Questão de Medicina — Cirurgia Geral — FUNDATEC 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
qg483347
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Cirurgia Geral: Cirurgia Vascular e Cirurgia Pediátrica
Homem, 28 anos, vítima de incêndio residencial, apresenta queimaduras de 2º grau profundo e 3º grau em aproximadamente 40% da Superfície Corporal Queimada (SCQ), sem sinais clínicos de lesão inalatória. Está hemodinamicamente estável e consciente no atendimento inicial. Em relação à abordagem inicial do paciente grande queimado de acordo com as recomendações da Advanced Trauma Life Support – ATLS (11th ed., 2023), é correto afirmar que:
AA reposição volêmica deve ser rigidamente determinada pela fórmula de Parkland, sem necessidade de ajustes adicionais após o cálculo inicial.
BQueimaduras que acometem mais de 20% da SCQ em adultos são indicação absoluta de intubação orotraqueal imediata.
CO objetivo da reposição volêmica em adultos é manter diurese em torno de 0,5 mL/kg/h.
DA reposição deve ser feita preferencialmente com coloides, como a albumina, na fase inicial do atendimento.
EO uso rotineiro de antibióticos profiláticos endovenosos está indicado para todos os pacientes com queimaduras extensas.
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GabaritoC — O objetivo da reposição volêmica em adultos é manter diurese em torno de 0,5 mL/kg/h.
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Abordagem inicial do paciente grande queimado: reposição volêmica
Gabarito: letra C. O objetivo da reposição volêmica no adulto grande queimado é manter a diurese em torno de 0,5 mL/kg/h, conforme preconizado pelo ATLS (11ª ed., 2023). As demais alternativas trazem erros conceituais: a fórmula de Parkland é um ponto de partida que exige ajustes, a intubação não é indicada apenas pelo percentual de SCQ, a fase inicial usa cristaloides (Ringer Lactato) e não coloides, e a antibioticoterapia profilática não é rotina.
A reposição volêmica é o pilar do atendimento inicial ao grande queimado, pois a queimadura extensa provoca uma síndrome de resposta inflamatória sistêmica (SRIS) que leva a um aumento da permeabilidade capilar e à perda de líquido para o espaço extravascular. Esse fenômeno causa hipovolemia e choque, que precisam ser combatidos com a infusão precoce de fluidos. O ATLS e a American Burn Association (ABA) recomendam o uso de cristaloides, sendo o Ringer Lactato a solução de escolha, na fase inicial (primeiras 24 horas).
A fórmula de Parkland é a mais utilizada para estimar o volume inicial: 4 mL × peso (kg) × %SCQ, sendo metade administrada nas primeiras 8 horas e a outra metade nas 16 horas seguintes. No entanto, é fundamental entender que essa fórmula é apenas um ponto de partida — o ATLS enfatiza que o cálculo deve ser individualizado e ajustado continuamente com base na resposta do paciente, principalmente pela diurese. A diurese é o parâmetro mais confiável para guiar a reposição: no adulto, o alvo é 0,5 mL/kg/h; em crianças, 1 mL/kg/h. Outros marcadores como lactato, variação da pressão de pulso e pressão venosa central podem auxiliar, mas a diurese é o padrão.
A escolha do fluido também é ponto crítico. Na fase inicial (primeiras 24 horas), a recomendação é usar cristaloides (Ringer Lactato), pois os coloides (como albumina) não são indicados nesse período — o aumento da permeabilidade capilar faria com que as proteínas também extravasassem para o interstício, agravando o edema. Os coloides podem ser considerados em fases posteriores, após 24-48 horas, quando a permeabilidade capilar começa a se restabelecer.
A via aérea é outra preocupação central. A intubação orotraqueal não é indicada apenas pelo percentual de SCQ, mas sim por sinais de lesão inalatória, insuficiência respiratória, rebaixamento do nível de consciência ou incapacidade de proteger a via aérea. No caso do enunciado, o paciente está consciente e sem sinais de lesão inalatória, portanto não há indicação de intubação imediata.
Por fim, a antibioticoterapia profilática não é recomendada de rotina em queimaduras extensas. O uso indiscriminado de antibióticos sistêmicos não previne infecção e pode selecionar bactérias resistentes. A prevenção de infecção é feita com cuidados locais da ferida, uso de antimicrobianos tópicos (como sulfadiazina de prata) e profilaxia do tétano, quando indicada.
Guarde esses quatro pilares — fluido (cristaloide), volume (Parkland como ponto de partida), alvo (diurese) e o que NÃO fazer (coloides na fase inicial, antibiótico profilático, intubação por SCQ) — pois é exatamente neles que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a reposição volêmica deve ser rigidamente determinada pela fórmula de Parkland, sem ajustes. Isso contraria a recomendação do ATLS: a fórmula é um ponto de partida, e a reposição deve ser ajustada continuamente com base na resposta do paciente, principalmente pela diurese. O erro está na palavra "rigidamente" e na ausência de ajustes.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que queimaduras > 20% da SCQ em adultos são indicação absoluta de intubação orotraqueal imediata. A intubação é indicada por critérios clínicos de lesão inalatória, insuficiência respiratória, rebaixamento do nível de consciência ou incapacidade de proteger a via aérea — não pelo percentual de SCQ isoladamente. O paciente do enunciado está consciente e sem sinais de lesão inalatória, portanto não há indicação.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O objetivo da reposição volêmica em adultos é manter a diurese em torno de 0,5 mL/kg/h. Esse é o parâmetro clínico mais confiável para avaliar a adequação da reposição volêmica no grande queimado adulto, conforme o ATLS. Em crianças, o alvo é 1 mL/kg/h.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a reposição deve ser feita preferencialmente com coloides (albumina) na fase inicial. A recomendação é usar cristaloides (Ringer Lactato) nas primeiras 24 horas, pois o aumento da permeabilidade capilar faria com que os coloides extravasassem para o interstício, agravando o edema. Coloides podem ser considerados apenas em fases posteriores.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o uso rotineiro de antibióticos profiláticos endovenosos está indicado para todos os pacientes com queimaduras extensas. Não há recomendação de antibioticoprofilaxia sistêmica de rotina em queimaduras, pois não previne infecção e pode selecionar bactérias resistentes. A prevenção é feita com cuidados locais, antimicrobianos tópicos e profilaxia do tétano.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o que é "ponto de partida" e o que é "regra rígida" (alternativa A), e entre "indicação clínica" e "percentual de SCQ" para intubação (alternativa B). No ATLS, a fórmula de Parkland é um guia inicial que deve ser ajustado pela diurese — nunca um valor fixo. E a intubação é decidida por sinais de lesão inalatória ou insuficiência respiratória, não pelo tamanho da queimadura.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de reposição volêmica em queimados, memorize o tripé: fluido (Ringer Lactato), volume (Parkland: 4 mL × kg × %SCQ) e alvo (diurese 0,5 mL/kg/h no adulto). Se a alternativa falar em coloides na fase inicial, antibiótico profilático ou intubação por SCQ, marque como errada.