Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2025
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
qg483769
Banca
FUNDATEC
Órgão
UFRGS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico/Área: Clínica Médica
Uma paciente de 28 anos, com diagnóstico de Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) há 6 anos, apresenta nefrite lúpica classe IV previamente tratada com ciclofosfamida e atualmente em uso de prednisona 10 mg/dia, azatioprina 150 mg/dia e hidroxicloroquina 400 mg/dia. Relata fadiga intensa, fraqueza muscular proximal e urina escurecida há 3 dias. Ao exame, apresenta icterícia discreta, hepatomegalia leve e força grau IV nos membros inferiores. Exames laboratoriais mostram: AST 265 U/L, ALT 310 U/L, bilirrubina total 2,4 mg/dL, CK 1.850 U/L, DHL 1.020 U/L. Considerando os princípios de farmacologia clínica, uso racional de medicamentos e potenciais toxicidades cumulativas em pacientes com LES, qual das hipóteses abaixo explica melhor o quadro?
AToxicidade hepática induzida pela azatioprina, decorrente da metabolização via tiopurina metiltransferase (TPMT), com elevação de transaminases e bilirrubina.
BRabdomiólise associada ao uso de hidroxicloroquina, precipitada por interação com corticoide em uso crônico, justificando a elevação de CK e DHL.
CHepatotoxicidade aguda induzida pela hidroxicloroquina por efeito dose-dependente, frequentemente associada à icterícia e rabdomiólise concomitante.
DMiopatia induzida por corticoide, caracterizada por fraqueza proximal e aumento significativo de CK e DHL, com hepatotoxicidade secundária por lesão muscular.
EReativação lúpica com comprometimento muscular e hepático simultâneo, configurando síndrome de overlap entre atividade autoimune e dano orgânico por fármacos.
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GabaritoA — Toxicidade hepática induzida pela azatioprina, decorrente da metabolização via tiopurina metiltransferase (TPMT), com elevação de transaminases e bilirrubina.
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Toxicidade de fármacos no LES: azatioprina e hepatotoxicidade
Gabarito: letra A. O quadro é de hepatotoxicidade induzida pela azatioprina, imunossupressor metabolizado pela enzima tiopurina metiltransferase (TPMT), cuja toxicidade hepática se manifesta com elevação de transaminases (AST 265, ALT 310) e bilirrubina (2,4 mg/dL), acompanhada de icterícia e hepatomegalia — exatamente o perfil laboratorial e clínico descrito. As demais alternativas confundem o mecanismo: a hidroxicloroquina não causa hepatotoxicidade aguda nem rabdomiólise típica, e a miopatia por corticoide cursa com CK normal ou discretamente elevada, não com valores de 1.850 U/L.
A azatioprina é um pró-fármaco da 6-mercaptopurina, convertida em metabólitos ativos (tioguaninas) que inibem a síntese de purinas e a proliferação de linfócitos. A enzima TPMT é responsável por inativar parte da droga; pacientes com atividade reduzida da TPMT acumulam metabólitos tóxicos, aumentando o risco de mielossupressão e hepatotoxicidade. A lesão hepática pode ser colestática, hepatocelular ou mista, e se apresenta com icterícia, hepatomegalia e elevação de transaminases e bilirrubina — o que casa perfeitamente com o caso. A paciente usa 150 mg/dia, dose dentro da faixa terapêutica (até 3 mg/kg/dia), mas a toxicidade pode ocorrer mesmo em doses habituais, especialmente em pacientes com polimorfismos da TPMT ou em uso concomitante de outros hepatotóxicos.
A hidroxicloroquina, por sua vez, tem toxicidade crônica bem documentada, mas o alvo principal é a retina (retinopatia por depósito do fármaco no epitélio pigmentar), e não o fígado. A hepatotoxicidade por hidroxicloroquina é raríssima e não se apresenta com o padrão agudo descrito. A rabdomiólise também não é efeito adverso típico da hidroxicloroquina — a miopatia por antimaláricos é rara e geralmente associada a uso prolongado em altas doses, com CK normal ou levemente elevada. Já a miopatia por corticoide (alternativa D) é uma complicação clássica do uso crônico de glicocorticoides, mas se caracteriza por fraqueza proximal insidiosa com CK normal ou discretamente elevada — nunca com CK de 1.850 U/L e DHL de 1.020 U/L, que indicam lesão muscular aguda e extensa, típica de rabdomiólise ou miosite inflamatória.
A alternativa E (reativação lúpica) é tentadora, pois o LES pode cursar com miosite e hepatite autoimune. Porém, a paciente está em uso de três imunossupressores (prednisona, azatioprina e hidroxicloroquina) em doses adequadas, o que torna a reativação menos provável. Além disso, a elevação de CK e DHL com fraqueza proximal e urina escurecida sugere fortemente rabdomiólise, que não é manifestação típica de atividade lúpica isolada. A combinação de hepatotoxicidade (transaminases e bilirrubina elevadas) com rabdomiólise (CK e DHL elevados) pode ocorrer em quadros virais, tóxicos ou autoimunes, mas a alternativa A explica o componente hepático de forma mais específica e plausível, sendo a resposta mais correta entre as opções.
