Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg483180
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Acesso Direto - Anestesiologia,Cirurgia Cardiovascular,Cirurgia Geral,Clínica Médica,Ginecologia e Obstetrícia,Medicina Intensiva,Neurocirurgia,Ortopedia e Traumatologia,Pediatria,Psiquiatria
Mulher, 35 anos, professora, refere cansaço progressivo há 6 meses, tontura ocasional e palidez cutânea. Relata fluxo menstrual intenso nos últimos anos. Não apresenta sangramentos gastrointestinais evidentes. Dieta variada.Exames laboratoriais recentes: • Hemoglobina – 8,2 g/dL. • VCM – 72 fL. • Reticulócitos – normais. • Ferro sérico – 25 µg/dL (referência 50–170). • Ferritina sérica – 8 ng/mL (referência 30–300). • Capacidade total de ligação de ferro (TIBC) – 450 µg/dL (referência 250–400). Com base nesse cenário clínico e laboratorial, qual é o diagnóstico mais provável?
AAnemia por doença crônica.
BAnemia ferropriva.
CTalassemia minor.
DAnemia sideroblástica adquirida.
EDeficiência de vitamina B12.
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GabaritoB — Anemia ferropriva.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Anemia microcítica: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra B. O quadro é de anemia microcítica (VCM 72 fL) com ferritina sérica muito baixa (8 ng/mL), ferro sérico baixo (25 µg/dL) e capacidade total de ligação do ferro (TIBC) elevada (450 µg/dL) — a tríade clássica da anemia ferropriva, agravada pelo contexto de fluxo menstrual intenso, que é a principal causa de perda crônica de ferro em mulheres em idade fértil. O diagnóstico é confirmado pela combinação de parâmetros laboratoriais, não por um único exame isolado.
A anemia ferropriva é a deficiência nutricional mais comum no mundo e a principal causa de anemia microcítica. Ela se instala de forma progressiva: primeiro há depleção dos estoques de ferro (ferritina baixa), depois redução do ferro sérico e, por fim, anemia com microcitose e hipocromia. No laboratório, a ferritina baixa é o marcador mais específico de deficiência de ferro — valores abaixo de 12 ng/mL são praticamente diagnósticos. O ferro sérico baixo reflete a falta do mineral circulante, e a TIBC elevada é a resposta compensatória do organismo, que aumenta a produção de transferrina para tentar captar mais ferro. O índice de saturação da transferrina (IST = ferro sérico ÷ TIBC) fica muito baixo, tipicamente abaixo de 16%.
O caso clínico é um exemplo clássico: mulher jovem, em idade fértil, com queixa de cansaço progressivo, tontura e palidez — sintomas inespecíficos de anemia — e o dado-chave da anamnese é o fluxo menstrual intenso, que representa perda crônica de sangue e, consequentemente, de ferro. A dieta variada afasta a causa nutricional isolada, e a ausência de sangramento gastrointestinal evidente direciona para a perda menstrual como fonte da depleção. Os reticulócitos normais indicam que a medula óssea não está respondendo adequadamente à anemia, o que é esperado na deficiência de ferro, pois falta o substrato para a eritropoiese.
