Questão de Medicina — Cirurgia Geral — FUNDATEC 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
qg483336
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Cirurgia Geral: Cirurgia Vascular e Cirurgia Pediátrica
Mulher, 48 anos, previamente hígida, apresenta icterícia progressiva há 2 semanas, associada a prurido intenso e colúria, sem episódios prévios de dor abdominal intensa ou febre. Exame físico revela abdome flácido, sem dor à palpação com aumento discreto da vesícula biliar. Exames laboratoriais indicam bilirrubina total: 12 mg/dL (direta: 9 mg/dL), fosfatase alcalina e gamaGT elevadas. Ultrassonografia mostra dilatação das vias biliares intra e extra-hepáticas, sem evidência de cálculos, massa visível ou litíase na vesícula. Considerando o quadro clínico e os achados de imagem, é correto afirmar que:
AO diagnóstico mais provável é de coledocolitíase, devendo-se realizar colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (CPRE) imediata como tratamento definitivo.
BO quadro caracteriza colangite aguda, pois há icterícia, prurido e vesícula palpável.
CA conduta inicial adequada é colecistectomia laparoscópica com exploração da via biliar.
DA primeira escolha terapêutica nos casos de icterícia obstrutiva deve ser ressecção cirúrgica das vias biliares.
EA apresentação sugere obstrução maligna distal das vias biliares e o aumento da vesícula é compatível com evolução subaguda.
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GabaritoE — A apresentação sugere obstrução maligna distal das vias biliares e o aumento da vesícula é compatível com evolução subaguda.
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Icterícia obstrutiva: distinguindo coledocolitíase de neoplasia maligna
Gabarito: letra E. O quadro — icterícia progressiva indolor, prurido, colúria, vesícula palpável não dolorosa (sinal de Courvoisier-Terrier) e dilatação biliar sem cálculos — é clássico de obstrução maligna distal das vias biliares, mais comumente por adenocarcinoma de cabeça de pâncreas. A alternativa E está correta ao afirmar isso e ao relacionar o aumento da vesícula à evolução subaguda da obstrução.
A icterícia é o sinal clínico de hiperbilirrubinemia, e o primeiro passo é determinar se há predomínio de bilirrubina direta (conjugada) ou indireta (não conjugada). Nesta paciente, a bilirrubina direta de 9 mg/dL em um total de 12 mg/dL indica predomínio de bilirrubina conjugada, o que aponta para colestase — seja por obstrução biliar ou por defeito de excreção hepática. A fosfatase alcalina e a gama-GT elevadas reforçam o padrão colestático, e a ultrassonografia com dilatação das vias biliares intra e extra-hepáticas confirma a obstrução ao fluxo biliar.
A grande questão é identificar a ETIOLOGIA da obstrução. A ausência de cálculos na vesícula e nas vias biliares, a ausência de dor abdominal intensa e de febre, e a progressão insidiosa da icterícia afastam as causas litiásicas e inflamatórias agudas. O sinal de Courvoisier-Terrier — vesícula biliar palpável e não dolorosa em paciente ictérico — é um marcador clássico de obstrução maligna distal, pois a vesícula distende de forma crônica e indolor quando o colédoco é comprimido por um tumor, como o de cabeça de pâncreas. Em contraste, na coledocolitíase a vesícula geralmente está contraída e dolorosa, e na colangite há a tríade de Charcot (febre, dor abdominal e icterícia).
A distinção entre obstrução benigna (litiásica) e maligna é crucial porque muda completamente a conduta. Na coledocolitíase, a CPRE é terapêutica e definitiva, com extração do cálculo. Na obstrução maligna, a CPRE tem papel apenas paliativo (drenagem biliar) ou diagnóstico, e o tratamento curativo é a ressecção cirúrgica do tumor — como a duodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple) no adenocarcinoma de cabeça de pâncreas. A colecistectomia isolada não trata a obstrução maligna, e a ressecção cirúrgica das vias biliares não é a primeira escolha terapêutica em todos os casos de icterícia obstrutiva — depende da etiologia e da ressecabilidade.
