intenso de morrer/enlouquecer, ansiedade antecipatória e evitação de lugares públicos — a tríade clássica. A conduta inicial está correta: antidepressivo ISRS como tratamento de primeira linha, podendo associar benzodiazepínico por curto prazo para controle sintomático imediato enquanto o ISRS não faz efeito pleno. Os exames normais (TSH, hemograma, eletrólitos, ECG) afastam causas orgânicas e reforçam o diagnóstico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O diagnóstico está errado: a fobia social se caracteriza por medo ou ansiedade intensos especificamente em situações de exposição social (falar em público, interagir com desconhecidos), com receio de ser avaliado negativamente — não há ataques de pânico espontâneos nem medo de morrer/enlouquecer. A paciente evita lugares públicos por medo de ter novas crises, não por medo da avaliação social — isso é evitação fóbica secundária ao pânico (agorafobia), não fobia social primária. A conduta também está errada: a TCC é adjuvante importante, mas não é exclusiva — o tratamento farmacológico com ISRS é indicado, especialmente na fase aguda.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A hipoglicemia recorrente pode causar sintomas adrenérgicos (palpitações, tremores, sudorese), mas não explica o medo intenso de morrer/enlouquecer, a duração curta e autolimitada das crises (15 minutos) nem o comportamento de evitação de lugares públicos. Além disso, a hipoglicemia sintomática costuma estar associada a fatores como jejum prolongado, uso de hipoglicemiantes ou insulinoma — não é o caso descrito. A conduta de "dieta fracionada e evitar ansiolíticos" não trata o quadro psiquiátrico subjacente, que é o transtorno de pânico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O diagnóstico está errado: o TOC se caracteriza por obsessões (pensamentos intrusivos e recorrentes) e compulsões (comportamentos repetitivos para neutralizar a ansiedade) — nada disso está presente no caso. A paciente tem ataques de pânico paroxísticos, não obsessões/compulsões. A conduta também está errada: a clomipramina (antidepressivo tricíclico) é uma opção para TOC, mas não é a primeira escolha — os ISRS (fluoxetina, sertralina, fluvoxamina) são os fármacos de primeira linha, e a clomipramina é reservada para casos refratários, devido ao perfil de efeitos adversos. Além disso, a indicação "independentemente do perfil clínico" é absurda — toda escolha farmacológica deve considerar o perfil do paciente.
Gabarito: letra B — transtorno de pânico, com tratamento inicial com ISRS, podendo associar benzodiazepínico por curto prazo.