Questão de Medicina — Envenenamentos e Acidentes — FUNDATEC 2025
Medicina›Envenenamentos e Acidentes
Código
qg484304
Banca
FUNDATEC
Órgão
UFRGS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico/Área: Psiquiatria
Homem, 29 anos, dá entrada em um pronto atendimento por quadro caracterizado por confusão mental, dor no peito, náusea, vômitos, tremores e paranoia. Ao exame físico, os achados são os seguintes: temperatura de 39 ºC, frequência cardíaca de 145 bpm, sudorese profusa, PA de 190/105 mmHg e pupilas dilatadas. Qual seria o diagnóstico provável para o caso em questão?
AIntoxicação por Cannabis.
BSíndrome de abstinência de nicotina.
CIntoxicação por álcool.
DIntoxicação por cocaína.
ESíndrome de abstinência por cocaína.
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GabaritoD — Intoxicação por cocaína.
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Intoxicação por cocaína: quadro simpaticomimético
Gabarito: letra D. O quadro clínico descrito — confusão mental, dor torácica, náuseas, vômitos, tremores, paranoia, hipertermia (39 ºC), taquicardia (145 bpm), sudorese profusa, hipertensão arterial (190/105 mmHg) e midríase — é o protótipo da síndrome simpaticomimética aguda, classicamente associada à intoxicação por cocaína. A cocaína bloqueia a recaptação de dopamina, noradrenalina e serotonina na fenda sináptica, gerando excesso de estimulação adrenérgica que explica todos os achados do paciente.
A intoxicação por cocaína é uma emergência médica frequente, caracterizada por um estado de hiperestimulação do sistema nervoso simpático. O mecanismo central é o bloqueio dos transportadores de monoaminas (dopamina, noradrenalina e serotonina), o que aumenta a concentração desses neurotransmissores na fenda sináptica. O resultado é uma cascata de efeitos: taquicardia, hipertensão, hipertermia, midríase, sudorese, agitação psicomotora, delirium e, nos casos graves, convulsões, arritmias, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e hipertermia maligna. A apresentação clínica é tão característica que, na prática de emergência, o reconhecimento do padrão simpaticomimético direciona o diagnóstico e o tratamento imediato, que envolve benzodiazepínicos como primeira linha, resfriamento agressivo e controle hemodinâmico.
Para diferenciar as intoxicações por substâncias de abuso, é essencial conhecer os padrões sindrômicos. A intoxicação por cocaína e por anfetaminas produz o quadro simpaticomimético (estimulante). A intoxicação por álcool e benzodiazepínicos produz depressão do sistema nervoso central, com sonolência, fala arrastada, ataxia e, em altas doses, coma e depressão respiratória. A intoxicação por opioides causa miose puntiforme, bradipneia e rebaixamento do nível de consciência. A intoxicação por cannabis pode causar ansiedade, taquicardia e hiperemia conjuntival, mas raramente produz o quadro grave de hipertermia, hipertensão e paranoia descrito. Já as síndromes de abstinência têm apresentações distintas: a abstinência de álcool pode cursar com taquicardia, hipertensão, tremores e delirium, mas o quadro costuma evoluir horas após a última ingestão e não apresenta midríase tão proeminente; a abstinência de cocaína, por sua vez, é caracterizada por depressão, letargia, hipersonia e craving, sem os sinais autonômicos hiperativos descritos.
A pegadinha central desta questão está na alternativa E: a banca tenta confundir o candidato com a "síndrome de abstinência por cocaína", que tem quadro clínico oposto ao da intoxicação. Enquanto a intoxicação aguda por cocaína gera hiperestimulação simpática (taquicardia, hipertensão, hipertermia, midríase, agitação), a abstinência de cocaína cursa com quadro depressivo: fadiga, hipersonia, aumento do apetite, anedonia e desejo intenso pela droga (craving), sem os sinais autonômicos hiperativos. O paciente do enunciado apresenta exatamente o oposto da abstinência — está com o sistema simpático em franca hiperatividade.
