Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FUNDATEC 2025
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
qg483765
Banca
FUNDATEC
Órgão
UFRGS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico/Área: Clínica Médica
Um homem de 36 anos procura atendimento relatando febre, odinofagia, linfadenopatia generalizada e exantema maculopapular difuso há 10 dias. Refere múltiplos parceiros sexuais nos últimos meses e uso inconsistente de preservativo. Exames laboratoriais iniciais mostram linfopenia relativa, AST/ALT discretamente elevadas e sorologia HIV-1 negativa pelo teste rápido. Considerando a história clínica e o estágio da doença, qual é a conduta diagnóstica e terapêutica mais apropriada?
ARepetir o teste rápido para HIV imediatamente e iniciar terapia antirretroviral (TARV) apenas se o teste se tornar positivo.
BIniciar profilaxia para HIV (PEP) por 28 dias, aguardando confirmação sorológica para decidir sobre TARV.
CTratar apenas os sintomas (antitérmico, analgésico) e recomendar reteste sorológico em 3 semanas, sem iniciar qualquer medicação antiviral.
DSolicitar testes apenas para outras DSTs (sífilis, gonorreia, clamídia), pois o HIV inicial geralmente é assintomático e não justifica investigação específica neste quadro.
ESolicitar teste de HIV por antígeno p24 e RNA viral (PCR), indicando infecção aguda, e iniciar TARV imediatamente, independentemente da positividade sorológica convencional.
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GabaritoE — Solicitar teste de HIV por antígeno p24 e RNA viral (PCR), indicando infecção aguda, e iniciar TARV imediatamente, independentemente da positividade sorológica convencional.
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Síndrome Retroviral Aguda (Infecção Aguda pelo HIV)
Gabarito: letra E. O quadro clínico descrito — febre, odinofagia, linfadenopatia generalizada, exantema maculopapular e linfopenia relativa — é altamente sugestivo de síndrome retroviral aguda (infecção primária pelo HIV), fase em que a sorologia convencional (teste rápido) pode ser negativa devido à janela imunológica. A conduta correta é solicitar teste de antígeno p24 e RNA viral (carga viral) para confirmar o diagnóstico e iniciar a terapia antirretroviral (TARV) imediatamente, independentemente do resultado da sorologia convencional, conforme as diretrizes do Ministério da Saúde.
A infecção aguda pelo HIV é o período que compreende as primeiras semanas após a exposição ao vírus, antes da soroconversão completa. Durante essa fase, o vírus se replica intensamente, e o sistema imunológico ainda não produziu anticorpos detectáveis pelos testes convencionais (testes rápidos ou ELISA de 3ª geração). Por isso, a sorologia pode ser negativa, mas o paciente já apresenta alta carga viral e é altamente transmissível. O diagnóstico nessa fase é feito pela detecção direta do vírus ou de seus componentes: o antígeno p24 (proteína do capsídeo viral) e o RNA viral (carga viral por PCR).
A importância do diagnóstico precoce na infecção aguda é dupla: individual e coletiva. Individualmente, o início imediato da TARV nessa fase reduz o reservatório viral, preserva a função imunológica e diminui a morbimortalidade a longo prazo. Coletivamente, o tratamento precoce reduz a transmissão do HIV, pois a carga viral é o principal determinante da transmissibilidade. As diretrizes atuais recomendam tratar todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente da contagem de CD4, e essa recomendação se aplica com ainda mais ênfase na infecção aguda, dado o alto risco de transmissão.
O quadro clínico da síndrome retroviral aguda é inespecífico e mimetiza outras infecções virais, como mononucleose, dengue, influenza e toxoplasmose. Os sintomas mais comuns incluem febre, fadiga, mialgia, cefaleia, odinofagia, linfadenopatia, exantema maculopapular (geralmente troncular) e, menos frequentemente, úlceras orais ou genitais. A linfopenia relativa e as transaminases discretamente elevadas são achados laboratoriais que reforçam a suspeita. A presença desses sintomas em um paciente com história de exposição de risco (múltiplos parceiros, sexo desprotegido) deve sempre levantar a suspeita de infecção aguda pelo HIV.
A conduta correta, portanto, não é repetir o teste rápido imediatamente (que permanecerá negativo na janela imunológica), nem iniciar profilaxia pós-exposição (PEP), que é indicada apenas para exposições recentes (até 72 horas) em pessoas sem infecção estabelecida. Também não é correto apenas tratar os sintomas e aguardar, pois isso perde a oportunidade de intervenção precoce e aumenta o risco de transmissão. A alternativa D é completamente equivocada, pois o HIV agudo é sintomático e exige investigação específica.
A pegadinha central desta questão é a janela imunológica: o candidato pode pensar que, com teste rápido negativo, o paciente não tem HIV e que a conduta seria apenas repetir o teste ou iniciar PEP. No entanto, o quadro clínico é clássico de infecção aguda, e a conduta é investigar com métodos diretos e tratar imediatamente. Guarde este conceito: na suspeita de infecção aguda pelo HIV, a sorologia negativa não exclui o diagnóstico — é necessário solicitar p24 e carga viral.
1Suspeita clínica (sintomas + risco)
2Sorologia pode ser negativa (janela)
3Solicitar p24 e RNA viral
4[+] Iniciar TARV imediatamente
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Repetir o teste rápido imediatamente é inútil, pois o paciente está na janela imunológica e o teste permanecerá negativo. A conduta correta é solicitar métodos diretos (p24 e RNA viral). Além disso, iniciar TARV apenas se o teste se tornar positivo atrasa o tratamento, que deve ser iniciado imediatamente após a confirmação da infecção aguda.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A PEP é indicada para exposição recente (até 72 horas) em pessoas sem infecção estabelecida. Neste caso, o paciente já apresenta sintomas há 10 dias, o que indica infecção aguda estabelecida, não uma exposição recente. A PEP não é o tratamento para a infecção aguda; o correto é diagnosticar e iniciar TARV.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Tratar apenas os sintomas e recomendar reteste em 3 semanas é uma conduta passiva que perde a oportunidade de intervenção precoce. O paciente tem alta carga viral e é altamente transmissível; o tratamento imediato é essencial para reduzir a transmissão e melhorar o prognóstico. Além disso, o reteste em 3 semanas pode não ser suficiente para a soroconversão completa, e o diagnóstico deve ser feito imediatamente com métodos diretos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirmar que o HIV inicial é assintomático é um erro grave. A síndrome retroviral aguda é sintomática em cerca de 50-90% dos casos, com o quadro clássico descrito no enunciado. A investigação específica para HIV é absolutamente necessária, e não apenas para outras DSTs. Embora a triagem para outras ISTs seja importante, ela não substitui a investigação do HIV.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a conduta correta. O quadro clínico é sugestivo de infecção aguda pelo HIV, e a sorologia negativa não exclui o diagnóstico. A solicitação de antígeno p24 e RNA viral (PCR) é o método diagnóstico adequado nessa fase, pois detecta o vírus diretamente. O início imediato da TARV é recomendado para todas as pessoas com HIV, independentemente da contagem de CD4, e é ainda mais importante na infecção aguda para reduzir o reservatório viral, preservar a imunidade e diminuir a transmissão.