Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg483176
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto - Anestesiologia,Cirurgia Cardiovascular,Cirurgia Geral,Clínica Médica,Ginecologia e Obstetrícia,Medicina Intensiva,Neurocirurgia,Ortopedia e Traumatologia,Pediatria,Psiquiatria
Homem, 42 anos, previamente hígido, procura atendimento por cefaleia intensa unilateral na região orbital, acompanhada de lacrimejamento ocular, rinorreia e agitação motora. Relata que as crises ocorrem diariamente por 2 a 3 semanas, em horários semelhantes, e desaparecem espontaneamente por meses. Nega aura, fotofobia ou náuseas significativas. Com base no quadro clínico descrito, qual é o diagnóstico mais provável e a conduta terapêutica inicial recomendada, respectivamente?
AMigrânea sem aura – iniciar tratamento com triptanos orais ao início da crise e betabloqueador para profilaxia.
BCefaleia tensional crônica – manejo com analgésicos comuns e antidepressivos tricíclicos para profilaxia.
CCefaleia em salvas – tratar crises agudas com oxigenoterapia em alto fluxo ou sumatriptano subcutâneo.
DNeuralgia do trigêmeo – iniciar carbamazepina, com possibilidade de bloqueio do nervo em casos refratários.
EEnxaqueca com aura – manejo agudo com AINEs e, se refratária, considerar ergotamínicos.
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GabaritoC — Cefaleia em salvas – tratar crises agudas com oxigenoterapia em alto fluxo ou sumatriptano subcutâneo.
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Cefaleia em salvas: diagnóstico e tratamento da crise
Gabarito: letra C. O quadro descrito — cefaleia unilateral intensa na região orbital, com lacrimejamento, rinorreia e agitação, crises diárias em horários semelhantes por 2 a 3 semanas, com remissão espontânea por meses — é a apresentação clássica da cefaleia em salvas (cluster headache), uma cefaleia trigeminoautonômica. O tratamento da crise aguda é feito com oxigenoterapia em alto fluxo ou sumatriptano subcutâneo, conforme a literatura médica.
A cefaleia em salvas é uma cefaleia primária, caracterizada por crises de dor unilateral de forte ou fortíssima intensidade, localizada em região orbital, supraorbital e/ou temporal, com duração de 15 a 180 minutos. O que a distingue das demais cefaleias é a presença de sintomas autonômicos ipsilaterais à dor — lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal, rinorreia, ptose, miose, edema palpebral, sudorese frontal — e o comportamento do paciente durante a crise: ao contrário do migranoso, que busca repouso em ambiente escuro e silencioso, o paciente com salvas fica agitado, inquieto, andando de um lado para o outro, incapaz de deitar-se. Essa agitação é um dado clínico de grande valor diagnóstico e está presente no enunciado.
Outra característica marcante é a periodicidade circadiana e circanual: as crises ocorrem em horários semelhantes do dia (frequentemente à noite, despertando o paciente) e se agrupam em salvas que duram de 1 semana a 1 ano, em geral de 2 semanas a 3 meses, seguidas de períodos de remissão. O paciente do enunciado relata exatamente esse padrão: crises diárias por 2 a 3 semanas, em horários semelhantes, com desaparecimento espontâneo por meses. A ausência de aura, fotofobia e náuseas significativas afasta a migrânea, e a intensidade e a lateralidade da dor, com sintomas autonômicos, afastam a cefaleia tensional.
O tratamento da crise aguda da cefaleia em salvas é específico e deve ser instituído rapidamente, dada a intensidade da dor. As opções de primeira linha são a inalação de oxigênio a 100% em alto fluxo (7 a 10 litros/minuto por 15 minutos, com máscara facial) e o sumatriptano subcutâneo (6 mg). O oxigênio é efetivo em cerca de 70% dos pacientes, e o sumatriptano subcutâneo alivia a dor em grande parte dos casos em até 15 minutos. Analgésicos comuns, AINEs e opioides não são eficazes e não devem ser usados. Para a profilaxia, quando as crises são frequentes ou o quadro é crônico, utilizam-se verapamil, lítio, topiramato, melatonina ou corticosteroides em pulsos curtos.