Guarde o critério decisivo: sinais autonômicos hiperativos (taquicardia, hipertensão, hipertermia, midríase, sudorese) + alterações psiquiátricas (paranoia, confusão) = síndrome simpaticomimética = intoxicação por estimulante (cocaína). É esse padrão que separa a alternativa correta das demais.
A intoxicação por cannabis pode causar taquicardia, ansiedade e hiperemia conjuntival, mas não produz o quadro simpaticomimético grave descrito. A maconha tende a causar efeitos mais brandos, como euforia, relaxamento, aumento do apetite e, em altas doses, ansiedade e paranoia, porém sem hipertermia significativa, hipertensão arterial importante ou midríase proeminente. O quadro do paciente é de estimulação adrenérgica intensa, incompatível com o perfil da cannabis.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A síndrome de abstinência de nicotina é caracterizada por irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, aumento do apetite e desejo intenso de fumar. Não cursa com hipertermia, hipertensão arterial grave, taquicardia extrema (145 bpm) ou midríase. O quadro descrito é de intoxicação aguda por estimulante, não de abstinência de uma substância de efeito mais leve como a nicotina.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A intoxicação aguda por álcool produz depressão do sistema nervoso central: euforia inicial, desinibição, fala arrastada, ataxia, e em altas doses, coma e depressão respiratória. Não causa midríase, hipertermia, hipertensão arterial ou taquicardia importante. O paciente apresenta um quadro de hiperestimulação, exatamente o oposto do esperado na intoxicação alcoólica.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A intoxicação aguda por cocaína é a causa clássica de síndrome simpaticomimética. O bloqueio da recaptação de dopamina, noradrenalina e serotonina leva a taquicardia, hipertensão, hipertermia, midríase, sudorese profusa, tremores, agitação psicomotora, confusão mental e paranoia — todos os sintomas descritos no enunciado. A dor torácica é um achado comum, podendo indicar isquemia miocárdica por vasoespasmo coronariano ou aumento da demanda miocárdica. O quadro é típico e o diagnóstico é essencialmente clínico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A síndrome de abstinência por cocaína tem apresentação oposta à intoxicação: cursa com depressão, fadiga, hipersonia, aumento do apetite, anedonia e craving intenso pela droga. Não há hiperatividade autonômica — o paciente não apresenta taquicardia, hipertensão, hipertermia ou midríase. A banca explora exatamente essa inversão: o enunciado descreve um quadro de intoxicação (hiperestimulação), mas a alternativa sugere abstinência (hipoatividade), que é o oposto fisiológico.
NÃO CAIA NESSA!
A alternativa E inverte o quadro clínico da intoxicação e da abstinência de cocaína. Na intoxicação aguda, há hiperestimulação simpática (taquicardia, hipertensão, hipertermia, midríase, agitação, paranoia). Na abstinência, há um estado de hipoatividade (depressão, letargia, hipersonia, craving). O enunciado descreve claramente o primeiro padrão — quem confunde os dois cai na armadilha. Com treino, você reconhece o padrão simpaticomimético de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar intoxicação de abstinência, pergunte-se: o sistema nervoso autônomo está hiperativo ou hipoativo? Intoxicação por estimulante (cocaína, anfetamina) = hiperativo (taquicardia, hipertensão, hipertermia, midríase). Abstinência de estimulante = hipoativo (depressão, fadiga, hipersonia). Já a intoxicação por depressor (álcool, benzodiazepínico) = hipoativo (sonolência, bradipneia, coma), e a abstinência de depressor (álcool) = hiperativo (tremores, taquicardia, delirium). Memorize o par: estimulante intoxica para cima, abstinência para baixo; depressor intoxica para baixo, abstinência para cima.
Gabarito: letra D — intoxicação por cocaína, quadro simpaticomimético clássico.