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Questão de Medicina — Gastroenterologia — FUNDATEC 2025

MedicinaGastroenterologia
Código
qg483374
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Pré-Requisito em Clínica Médica, Cardiologia, Endocrinologia e Metabologia, Hematologia e Hemoterapia
Mulher, 34 anos, previamente saudável, procura atendimento com icterícia, fadiga intensa e dor abdominal leve. Relata náuseas nas últimas semanas. Não usa drogas ilícitas, mas refere uso esporádico de dipirona. Nega transfusões. Ao exame físico, apresenta PA: 112/72 mmHg, FC: 94 bpm, icterícia ++/4+ e fígado palpável a 3 cm do RCD, doloroso.Exames laboratoriais: • AST: 980 U/L. • ALT: 1.120 U/L. • Bilirrubina total: 6,2 mg/dL (direta 4,9). • INR: 1,6. • Sorologias virais: HBsAg negativo, anti-HBc total negativo, anti-HCV negativo, anti-HAV IgM negativo. • FAN: 1:640 (padrão homogêneo). • Anti-LKM1 positivo. • IgG sérica: 2.100 mg/dL (elevada). Considerando as informações apresentadas, qual é o diagnóstico mais provável e a conduta inicial adequada, respectivamente?
  1. AHepatite autoimune – iniciar corticoterapia sistêmica (prednisona), podendo-se associar azatioprina conforme resposta.
  2. BHepatite viral aguda fulminante – iniciar tenofovir EV imediatamente.
  3. CHepatite medicamentosa aguda grave – suspender dipirona e manter apenas medidas de suporte clínico.
  4. DHepatite B aguda anictérica – manter observação ambulatorial expectante.
  5. EHepatite C crônica – iniciar sofosbuvir + velpatasvir precocemente para impedir progressão.
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GabaritoA — Hepatite autoimune – iniciar corticoterapia sistêmica (prednisona), podendo-se associar azatioprina conforme resposta.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Hepatite autoimune: diagnóstico e conduta inicial

Gabarito: letra A. O quadro é de hepatite autoimune (HAI) — mulher jovem, transaminases muito elevadas, hipergamaglobulinemia, FAN positivo e anti-LKM1 positivo, com sorologias virais negativas — e a conduta inicial é a corticoterapia sistêmica (prednisona), podendo-se associar azatioprina conforme a resposta. A base diagnóstica está nos critérios clínicos e sorológicos da doença, e o tratamento de primeira linha é imunossupressor, não antiviral.

A hepatite autoimune é uma doença hepática inflamatória crônica, de causa desconhecida, na qual o sistema imunológico ataca os hepatócitos. Predomina em mulheres jovens (até 40 anos), mas pode ocorrer em qualquer idade e sexo. O quadro clínico é variável: desde formas assintomáticas até hepatite aguda grave ou insuficiência hepática fulminante. Os sintomas mais comuns são fadiga, mal-estar, icterícia, dor abdominal leve e náuseas — exatamente o que a paciente apresenta. Laboratorialmente, chama atenção a elevação acentuada das aminotransferases (AST e ALT), frequentemente acima de 10 vezes o limite superior da normalidade, acompanhada de hiperbilirrubinemia (predomínio da fração direta, como no caso: BT 6,2, BD 4,9) e, em casos mais graves, de coagulopatia (INR elevado, como 1,6).

O diagnóstico é essencialmente clínico-laboratorial, apoiado por marcadores sorológicos e pela exclusão de outras causas de hepatite. Os anticorpos mais característicos são o FAN (fator antinuclear), o anti-músculo liso (SMA) e o anti-LKM1 (anticorpo antimicrossomal de fígado e rim tipo 1). A hipergamaglobulinemia (IgG elevada) é um achado típico e integra os critérios diagnósticos. No caso, a paciente tem FAN 1:640 (padrão homogêneo), anti-LKM1 positivo e IgG de 2.100 mg/dL — um conjunto fortemente sugestivo de HAI tipo 2 (associada ao anti-LKM1, mais comum em mulheres jovens). As sorologias virais negativas (HBsAg, anti-HBc, anti-HCV, anti-HAV IgM) afastam as hepatites virais agudas, e o uso esporádico de dipirona não explica um quadro tão exuberante, embora a hepatite medicamentosa entre no diagnóstico diferencial.

