Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FUNDATEC 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
qg483354
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Clínica Médica, Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia
Homem, 68 anos, cardiopata isquêmico com infarto prévio, está em seguimento ambulatorial por insuficiência cardíaca crônica com fração de ejeção reduzida (HFrEF). Usa atualmente enalapril 10 mg/dia, carvedilol 25 mg duas vezes/dia, espironolactona 25 mg/dia, furosemida 40 mg/dia. Permanece sintomático, com dispneia aos esforços correspondendo a NYHA classe II–III. Ecocardiograma: fração de ejeção do ventrículo esquerdo 30%. ECG: ritmo sinusal, bloqueio de ramo esquerdo com QRS 160 ms. Função renal estável (creatinina: 1,3 mg/dL), potássio: 4,5 mEq/L. Considerando diretrizes atuais e o manejo otimizado da HFrEF, qual é a melhor conduta terapêutica a ser adotada nesse ponto?
AAvaliar indicação de terapia de ressincronização cardíaca com inclusão para implante de cardiodesfibrilador, e substituir enalapril por sacubitril/valsartana após washout de 36 horas (se for eleito), além de considerar adição de inibidor SGLT2.
BAcrescentar um inibidor SGLT2 e manter enalapril; adotar conduta expectante quanto à terapia de ressincronização cardíaca.
CSubstituir imediatamente enalapril por sacubitril/valsartana (iniciar no dia seguinte sem intervalo), mantendo os demais fármacos, pois é comprovadamente superior ao IECA.
DSuspender espironolactona e aumentar dose de furosemida para tentar melhorar sintomas, adiando mudanças em terapias neuro-hormonais.
EIniciar ivabradina como próxima etapa, substituindo carvedilol, já que a redução isolada da frequência cardíaca é prioritária para melhora de sobrevida.
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GabaritoA — Avaliar indicação de terapia de ressincronização cardíaca com inclusão para implante de cardiodesfibrilador, e substituir enalapril por sacubitril/valsartana após washout de 36 horas (se for eleito), além de considerar adição de inibidor SGLT2.
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Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida (HFrEF): Otimização Terapêutica
Gabarito: letra A. O paciente, com HFrEF sintomática (NYHA II-III) apesar de terapia otimizada com IECA, betabloqueador e antagonista da aldosterona, apresenta critérios claros para terapia de ressincronização cardíaca (TRC) com cardiodesfibrilador implantável (CDI) — FEVE 30%, QRS 160 ms com bloqueio de ramo esquerdo (BRE) — e, simultaneamente, deve-se considerar a substituição do enalapril por sacubitril/valsartana (após washout de 36 horas) e a adição de um inibidor de SGLT2, conforme as diretrizes atuais de HFrEF.
A insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (HFrEF) é definida pela presença de sintomas de IC (dispneia, fadiga, edema) associados a uma fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) ≤ 40%. O tratamento moderno da HFrEF baseia-se em quatro pilares farmacológicos que, comprovadamente, reduzem mortalidade e hospitalizações: (1) inibidor da enzima conversora de angiotensina (IECA) ou bloqueador do receptor de angiotensina (BRA) ou sacubitril/valsartana; (2) betabloqueador (carvedilol, bisoprolol, succinato de metoprolol); (3) antagonista do receptor mineralocorticoide (ARM), como espironolactona; e (4) inibidor do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 (SGLT2), como dapagliflozina ou empagliflozina. Além disso, dispositivos como a TRC e o CDI desempenham papel fundamental em pacientes selecionados.
O paciente do caso já está em uso de três pilares (enalapril, carvedilol e espironolactona), mas permanece sintomático (NYHA II-III) e com FEVE de 30%. O ECG mostra ritmo sinusal com BRE e QRS de 160 ms. Esses são exatamente os critérios clássicos para indicação de TRC: FEVE ≤ 35%, ritmo sinusal, BRE com QRS ≥ 150 ms e classe funcional NYHA II-IV apesar de terapia otimizada. A TRC melhora os sintomas, a capacidade funcional e reduz a mortalidade e as hospitalizações nesse grupo. Como o paciente tem etiologia isquêmica com infarto prévio, também se enquadra nos critérios para CDI em prevenção primária de morte súbita (FEVE ≤ 35%, NYHA II-III, > 40 dias pós-IAM). Na prática, a TRC frequentemente é combinada com o CDI (TRC-D), pois ambos compartilham indicações semelhantes.
Além da otimização de dispositivos, a terapia farmacológica deve ser revista. O paciente usa enalapril 10 mg/dia, que é uma dose baixa. As diretrizes recomendam que, em pacientes com HFrEF sintomática que permanecem em classe NYHA II-III apesar de IECA/BRA, o IECA seja substituído por sacubitril/valsartana, que demonstrou superioridade na redução de mortalidade e hospitalizações no estudo PARADIGM-HF. É fundamental respeitar um período de washout de 36 horas sem IECA antes de iniciar o sacubitril/valsartana, para evitar angioedema. Se o paciente estivesse em uso de BRA, o washout não seria necessário. Além disso, a adição de um inibidor de SGLT2 (dapagliflozina ou empagliflozina) é recomendada para todos os pacientes com HFrEF, independentemente da presença de diabetes, pois reduz desfechos cardiovasculares, como demonstrado nos estudos DAPA-HF e EMPEROR-Reduced.