O diagnóstico diferencial das anemias microcíticas é um ponto central na prática clínica e na prova. As principais entidades são: anemia ferropriva, talassemia menor, anemia da doença crônica, anemia sideroblástica e intoxicação por chumbo. A tabela abaixo resume os achados laboratoriais que as diferenciam:
Exame
Deficiência de ferro
Talassemia menor
Doença crônica
Sideroblástica
Ferritina sérica
Diminuída
Aumentada ou normal
Aumentada ou normal
Aumentada
Ferro sérico
Diminuído
Aumentado ou normal
Diminuído
Aumentado
TIBC
Aumentada
Normal
Diminuída
Diminuída ou normal
IST
Diminuído
Aumentado ou normal
Diminuído
Aumentado
Ferro medular
Ausente
Aumentado ou normal
Aumentado ou normal
Aumentado
Sideroblastos
Ausentes
Normais
Ausentes/raros
Aumentados (anel)
A pegadinha central desta questão é a anemia da doença crônica (alternativa A), que também cursa com ferro sérico baixo e anemia microcítica, mas se distingue pela ferritina normal ou elevada e pela TIBC normal ou diminuída — exatamente o oposto do padrão da ferropriva. A banca explora essa confusão: o candidato que decora apenas "ferro baixo = ferropriva" pode errar, mas quem conhece o perfil completo do ferro (ferritina + TIBC + IST) acerta. A ferritina é o exame que desfaz o nó: na doença crônica, ela está normal ou aumentada porque a inflamação aumenta a síntese de ferritina (proteína de fase aguda), mesmo com ferro sérico baixo.
Guarde a fronteira decisiva: ferritina baixa + TIBC alta = ferropriva; ferritina normal/alta + TIBC baixa = doença crônica. É exatamente nesse contraste que as alternativas se dividem.
A anemia da doença crônica (ADC) também é microcítica e apresenta ferro sérico baixo, mas a ferritina está normal ou aumentada (é uma proteína de fase aguda, elevada na inflamação) e a TIBC está normal ou diminuída. No caso, a ferritina de 8 ng/mL é muito baixa e a TIBC de 450 µg/dL está elevada — o padrão oposto ao da ADC. Além disso, não há no enunciado doença inflamatória, infecciosa ou neoplásica de base que justifique a ADC.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Todos os achados convergem para a anemia ferropriva: anemia microcítica (VCM 72 fL), ferritina muito baixa (8 ng/mL), ferro sérico baixo (25 µg/dL) e TIBC elevada (450 µg/dL). O contexto clínico de fluxo menstrual intenso em mulher em idade fértil é a causa clássica de perda crônica de ferro. A tríade laboratorial — ferritina baixa, ferro baixo e TIBC alta — é praticamente diagnóstica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A talassemia minor (traço talassêmico) cursa com anemia microcítica, mas com ferritina normal ou aumentada, ferro sérico normal ou aumentado e TIBC normal. O diagnóstico é feito pela eletroforese de hemoglobina, que mostra aumento da Hb A2 na talassemia β menor. No caso, o perfil do ferro é claramente de depleção, o que afasta a talassemia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A anemia sideroblástica adquirida apresenta ferritina aumentada, ferro sérico aumentado e TIBC diminuída ou normal, com sideroblastos em anel na medula óssea. É uma anemia microcítica, mas com sobrecarga de ferro, não deficiência. O padrão laboratorial do caso (ferritina baixa, TIBC alta) é o oposto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A deficiência de vitamina B12 causa anemia macrocítica (VCM > 100 fL), não microcítica. O VCM de 72 fL afasta essa hipótese. Além disso, o perfil do ferro estaria normal ou até elevado, e não haveria a depleção observada. Os sintomas neurológicos (parestesias, alterações de marcha) típicos da deficiência de B12 também estão ausentes.
NÃO CAIA NESSA!
A banca arma a armadilha com a anemia da doença crônica (letra A): ela também tem ferro sérico baixo e anemia microcítica, o que faz o candidato desatento marcar A. Mas a ferritina é o divisor de águas — na ADC ela está normal ou alta (inflamação), enquanto na ferropriva está baixíssima. Decore o par: ferritina baixa + TIBC alta = ferropriva; ferritina normal/alta + TIBC baixa = doença crônica. Com esse contraste na cabeça, você enxerga a troca de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, monte mentalmente a tabela do perfil de ferro para cada anemia microcítica. O padrão ouro é a combinação ferritina + TIBC + IST. Se a ferritina vier abaixo de 12 ng/mL, o diagnóstico é ferropriva, independentemente dos outros valores. E lembre: na mulher em idade fértil, a primeira causa a pensar é a perda menstrual — a anamnese do fluxo menstrual é obrigatória.