Área de Atuação: Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular
Sobre a arteriosclerose obliterante (oclusão arterial crônica), analise as assertivas a seguir:I. O tabagismo e o diabetes melito são os principais fatores de risco.II. O ITB <0,9 é diagnóstico de doença arterial periférica.III. A dor em repouso geralmente indica isquemia crítica, associada a risco de perda do membro.IV. A revascularização precoce está indicada apenas em pacientes assintomáticos para evitar progressão da doença.V. O exame físico com ausência de pulsos periféricos pode ser suficiente para o diagnóstico e conduta em todos os casos, dispensando a realização de exames complementares.Quais estão corretas?
AApenas I e II.
BApenas IV e V.
CApenas I, II e III.
DApenas I, II, III e V.
EI, II, III, IV e V.
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GabaritoC — Apenas I, II e III.
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Arteriosclerose obliterante: análise de assertivas
Gabarito: letra C. Estão corretas as assertivas I, II e III. O tabagismo e o diabetes melito são, de fato, os principais fatores de risco para a doença arterial obstrutiva periférica; o ITB ≤ 0,9 é o critério diagnóstico hemodinâmico; e a dor em repouso é manifestação de isquemia crítica, com risco de perda do membro. As assertivas IV e V estão incorretas: a revascularização precoce não se limita a pacientes assintomáticos (é indicada em casos de claudicação limitante ou isquemia crítica), e o exame físico, embora importante, não dispensa exames complementares como o ITB e a ultrassonografia com Doppler.
A arteriosclerose obliterante, também chamada de doença arterial obstrutiva periférica (DAOP), é a manifestação da aterosclerose nas artérias dos membros inferiores, levando à redução do lúmen arterial e à isquemia tecidual de grau variável. É uma doença de natureza sistêmica: o paciente com DAOP frequentemente tem acometimento simultâneo dos leitos coronariano e cerebrovascular, o que explica a elevada morbimortalidade cardiovascular desse grupo. Os fatores de risco são os mesmos da aterosclerose em geral — idade, tabagismo, diabetes, dislipidemias, hipertensão arterial sistêmica e hiper-homocisteinemia —, mas o tabagismo e o diabetes merecem destaque como os mais importantes para o desenvolvimento da doença sintomática.
O diagnóstico é fundamentalmente clínico e complementado pelo índice tornozelo-braquial (ITB), que compara a pressão sistólica no tornozelo com a do braço. Um ITB ≤ 0,9, mesmo em paciente assintomático, já indica a presença de estenose arterial significativa (sensibilidade de 79% e especificidade de 96% para estenoses > 50%) e é utilizado como definição hemodinâmica da doença. É importante lembrar que pacientes com diabetes de longa data, insuficiência renal crônica e idosos com artérias muito calcificadas podem apresentar ITB falsamente elevado por artérias incompressíveis, exigindo métodos alternativos como o índice hálux-braquial (IHB), as pressões segmentares ou a ultrassonografia com Doppler.
A apresentação clínica varia conforme a gravidade da isquemia. A claudicação intermitente é o sintoma clássico, caracterizada por dor muscular desencadeada pelo exercício e aliviada pelo repouso. Quando a doença progride, surge a dor em repouso, geralmente distal (dedos e antepé), que piora com o membro elevado e melhora com a pendência — esse quadro define a isquemia crítica, que ameaça a viabilidade do membro e exige avaliação para revascularização. O tratamento envolve controle rigoroso dos fatores de risco (cessação do tabagismo, estatina, controle glicêmico e pressórico), antiagregação plaquetária, exercício supervisionado e, nos casos de claudicação limitante ou isquemia crítica, revascularização cirúrgica ou endovascular.
A banca explora aqui a confusão entre os diferentes estágios da doença e as indicações de tratamento. A pegadinha central está na assertiva IV: a revascularização não é indicada apenas para assintomáticos — muito pelo contrário, é reservada para os sintomáticos com limitação funcional ou isquemia crítica. E na assertiva V, a tentativa é fazer o candidato acreditar que o exame físico basta, quando na verdade os exames complementares são essenciais para confirmar o diagnóstico e guiar a conduta. Guarde a progressão clínica (assintomático → claudicação → dor em repouso → lesão trófica) e o papel do ITB: é exatamente nesses pontos que as assertivas se dividem.
Item I — ✅ Correto
O tabagismo e o diabetes melito são, de fato, os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença arterial periférica sintomática. O tabaco provoca vasospasmo e acelera a aterogênese, enquanto o diabetes associa-se a doença mais distal e difusa, com maior risco de complicações. Embora outros fatores (idade, dislipidemia, hipertensão) também contribuam, a literatura é clara ao destacar esses dois como os mais importantes.
Item II — ✅ Correto
O ITB ≤ 0,9 é o critério diagnóstico de doença arterial periférica. O índice é calculado pela razão entre a pressão sistólica mais alta do tornozelo e a mais alta do braço. Um valor ≤ 0,9, mesmo em paciente assintomático, indica estenose arterial significativa e define hemodinamicamente a doença. Ressalva importante: em artérias muito calcificadas (diabéticos, renais crônicos, idosos), o ITB pode ser falsamente elevado, exigindo métodos alternativos como o IHB.
Item III — ✅ Correto
A dor em repouso é uma manifestação de isquemia crítica, que representa o estágio mais avançado da doença e está associada a risco iminente de perda do membro. Nessa fase, o fluxo sanguíneo é insuficiente até para as necessidades basais do tecido em repouso, levando a dor distal, que piora com a elevação do membro e melhora com a pendência. A isquemia crítica é indicação formal de avaliação para revascularização.
Item IV — ❌ Incorreto
A assertiva inverte completamente a indicação da revascularização. Ela não é indicada "apenas em pacientes assintomáticos" — muito pelo contrário: pacientes assintomáticos são tratados clinicamente com controle de fatores de risco e antiagregação. A revascularização (cirúrgica ou endovascular) é reservada para pacientes sintomáticos com claudicação intermitente limitante ou isquemia crítica, quando o tratamento clínico não é suficiente. A frase "para evitar progressão da doença" também é equivocada, pois a revascularização trata a isquemia já instalada, não previne a progressão da aterosclerose.
Item V — ❌ Incorreto
O exame físico com ausência de pulsos periféricos é um dado importante e sugestivo, mas não é suficiente para diagnóstico e conduta em todos os casos. A avaliação objetiva com ITB é essencial para confirmar o diagnóstico e quantificar a gravidade, e exames de imagem como a ultrassonografia com Doppler são frequentemente necessários para planejar a revascularização. Além disso, em alguns pacientes (obesos, edemaciados), a palpação dos pulsos pode ser difícil, e a ausência de pulsos não é um achado exclusivo da DAOP. A afirmativa "dispensando a realização de exames complementares" é tecnicamente incorreta e perigosa na prática clínica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter as indicações de tratamento e supervalorizar o exame físico. Na assertiva IV, a pegadinha é clássica: o candidato pode ler "revascularização precoce" e pensar que é para todos, mas o texto diz "apenas em assintomáticos" — exatamente o oposto da prática. Na assertiva V, a armadilha é acreditar que o exame físico é suficiente, quando o ITB e os exames de imagem são indispensáveis. Fique atento a esses padrões: quando a assertiva traz "apenas", "todos" ou "dispensando", desconfie — a regra quase sempre comporta exceções e nuances.
Conclusão: Corretas apenas as assertivas I, II e III → Gabarito: letra C.