Questão de Medicina — Endocrinologia — FUNDATEC 2025
Medicina›Endocrinologia
Código
qg483486
Banca
FUNDATEC
Órgão
SES-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Área de Atuação: Endocrinologia e Metabologia Pediátrica
Sobre o acompanhamento endócrino de pessoas com incongruência de gênero em uso de terapia hormonal de redesignação, é correto afirmar que:
AO uso de bloqueadores de puberdade (análogos de GnRH) em adolescentes é contraindicado devido ao risco de infertilidade definitiva.
BA via transdérmica de estrogênio é preferida em mulheres trans com fatores de risco cardiovascular, por apresentar menor risco tromboembólico que a via oral.
CHomens trans devem manter testosterona persistentemente acima do limite superior da faixa de referência para homens cis.
DA suspensão abrupta da terapia hormonal cruzada em adultos não implica risco clínico relevante.
EO seguimento clínico pode prescindir da avaliação de parâmetros metabólicos, como perfil lipídico e glicemia, uma vez que não há impacto da terapia hormonal nesses desfechos.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoB — A via transdérmica de estrogênio é preferida em mulheres trans com fatores de risco cardiovascular, por apresentar menor risco tromboembólico que a via oral.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Terapia hormonal de afirmação de gênero: princípios do acompanhamento
Gabarito: letra B. A via transdérmica de estrogênio é preferida em mulheres trans com fatores de risco cardiovascular por apresentar menor risco de eventos tromboembólicos quando comparada à via oral, pois evita o efeito de primeira passagem hepática e a exposição a estrógenos sintéticos como o etinilestradiol. As demais alternativas contrariam diretrizes de acompanhamento endócrino: bloqueadores de puberdade não causam infertilidade definitiva, a testosterona em homens trans deve ser mantida em níveis fisiológicos (não supranormais), a suspensão abrupta da terapia hormonal cruzada tem riscos clínicos, e o seguimento exige avaliação metabólica regular.
A terapia hormonal de afirmação de gênero (também chamada de terapia hormonal cruzada) é o uso de hormônios sexuais para alinhar as características físicas de uma pessoa trans ou não binária à sua identidade de gênero. Em mulheres trans (pessoas designadas masculinas ao nascer que se identificam como mulheres), utiliza-se estrogênio, frequentemente associado a antiandrógenos ou análogos de GnRH; em homens trans (pessoas designadas femininas ao nascer que se identificam como homens), utiliza-se testosterona. O objetivo é atingir níveis hormonais dentro da faixa de referência do gênero afirmado, não supranormais.
A escolha da via de administração do estrogênio é uma decisão clínica central. O estrogênio oral (especialmente o etinilestradiol, presente em anticoncepcionais) sofre metabolismo hepático de primeira passagem, o que aumenta a produção de fatores de coagulação e eleva o risco de trombose venosa profunda, tromboembolismo pulmonar e eventos cardiovasculares. Por isso, as diretrizes recomendam evitar estrógenos sintéticos e preferir estradiol natural (17-beta-estradiol) por vias que evitem a primeira passagem hepática, como a transdérmica (adesivos ou gel) e a parenteral. Em pacientes com fatores de risco cardiovascular (tabagismo, obesidade, hipertensão, diabetes, história prévia de trombose), a via transdérmica é particularmente preferida por apresentar menor risco tromboembólico.
O acompanhamento clínico não se limita à prescrição hormonal. É obrigatória a avaliação periódica de parâmetros metabólicos — perfil lipídico, glicemia de jejum, função hepática, prolactina (em uso de estrogênio) e densidade mineral óssea (em uso prolongado de bloqueadores de GnRH ou após gonadectomia sem reposição adequada) — pois a terapia hormonal impacta diretamente esses desfechos. A testosterona, por exemplo, eleva LDL e reduz HDL, embora não tenha demonstrado aumento de eventos cardiovasculares; o estrogênio oral pode elevar triglicerídeos e alterar a glicemia. A suspensão abrupta da terapia hormonal cruzada pode causar sintomas de privação hormonal (fogachos, alterações de humor, fadiga) e, em casos de gonadectomia prévia, risco de osteoporose por deficiência estrogênica/androgênica aguda.
Nos adolescentes, os bloqueadores de puberdade (análogos de GnRH) são utilizados para suprimir a puberdade endógena e ganhar tempo para a decisão sobre a terapia hormonal definitiva. Seu uso é reversível: ao suspender o bloqueador, a puberdade retoma seu curso. A preocupação com a fertilidade existe, mas não se trata de infertilidade definitiva — a reversibilidade é a regra, e a preservação de gametas pode ser discutida antes do início. A alternativa A, portanto, erra ao afirmar contraindicação por risco de infertilidade definitiva.
A pegadinha central desta questão é a inversão de conceitos: a banca troca a via transdérmica pela oral (que é a de maior risco), afirma níveis supranormais de testosterona (quando o correto é níveis fisiológicos), e nega a necessidade de monitoramento metabólico (quando ele é essencial). Guarde o princípio: menor risco tromboembólico com via transdérmica, níveis hormonais fisiológicos, monitoramento metabólico obrigatório e reversibilidade dos bloqueadores de puberdade — é exatamente nesses quatro pontos que as alternativas se dividem.
