Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg483358
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Clínica Médica, Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia
Homem, 52 anos, obeso, hipertenso e tabagista, relata sonolência excessiva diurna, roncos altos durante a noite e episódios de despertar súbito referidos pela esposa, associados a engasgos. Relata ainda cefaleia matinal frequente e dificuldade de concentração no trabalho. No exame físico, apresenta circunferência do pescoço aumentada e PA: 160/95 mmHg. Qual é o diagnóstico mais provável e a conduta inicial recomendada, respectivamente?
AInsônia primária – prescrever hipnóticos de uso contínuo como tratamento inicial.
BNarcolepsia – iniciar tratamento com modafinil e evitar medidas adicionais.
CSíndrome das pernas inquietas – iniciar ferro oral independentemente dos níveis de ferritina.
DHipersonia idiopática – recomendar higiene do sono e suspender tabagismo, sem necessidade de exames adicionais.
ESíndrome da apneia obstrutiva do sono – solicitar polissonografia e indicar pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP).
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GabaritoE — Síndrome da apneia obstrutiva do sono – solicitar polissonografia e indicar pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP).
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Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS): diagnóstico e conduta
Gabarito: letra E. O quadro clínico — sonolência diurna excessiva, roncos altos, episódios de engasgo/despertar súbito, cefaleia matinal, obesidade, circunferência cervical aumentada e hipertensão — é clássico de síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), cuja confirmação diagnóstica é feita por polissonografia e cujo tratamento inicial de escolha é o CPAP. As demais alternativas descrevem outros distúrbios do sono com condutas inadequadas ou incompletas.
A SAOS é o distúrbio respiratório obstrutivo do sono mais comum e relevante, caracterizado por episódios repetidos de colapso parcial ou total das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em apneias e hipopneias, dessaturação de oxigênio e despertares frequentes. Esses eventos fragmentam o sono e geram hipóxia intermitente, ativação simpática e inflamação sistêmica — o que explica as queixas diurnas (sonolência, falta de concentração, cefaleia matinal) e as comorbidades associadas, como hipertensão arterial resistente, doença cardiovascular e acidente vascular cerebral.
O diagnóstico é essencialmente clínico, mas a confirmação exige exame objetivo. A polissonografia (PSG) é o padrão-ouro, pois quantifica o índice de apneia-hipopneia (IAH) e define a gravidade, além de orientar a titulação da pressão do CPAP. O tratamento inicial para casos moderados a graves, ou com comorbidades, é a pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), que funciona como uma "tala pneumática" impedindo o colapso da faringe durante o sono. Medidas adjuvantes incluem perda de peso, posição lateral para dormir, evitar álcool e tabaco, e tratar comorbidades como a hipertensão.
A banca explora aqui a capacidade de diferenciar a SAOS de outros distúrbios do sono que também cursam com sonolência diurna, mas com características próprias. A narcolepsia, por exemplo, tem a tétrade clássica (sonolência, cataplexia, paralisia do sono e alucinações hipnagógicas), sem roncos ou engasgos. A insônia primária cursa com dificuldade de iniciar/manter o sono, não com roncos. A síndrome das pernas inquietas tem sintomas sensitivos e motores noturnos. A hipersonia idiopática é um diagnóstico de exclusão, sem os achados obstrutivos. O reconhecimento dos sinais de alarme — ronco + engasgo + sonolência + obesidade + pescoço curto — é o critério decisivo que separa a alternativa correta das demais.
Distúrbios do sono com sonolência diurna: SAOS (ronco + engasgo + obesidade) (Diagnóstico: polissonografia, Tratamento: CPAP); Narcolepsia (cataplexia + alucinações) (Tratamento: modafinil); Insônia primária (dificuldade de iniciar/manter) (Tratamento: TCC + higiene do sono); Síndrome das pernas inquietas (desconforto em repouso) (Tratamento: ferro se ferritina baixa); Hipersonia idiopática (exclusão) (Sem achados obstrutivos)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A insônia primária é caracterizada por dificuldade de iniciar ou manter o sono, com despertar precoce e prejuízo diurno, mas não cursa com roncos altos, engasgos noturnos ou cefaleia matinal. Além disso, a conduta de prescrever hipnóticos de uso contínuo como tratamento inicial é inadequada e até perigosa: hipnóticos podem piorar a apneia obstrutiva do sono (deprimem o drive respiratório e relaxam a musculatura da faringe) e, na insônia, a primeira linha é a terapia cognitivo-comportamental e a higiene do sono, com uso de medicação apenas em casos selecionados e por curto período.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A narcolepsia é uma hipersonia de origem central, rara, caracterizada pela tétrade: sonolência diurna excessiva, cataplexia (perda súbita do tônus muscular), paralisia do sono e alucinações hipnagógicas/hipnopômpicas. O paciente do caso não apresenta cataplexia nem alucinações, mas sim roncos e engasgos — típicos de obstrução. O modafinil é um psicoestimulante usado na narcolepsia, mas não é o tratamento da SAOS, e a afirmação de que se deve "evitar medidas adicionais" é absurda: a SAOS exige abordagem multifatorial (CPAP, perda de peso, controle de comorbidades).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A síndrome das pernas inquietas (SPI) é um distúrbio sensitivo-motor caracterizado por desconforto nas pernas em repouso, aliviado pelo movimento, com piora à noite. Não há roncos, engasgos ou cefaleia matinal. O tratamento com ferro oral é indicado apenas quando há deficiência de ferro (ferritina baixa), e não deve ser iniciado "independentemente dos níveis de ferritina" — isso seria iatrogênico (risco de sobrecarga de ferro). A conduta correta seria investigar os níveis de ferritina e tratar a causa de base.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A hipersonia idiopática é um diagnóstico de exclusão, caracterizado por sonolência diurna excessiva sem causa identificável, sem roncos, engasgos ou achados objetivos na polissonografia. O paciente do caso tem sinais claros de obstrução das vias aéreas, o que afasta esse diagnóstico. Além disso, a conduta de "recomendar higiene do sono e suspender tabagismo, sem necessidade de exames adicionais" é incorreta: a suspeita de SAOS exige confirmação por polissonografia, e a higiene do sono isolada não trata a apneia obstrutiva.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa está correta e é a resposta pedida. O quadro clínico é clássico de SAOS: homem obeso, hipertenso, tabagista, com sonolência diurna excessiva, roncos altos, episódios de engasgo/despertar súbito (apneias presenciadas), cefaleia matinal, dificuldade de concentração e circunferência cervical aumentada — todos fatores de risco e sintomas típicos. A conduta inicial é solicitar polissonografia para confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade, e indicar CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas) como tratamento de primeira linha, especialmente em casos moderados a graves ou com comorbidades como hipertensão. Medidas adjuvantes (perda de peso, evitar álcool/tabaco, posição lateral) também são recomendadas, mas o CPAP é o pilar do tratamento.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os distúrbios do sono que cursam com sonolência diurna. O candidato que memoriza apenas a sonolência pode cair em narcolepsia ou hipersonia idiopática, mas o ronco + engasgo + obesidade + pescoço curto é a assinatura da SAOS. Fique atento: a presença de roncos e apneias presenciadas é o que separa a SAOS das hipersonias centrais.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, monte o raciocínio em duas etapas: (1) identificar o distúrbio do sono pelos sintomas-chave (ronco + engasgo = SAOS; cataplexia = narcolepsia; desconforto nas pernas = SPI; dificuldade de iniciar sono = insônia); (2) lembrar que a SAOS exige polissonografia para diagnóstico e CPAP como tratamento inicial. Essa sequência elimina as alternativas erradas rapidamente.