Área de Atuação: Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular
Paciente de 58 anos, obeso, tabagista, com história de varizes de membros inferiores de longa data, apresenta dor, edema e eritema em face medial da perna esquerda. Ao exame, observa-se cordão endurecido e doloroso, além de úlcera superficial no maléolo medial. Em relação ao quadro descrito, assinale a alternativa correta.
AA úlcera venosa ocorre tipicamente junto ao maléolo medial e está relacionada à hipertensão venosa crônica decorrente de insuficiência valvar ou sequelas de TVP.
BA presença de trombose venosa superficial exclui a possibilidade de complicações tromboembólicas, sendo desnecessária investigação complementar.
CO tratamento das varizes e das úlceras venosas é exclusivamente cirúrgico, sendo contraindicada a compressão elástica.
DA trombose venosa superficial nunca se associa à TVP, pois acomete apenas tributárias superficiais.
EO diagnóstico diferencial principal da úlcera venosa é a úlcera arterial, geralmente localizada no maléolo medial e acompanhada de pulsos diminuídos.
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GabaritoA — A úlcera venosa ocorre tipicamente junto ao maléolo medial e está relacionada à hipertensão venosa crônica decorrente de insuficiência valvar ou sequelas de TVP.
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Úlcera venosa e tromboflebite superficial: diagnóstico e conduta
Gabarito: letra A. A úlcera venosa é a manifestação mais grave da doença venosa crônica, localiza-se tipicamente na região do maléolo medial e decorre da hipertensão venosa prolongada, causada por insuficiência valvar ou por sequelas de trombose venosa profunda (TVP). As demais alternativas contêm erros conceituais graves: a tromboflebite superficial NÃO exclui complicações tromboembólicas, o tratamento NÃO é exclusivamente cirúrgico (a compressão elástica é a base), e a trombose superficial PODE se associar à TVP.
A doença venosa crônica (DVC) é um espectro de alterações que vão desde telangiectasias e varizes até as alterações tróficas mais graves, como dermatite ocre, lipodermatoesclerose e úlcera. A fisiopatologia central é a hipertensão venosa: quando as válvulas das veias dos membros inferiores se tornam incompetentes (insuficiência valvar primária) ou quando há obstrução por trombose prévia (síndrome pós-trombótica), o sangue não retorna adequadamente ao coração, aumentando a pressão hidrostática nos segmentos distais. Essa pressão elevada, mantida por anos, leva ao extravasamento de hemácias e proteínas para o interstício, causando a pigmentação ocre (hemossiderina), a fibrose (lipodermatoesclerose) e, finalmente, a quebra da integridade da pele — a úlcera venosa.
A úlcera venosa tem características semiológicas bem definidas: localiza-se preferencialmente na região perimaleolar medial (o "maléolo interno"), é rasa, pouco dolorosa, com bordas irregulares e fundo com tecido de granulação, frequentemente circundada por hiperpigmentação. O diagnóstico diferencial mais importante é com a úlcera arterial (isquêmica), que se localiza em áreas de maior pressão e menor irrigação — dedos, calcâneo e terço distal da perna —, é intensamente dolorosa e está associada a pulsos periféricos diminuídos ou ausentes. A palpação dos pulsos e a medida do índice tornozelo-braquial (ITB) são fundamentais para distinguir as duas condições, pois a presença de componente arterial altera completamente a conduta.
O caso clínico apresentado — paciente obeso, tabagista, com varizes de longa data, dor, edema, eritema e cordão endurecido na face medial da perna — descreve uma tromboflebite superficial (trombose e inflamação de veia superficial) complicando varizes. É essencial lembrar que a tromboflebite superficial NÃO é uma doença benigna inofensiva: cerca de 18% dos pacientes têm TVP associada no momento do diagnóstico, e a trombose pode se estender para o sistema profundo, especialmente se localizada próxima à junção safenofemoral. Por isso, a investigação com ultrassom com Doppler é recomendada, e a anticoagulação pode ser necessária em casos selecionados (extensão ≥ 5 cm, proximidade da junção safenofemoral, presença de fatores de risco).
O tratamento da úlcera venosa e da DVC é multimodal, e a compressão elástica (meias ou bandagens) é a pedra angular — ela reduz a hipertensão venosa, melhora o retorno venoso e promove a cicatrização. O tratamento cirúrgico (cirurgia de varizes, ablação endovenosa) é indicado para corrigir o refluxo, mas não é exclusivo nem substitui a compressão. A alternativa C, ao afirmar que o tratamento é "exclusivamente cirúrgico" e que a compressão é "contraindicada", inverte completamente a prática clínica baseada em evidências.