A distinção entre as cefaleias primárias é essencial para a escolha terapêutica, e a banca explora exatamente essa diferenciação. Guarde os critérios que separam a cefaleia em salvas da migrânea, da cefaleia tensional e da neuralgia do trigêmeo: é neles que as alternativas se dividem.
Cefaleia em salvas
1Clínica
Dor unilateral fortíssima (orbital)
Sintomas autonômicos ipsilaterais
Lacrimejamento
Rinorreia
Agitação motora
Crises em horários semelhantes
Salvas (2-3 semanas) + remissão
2Crise aguda
Oxigenoterapia alto fluxo
Sumatriptano subcutâneo
3Profilaxia
Verapamil
Lítio
Topiramato
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A migrânea sem aura caracteriza-se por dor pulsátil, unilateral (mas que pode mudar de lado entre crises), de intensidade moderada a forte, com duração de 4 a 72 horas, associada a náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia. O paciente procura repouso, não apresenta agitação, e não há sintomas autonômicos ipsilaterais proeminentes nem periodicidade circadiana tão marcada. O enunciado descreve crises de 2 a 3 semanas com remissão por meses, o que não é o padrão da migrânea. Além disso, o tratamento agudo da migrânea com triptanos orais é correto, mas o diagnóstico está errado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A cefaleia tensional crônica é bilateral, em aperto ou pressão, de intensidade leve a moderada, sem sintomas autonômicos e sem agitação. O paciente do enunciado tem dor unilateral fortíssima, com lacrimejamento e rinorreia, o que é incompatível. O manejo com analgésicos comuns e antidepressivos tricíclicos para profilaxia é adequado para a cefaleia tensional, mas não se aplica ao caso descrito.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Todos os elementos do caso convergem para a cefaleia em salvas: dor unilateral intensa em região orbital, sintomas autonômicos ipsilaterais (lacrimejamento, rinorreia), agitação motora, crises diárias em horários semelhantes, duração das salvas de 2 a 3 semanas e remissão espontânea por meses. O tratamento da crise aguda é a oxigenoterapia em alto fluxo (7 a 10 L/min por 15 minutos) ou o sumatriptano subcutâneo (6 mg), ambos de primeira linha e altamente efetivos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A neuralgia do trigêmeo é uma dor paroxística, em choque ou facada, de curta duração (segundos a 2 minutos), desencadeada por estímulos táteis em zonas-gatilho, sem sintomas autonômicos e sem o padrão de salvas. A carbamazepina é o tratamento de primeira linha, mas o diagnóstico não se aplica ao quadro descrito, que tem crises de minutos a horas, com lacrimejamento e rinorreia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A enxaqueca com aura apresenta sintomas neurológicos focais transitórios (visuais, sensitivos ou de linguagem) que precedem a dor, além de náuseas, fotofobia e fonofobia. O enunciado nega aura e fotofobia. O manejo agudo com AINEs e ergotamínicos é inadequado para a cefaleia em salvas, que responde a oxigênio e triptanos subcutâneos.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre cefaleia em salvas e migrânea, pois ambas podem ser unilaterais e intensas. A chave está nos sintomas autonômicos ipsilaterais (lacrimejamento, rinorreia) e na agitação — o paciente com salvas não consegue ficar parado, enquanto o migranoso busca repouso. Além disso, a ausência de aura e fotofobia afasta a migrânea com aura, e a duração das crises (15-180 min) e o padrão em salvas afastam a neuralgia do trigêmeo.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as cefaleias primárias na prova, monte uma tabela mental com os critérios: duração da crise, lateralidade, sintomas associados e comportamento do paciente. Na cefaleia em salvas, a tríade "dor unilateral fortíssima + sintomas autonômicos ipsilaterais + agitação" é praticamente patognomônica. Lembre-se: o tratamento da crise é oxigênio em alto fluxo ou sumatriptano subcutâneo — nunca analgésicos comuns.