A pegadinha central desta questão é a associação automática entre fraqueza proximal e miopatia por corticoide (alternativa D), que é um distrator clássico em pacientes com LES em uso crônico de prednisona. O candidato que não conhece o perfil laboratorial da miopatia esteroide (CK normal ou pouco elevada) cai na armadilha. Da mesma forma, a alternativa B tenta atribuir à hidroxicloroquina um efeito que ela não tem, e a C mistura dois conceitos (hepatotoxicidade e rabdomiólise) sem fundamento farmacológico. A chave é correlacionar o padrão laboratorial com o mecanismo de toxicidade de cada fármaco.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre fraqueza proximal e corticoide. Na miopatia por esteroide, a CK costuma estar normal ou discretamente elevada — valores de 1.850 U/L indicam lesão muscular aguda e extensa, incompatível com o mecanismo da miopatia esteroide. Além disso, a hidroxicloroquina não causa hepatotoxicidade aguda nem rabdomiólise; sua toxicidade clássica é a retinopatia. Guarde: CK muito elevada + fraqueza proximal = rabdomiólise/miosite, não miopatia por corticoide.
Possível, mas menos provável com 3 imunossupressores
CK/DHL
Pode haver rabdomiólise concomitante
CK não se eleva tipicamente
CK normal ou pouco elevada (incompatível com 1.850 U/L)
CK elevada (miosite), mas quadro atípico
Plausibilidade no caso
✅ Explica o quadro hepático e o laboratorial
❌ Não explica o quadro
❌ CK incompatível
❌ Menos provável (imunossupressão tripla)
Azatioprina (pró-fármaco da 6-MP)
1Metabolização
TPMT inativa
Tioguaninas ativas
2Toxicidade (TPMT reduzida)
Mielossupressão
Hepatotoxicidade
Colestática
Hepatocelular
Mista
3Quadro clínico
Icterícia
Hepatomegalia
↑ AST/ALT/bilirrubina
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A azatioprina é metabolizada pela TPMT, e a deficiência dessa enzima (congênita ou adquirida) leva ao acúmulo de metabólitos tóxicos (6-tioguaninas), causando hepatotoxicidade. O quadro clínico-laboratorial — icterícia, hepatomegalia, AST 265, ALT 310, bilirrubina total 2,4 mg/dL — é compatível com lesão hepática induzida pela droga. A elevação de CK e DHL pode ser explicada por rabdomiólise concomitante, que também pode ser desencadeada por azatioprina (embora menos comum), ou por outra causa associada. A alternativa está correta ao apontar o mecanismo via TPMT e o padrão de elevação de transaminases e bilirrubina.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A hidroxicloroquina não causa rabdomiólise de forma típica, e não há interação farmacológica conhecida com corticoide que precipite esse quadro. A toxicidade muscular por antimaláricos é rara e geralmente se manifesta como miopatia crônica com CK normal ou levemente elevada, não com CK de 1.850 U/L. A alternativa erra ao atribuir à hidroxicloroquina um efeito que não é característico e ao inventar uma interação com corticoide sem respaldo farmacológico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A hidroxicloroquina não é hepatotóxica de forma aguda e dose-dependente. Sua toxicidade hepática é raríssima e não se apresenta com o padrão agudo de icterícia e rabdomiólise descrito. A alternativa mistura dois conceitos (hepatotoxicidade e rabdomiólise) sem fundamento: a hidroxicloroquina não causa rabdomiólise típica, e a hepatotoxicidade aguda não é um efeito adverso reconhecido do fármaco. O perfil de toxicidade da hidroxicloroquina é crônico e concentra-se na retina (retinopatia), além de efeitos gastrointestinais e cutâneos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A miopatia por corticoide é uma complicação real do uso crônico de glicocorticoides, mas se caracteriza por fraqueza proximal insidiosa com CK normal ou discretamente elevada. O valor de CK de 1.850 U/L é incompatível com esse mecanismo — indica lesão muscular aguda e extensa, típica de rabdomiólise ou miosite inflamatória. Além disso, a alternativa atribui a hepatotoxicidade a uma "lesão muscular secundária", o que não explica a elevação de transaminases e bilirrubina de forma adequada. A miopatia esteroide não causa hepatotoxicidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A reativação lúpica com comprometimento muscular e hepático simultâneo é uma hipótese possível, mas menos provável diante do uso de três imunossupressores em doses adequadas. A elevação de CK e DHL com fraqueza proximal e urina escurecida sugere rabdomiólise, que não é manifestação típica de atividade lúpica isolada. Além disso, a alternativa é genérica e não aponta um mecanismo específico, enquanto a alternativa A oferece uma explicação farmacológica mais precisa e plausível para o quadro hepático. A reativação lúpica poderia causar miosite (com CK elevada) e hepatite, mas o padrão apresentado é mais compatível com toxicidade medicamentosa.