Guarde a fronteira entre úlcera venosa e arterial (localização, dor, pulsos) e entre tromboflebite superficial e TVP (possibilidade de associação e necessidade de investigação): é exatamente nesses dois eixos que as alternativas se dividem.
Critério
Úlcera Venosa
Úlcera Arterial
Localização típica
Maléolo medial
Dedos, calcâneo, terço distal da perna
Dor
Leve/pouco dolorosa
Intensa
Pulsos periféricos
Presentes
Diminuídos ou ausentes
Bordas
Irregulares
Regulares
Fundo
Tecido de granulação
Pálido
Úlcera venosa
1Localização
Maléolo medial
2Dor
Leve
3Pulsos
Presentes
4Causa
Hipertensão venosa crônica
Insuficiência valvar
Sequelas de TVP
5Úlcera arterial
Localização
Dedos, calcâneo, terço distal
Dor
Intensa
Pulsos
Diminuídos ou ausentes
Causa
Isquemia
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que a úlcera venosa ocorre tipicamente junto ao maléolo medial e está relacionada à hipertensão venosa crônica decorrente de insuficiência valvar ou sequelas de TVP. Isso corresponde exatamente à fisiopatologia e à semiologia descritas: a hipertensão venosa prolongada (por incompetência valvar primária ou por obstrução pós-trombótica) leva às alterações tróficas e à úlcera na região perimaleolar medial, área de maior pressão hidrostática no ortostatismo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A afirmação de que a trombose venosa superficial "exclui a possibilidade de complicações tromboembólicas" é falsa. A tromboflebite superficial pode se estender para o sistema venoso profundo (TVP) e, consequentemente, causar embolia pulmonar. Estudos mostram que cerca de 18% dos pacientes com tromboflebite superficial têm TVP associada no momento do diagnóstico. Portanto, a investigação complementar com ultrassom com Doppler é recomendada, e a anticoagulação pode ser indicada em casos selecionados. A banca explora aqui a falsa noção de que trombose superficial é sempre benigna.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o tratamento das varizes e úlceras venosas é "exclusivamente cirúrgico" e que a compressão elástica é "contraindicada". Na verdade, a terapia compressiva é a base do tratamento conservador da doença venosa crônica e da úlcera venosa, pois reduz a hipertensão venosa e promove a cicatrização. O tratamento cirúrgico é uma opção para corrigir o refluxo venoso, mas não é exclusivo — a abordagem é multimodal, incluindo medidas gerais (elevação dos membros, deambulação), compressão elástica, cuidados com a úlcera e, quando indicado, procedimentos cirúrgicos ou endovenosos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A afirmação de que a trombose venosa superficial "nunca se associa à TVP" é falsa. A tromboflebite superficial pode se estender para o sistema venoso profundo, especialmente quando acomete a veia safena magna próximo à junção safenofemoral ou quando há fatores de risco (obesidade, tabagismo, história de TVP, malignidade). A literatura documenta associação em cerca de 18% dos casos. Portanto, a trombose superficial NÃO é uma entidade isolada e benigna — requer avaliação para excluir TVP associada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o diagnóstico diferencial principal da úlcera venosa é a úlcera arterial "geralmente localizada no maléolo medial". Na verdade, a úlcera arterial (isquêmica) localiza-se em áreas distais de maior pressão e menor irrigação — dedos do pé, calcâneo e terço distal da perna —, e não no maléolo medial, que é a localização típica da úlcera venosa. Além disso, a úlcera arterial é intensamente dolorosa e está associada a pulsos periféricos diminuídos ou ausentes, enquanto a úlcera venosa é pouco dolorosa e os pulsos geralmente estão presentes. A alternativa mistura as características das duas entidades, invertendo a localização típica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre úlcera venosa e arterial. Na alternativa E, ela troca a localização: a úlcera arterial NÃO fica no maléolo medial (essa é a sede da venosa), e sim em dedos, calcâneo e terço distal da perna. Além disso, inverte a característica da dor — a arterial é intensamente dolorosa, a venosa é pouco dolorosa. Fique atento a esses pares: localização × tipo de úlcera e dor × tipo de úlcera.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar úlcera venosa de arterial na prova, monte uma tabela mental com os critérios: localização (venosa: maléolo medial; arterial: dedos/calcâneo/terço distal), dor (venosa: leve; arterial: intensa), pulsos (venosa: presentes; arterial: diminuídos/ausentes), bordas (venosa: irregulares; arterial: regulares) e fundo (venosa: granulação; arterial: pálido). Essa comparação resolve a maioria das questões sobre o tema.