A pegadinha central desta questão é a tentação de diagnosticar coledocolitíase ou colangite, que são causas muito mais comuns de obstrução biliar, mas que não se encaixam no quadro clínico apresentado. A ausência de dor, febre e cálculos, somada à vesícula palpável indolor, é o conjunto de achados que direciona para a neoplasia. Guarde o par: dor + febre + cálculos = causa benigna/litiásica; icterícia indolor progressiva + vesícula palpável + sem cálculos = causa maligna.
Critério
Coledocolitíase (A)
Colangite aguda (B)
Obstrução maligna distal (E)
Dor abdominal
Intensa, tipo cólica
Presente (hipocôndrio direito)
Ausente (indolor)
Febre
Ausente
Presente (tríade de Charcot)
Ausente
Vesícula palpável
Geralmente contraída e dolorosa
Pode estar distendida, mas com dor
Distendida, indolor (Courvoisier-Terrier)
USG vias biliares
Cálculo no colédoco
Dilatação, geralmente com cálculo
Dilatação sem cálculos, massa pode não ser visível
Tratamento de escolha
CPRE com extração do cálculo
Antibióticos + drenagem biliar
Ressecção cirúrgica (ex.: Whipple)
Icterícia obstrutiva
1Causa benigna (litiásica)
Dor + febre + cálculos
CPRE é definitiva
2Causa maligna (neoplásica)
Icterícia indolor progressiva
Sinal de Courvoisier-Terrier
Sem cálculos na USG
Tratamento: ressecção cirúrgica
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o diagnóstico mais provável é coledocolitíase e que a CPRE imediata é o tratamento definitivo. A coledocolitíase é uma causa comum de obstrução biliar, mas o quadro clínico aqui é de obstrução maligna: não há dor abdominal intensa, não há febre, e a ultrassonografia não mostra cálculos nas vias biliares. A CPRE é o exame de escolha para coledocolitíase, com capacidade terapêutica de extração de cálculos, mas não é o tratamento definitivo para uma obstrução maligna — nesse caso, a CPRE teria papel apenas paliativo ou diagnóstico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que o quadro caracteriza colangite aguda, pois há icterícia, prurido e vesícula palpável. A colangite aguda é uma infecção das vias biliares, classicamente apresentando a tríade de Charcot: febre, dor abdominal no hipocôndrio direito e icterícia. A paciente não tem febre nem dor abdominal — tem icterícia progressiva indolor. O prurido é um sintoma de colestase, não específico de colangite. A vesícula palpável não dolorosa (sinal de Courvoisier-Terrier) sugere obstrução maligna, não colangite.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a conduta inicial adequada é colecistectomia laparoscópica com exploração da via biliar. A colecistectomia é o tratamento da colecistite aguda e da litíase vesicular sintomática, não da obstrução maligna distal. A exploração da via biliar poderia ser considerada na coledocolitíase, mas não é o caso. Em uma obstrução maligna, a conduta inicial é a investigação complementar para estadiamento (como colangiopancreatografia por ressonância magnética ou tomografia) e planejamento cirúrgico oncológico, não uma colecistectomia isolada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a primeira escolha terapêutica nos casos de icterícia obstrutiva deve ser ressecção cirúrgica das vias biliares. Isso é uma generalização perigosa e incorreta. A icterícia obstrutiva tem múltiplas etiologias — litiásica, inflamatória, neoplásica — e o tratamento varia conforme a causa. Na coledocolitíase, a CPRE com esfincterotomia é o tratamento de escolha; na colangite, antibióticos e drenagem; na neoplasia, a ressecção cirúrgica pode ser indicada, mas não é a "primeira escolha" universal. Além disso, a ressecção das vias biliares não é o procedimento padrão para todas as obstruções malignas — depende da localização e da ressecabilidade do tumor.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A apresentação — icterícia progressiva indolor, prurido, colúria, vesícula palpável não dolorosa (sinal de Courvoisier-Terrier) e dilatação biliar sem cálculos — é clássica de obstrução maligna distal das vias biliares, mais comumente por adenocarcinoma de cabeça de pâncreas. O aumento da vesícula é compatível com evolução subaguda, pois a obstrução gradual permite a distensão crônica e indolor da vesícula, ao contrário da obstrução aguda litiásica, que causa dor e inflamação. A alternativa está correta ao identificar a etiologia maligna e ao correlacionar o sinal de Courvoisier-Terrier com a evolução subaguda.