Afirmação
Correto?
Justificativa
Bloqueadores de puberdade causam infertilidade definitiva
❌
O bloqueio é reversível; a puberdade retoma ao suspender o análogo de GnRH.
Via transdérmica de estrogênio é preferida em risco cardiovascular
✅
Evita primeira passagem hepática, com menor risco tromboembólico que a via oral.
Testosterona em homens trans deve ficar acima do limite superior
❌
Deve ser mantida em níveis fisiológicos (não supranormais).
Suspensão abrupta da terapia hormonal não tem risco clínico
❌
Pode causar sintomas de privação e, pós-gonadectomia, risco de osteoporose.
Seguimento pode prescindir de avaliação metabólica
❌
Monitoramento de lipídios, glicemia e função hepática é obrigatório.
Terapia hormonal de afirmação de gênero
1Estrogênio (mulheres trans)
Via transdérmica
Menor risco tromboembólico
Via oral
Efeito de 1ª passagem hepática
Maior risco de trombose
2Testosterona (homens trans)
Nível fisiológico (300–1000 ng/dL)
Nível supranormal (policitemia, dislipidemia)
3Bloqueadores de puberdade (adolescentes)
Reversíveis
Infertilidade definitiva (mito)
4Monitoramento obrigatório
Perfil lipídico
Glicemia
Função hepática
Prolactina
Densidade óssea
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que os bloqueadores de puberdade (análogos de GnRH) são contraindicados em adolescentes devido ao risco de infertilidade definitiva. O erro está em "definitiva": o bloqueio puberal com análogos de GnRH é reversível — ao suspender o medicamento, a puberdade retoma seu curso natural. A preocupação com fertilidade existe e deve ser discutida (com possibilidade de preservação de gametas antes do início), mas não contraindica o uso. A alternativa inverte o caráter transitório do bloqueio.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A via transdérmica de estrogênio é preferida em mulheres trans com fatores de risco cardiovascular por apresentar menor risco tromboembólico que a via oral. Isso ocorre porque a via oral (especialmente com etinilestradiol) sofre efeito de primeira passagem hepática, aumentando a produção de fatores de coagulação e o risco de trombose. A via transdérmica (adesivos ou gel) evita esse efeito, sendo mais segura em pacientes com risco cardiovascular. A alternativa espelha corretamente a recomendação das diretrizes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que homens trans devem manter testosterona persistentemente acima do limite superior da faixa de referência para homens cis. O correto é manter a testosterona dentro da faixa fisiológica para homens cis (geralmente entre 300 e 1000 ng/dL), não supranormal. Níveis excessivos aumentam o risco de efeitos adversos (policitemia, alterações lipídicas, eventos cardiovasculares) sem benefício adicional na virilização. A alternativa erra ao sugerir níveis acima do limite superior.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a suspensão abrupta da terapia hormonal cruzada em adultos não implica risco clínico relevante. Isso é falso: a suspensão abrupta pode causar sintomas de privação hormonal (fogachos, alterações de humor, fadiga, insônia) e, em pacientes com gonadectomia prévia (orquiectomia ou ooforectomia), risco de osteoporose por deficiência hormonal aguda. A suspensão deve ser gradual e planejada, com acompanhamento clínico. A alternativa subestima os riscos da interrupção.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o seguimento clínico pode prescindir da avaliação de parâmetros metabólicos (perfil lipídico, glicemia) porque a terapia hormonal não impacta esses desfechos. Isso é falso: a terapia hormonal cruzada impacta diretamente o perfil lipídico (a testosterona eleva LDL e reduz HDL; o estrogênio oral pode elevar triglicerídeos), a glicemia e a função hepática. O monitoramento metabólico periódico é obrigatório no acompanhamento, assim como a avaliação de prolactina e densidade óssea quando indicado. A alternativa nega uma recomendação essencial de segurança.
NÃO CAIA NESSA!
A banca inverte conceitos-chave da terapia hormonal de afirmação de gênero: troca a via transdérmica (menor risco) pela oral (maior risco), afirma níveis supranormais de testosterona (quando o correto é fisiológico), nega o monitoramento metabólico (que é obrigatório) e trata o bloqueio puberal como definitivo (quando é reversível). Na prova, desconfie de alternativas com "definitiva", "acima do limite", "sem risco" e "prescindir" — são gatilhos clássicos de erro.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar, monte um quadro mental com os quatro pilares do acompanhamento: (1) via transdérmica de estrogênio = menor risco tromboembólico; (2) níveis hormonais fisiológicos (não supranormais); (3) monitoramento metabólico obrigatório (lipídios, glicemia, função hepática); (4) bloqueadores de puberdade = reversíveis, com discussão sobre fertilidade. Se uma alternativa contrariar qualquer um desses pilares, ela está errada.