A alternativa A é a única que contempla todas as etapas corretas: avaliar TRC com CDI, substituir enalapril por sacubitril/valsartana após washout de 36 horas e considerar adição de inibidor de SGLT2. As demais alternativas apresentam erros conceituais ou condutas inadequadas, como veremos a seguir.
Critério
Alternativa A (Correta)
Alternativa B
Alternativa C
Alternativa D
Alternativa E
TRC/CDI
Avaliar TRC com CDI (FEVE 30%, BRE, QRS 160 ms)
Conduta expectante (inadequada)
Não menciona
Não menciona
Não menciona
Troca IECA → sacubitril/valsartana
Substituir após washout de 36 h
Manter enalapril
Substituir sem washout (erro)
Não menciona
Não menciona
Inibidor de SGLT2
Considerar adição
Acrescentar
Não menciona
Não menciona
Não menciona
Manejo de espironolactona/furosemida
Manter pilares
Manter pilares
Manter pilares
Suspender espironolactona e aumentar furosemida (erro)
Manter pilares
Ivabradina
Não indicada
Não indicada
Não indicada
Não indicada
Iniciar substituindo carvedilol (erro)
14 pilares farmacológicos
2Avaliar TRC (QRS ≥ 150ms)
3Avaliar CDI (FEVE ≤ 35%)
4Trocar IECA por ARNI (washout 36h)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa está correta porque aborda de forma completa e sequencial as três principais intervenções indicadas para o paciente: (1) avaliação para TRC com inclusão de CDI, dado que o paciente tem FEVE 30%, BRE com QRS 160 ms e NYHA II-III; (2) substituição do enalapril por sacubitril/valsartana, respeitando o washout de 36 horas, conforme recomendado pelas diretrizes; e (3) consideração da adição de inibidor de SGLT2, que é o quarto pilar do tratamento da HFrEF. A alternativa amarra corretamente os critérios clínicos do paciente às recomendações baseadas em evidências.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B sugere acrescentar um inibidor de SGLT2 e manter o enalapril, adotando conduta expectante quanto à TRC. O erro está em não considerar a TRC, que é uma indicação classe I neste paciente (FEVE ≤ 35%, BRE com QRS ≥ 150 ms, NYHA II-III). Além disso, a substituição do IECA por sacubitril/valsartana é recomendada em pacientes que permanecem sintomáticos, como é o caso. A conduta expectante em relação à TRC é inadequada, pois o paciente preenche todos os critérios para o benefício do dispositivo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C propõe substituir imediatamente o enalapril por sacubitril/valsartana, iniciando no dia seguinte sem intervalo. Isso é um erro grave, pois é obrigatório respeitar um período de washout de 36 horas sem IECA antes de iniciar o sacubitril/valsartana, para evitar o risco de angioedema. A alternativa também não menciona a TRC, que é uma indicação clara neste caso, nem a adição de inibidor de SGLT2.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D sugere suspender a espironolactona e aumentar a dose de furosemida, adiando mudanças em terapias neuro-hormonais. Isso é completamente equivocado: a espironolactona é um dos pilares do tratamento da HFrEF, com comprovada redução de mortalidade, e não deve ser suspensa sem justificativa (como hipercalemia ou piora da função renal, que não estão presentes — potássio 4,5 mEq/L e creatinina estável). Aumentar a dose de furosemida pode aliviar sintomas congestivos, mas não trata a causa subjacente e não substitui as terapias neuro-hormonais, que são as que modificam o prognóstico. Adiar mudanças nessas terapias é uma conduta inadequada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E propõe iniciar ivabradina como próxima etapa, substituindo o carvedilol. Isso é um erro duplo: (1) a ivabradina é indicada apenas em pacientes com FC ≥ 70 bpm em ritmo sinusal, apesar do uso de betabloqueador na dose máxima tolerada — o enunciado não informa a frequência cardíaca do paciente, e o carvedilol é um pilar do tratamento com benefício de mortalidade, não devendo ser substituído; (2) a ivabradina não substitui o betabloqueador, que tem benefícios adicionais além da redução da frequência cardíaca. A prioridade neste caso é a TRC e a otimização farmacológica com sacubitril/valsartana e inibidor de SGLT2, não a ivabradina.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os critérios de TRC e a sequência de otimização farmacológica. O candidato pode achar que, por já estar em uso de três pilares, o próximo passo seria apenas adicionar o inibidor de SGLT2 (alternativa B), esquecendo que o paciente preenche critérios claros para TRC. Além disso, a alternativa C tenta induzir ao erro ao sugerir a troca imediata do IECA por sacubitril/valsartana sem o washout de 36 horas, que é um detalhe crucial. Fique atento: a presença de BRE com QRS ≥ 150 ms e FEVE ≤ 35% em paciente sintomático é indicação classe I para TRC, e a troca de IECA por sacubitril/valsartana exige o intervalo de 36 horas.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de HFrEF, monte um checklist mental: (1) verifique se o paciente está nos quatro pilares farmacológicos (IECA/BRA/ARNI, betabloqueador, ARM, iSGLT2); (2) avalie critérios para TRC (FEVE ≤ 35%, BRE com QRS ≥ 150 ms, NYHA II-IV); (3) avalie critérios para CDI (FEVE ≤ 35%, NYHA II-III, etiologia isquêmica > 40 dias pós-IAM); (4) lembre-se do washout de 36 horas ao trocar IECA por sacubitril/valsartana. Essa sequência lógica ajuda a eliminar alternativas incorretas rapidamente.