O tratamento de primeira linha da hepatite autoimune é a imunossupressão. O esquema clássico consiste em prednisona isolada ou em combinação com azatioprina. A associação permite reduzir a dose de corticoide e seus efeitos colaterais, sendo particularmente útil em pacientes que não respondem bem ou que apresentam contraindicações ao corticoide em dose plena. A resposta ao tratamento é avaliada pela queda das transaminases e da bilirrubina, melhora clínica e normalização da IgG. Em casos de falha terapêutica ou intolerância, outras opções incluem micofenolato de mofetila, tacrolimo ou, em última instância, transplante hepático.

A grande pegadinha desta questão é a tentação de atribuir o quadro a uma hepatite viral aguda ou à hepatite medicamentosa, já que a paciente refere uso de dipirona e tem transaminases muito elevadas. No entanto, a presença de autoanticorpos (FAN e anti-LKM1) e a hipergamaglobulinemia são decisivas para o diagnóstico de HAI. Além disso, a conduta nas hepatites virais agudas é majoritariamente de suporte, e na hepatite medicamentosa a medida central é suspender o agente causal — não iniciar antiviral ou corticoide. A alternativa correta é a única que une o diagnóstico certo à conduta adequada.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa está correta porque o diagnóstico é hepatite autoimune e a conduta inicial é a corticoterapia sistêmica. A paciente preenche os critérios: sexo feminino, transaminases > 10x o LSN, IgG elevada, FAN positivo e anti-LKM1 positivo, com exclusão de hepatites virais. O tratamento de primeira linha é prednisona, podendo-se associar azatioprina para efeito poupador de corticoide. Essa é a conduta recomendada pelas diretrizes de hepatologia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa está incorreta porque o diagnóstico não é hepatite viral aguda fulminante. As sorologias virais são todas negativas (HBsAg, anti-HBc, anti-HCV, anti-HAV IgM), o que afasta hepatite B, C e A agudas. Além disso, a conduta proposta — tenofovir EV — não é indicada para hepatite viral aguda, que em geral é de suporte. O tenofovir é usado na hepatite B crônica ou em profilaxia, não na hepatite aguda fulminante. A presença de autoanticorpos e hipergamaglobulinemia aponta fortemente para HAI.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa está incorreta porque, embora a hepatite medicamentosa seja um diagnóstico diferencial válido (a paciente usa dipirona), o quadro é muito mais compatível com hepatite autoimune. A dipirona raramente causa hepatite aguda grave com esse padrão, e a presença de FAN 1:640, anti-LKM1 positivo e IgG elevada é típica de HAI. A conduta de apenas suspender a dipirona e dar suporte seria insuficiente — a paciente necessita de imunossupressão. Além disso, a hepatite medicamentosa costuma ter relação temporal clara com o fármaco e não cursa com autoanticorpos nesse padrão.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa está incorreta porque o diagnóstico de hepatite B aguda anictérica é incompatível com os dados. A paciente está ictérica (icterícia ++/4+), tem bilirrubina elevada e HBsAg negativo, o que afasta infecção ativa pelo HBV. Além disso, a conduta de observação ambulatorial expectante seria inadequada para um quadro com INR 1,6 e transaminases > 1000, que sugere hepatite aguda grave. O diagnóstico correto é HAI, que exige tratamento imunossupressor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa está incorreta porque o diagnóstico de hepatite C crônica é afastado pelo anti-HCV negativo. Além disso, a paciente tem um quadro agudo (icterícia, transaminases muito elevadas), não crônico. A conduta de iniciar sofosbuvir + velpatasvir seria prematura e sem indicação, pois o tratamento da hepatite C crônica só se inicia após confirmação de infecção ativa (HCV-RNA positivo) e avaliação de fibrose. A presença de autoanticorpos e hipergamaglobulinemia aponta para HAI, não para hepatite C.

Gabarito: letra A

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