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Questão de Português — Sintaxe — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsSintaxe
Código
qg539497
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF-MS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor EBTT - Português/Português
Texto 1


ARGUMENTAR NA REDE

Monica Graciela Zoppi Fontana


   A argumentação é um fato de linguagem tão presente no nosso dia a dia que nem sempre percebemos sua força. Ela está presente nas mais diversas relações cotidianas: em conversas entre amigos, familiares e desconhecidos, nas reclamações de quem se encontra em uma fila de espera e demanda atendimento, nas estratégias para conseguir agendar uma consulta médica, na discussão sobre uma nota com um professor ou sobre um preço com um vendedor e até mesmo em situações mais enquadradas por procedimentos institucionais, como um julgamento no tribunal do Júri.

   Argumentar é uma prática de linguagem que envolve uma relação entre os interlocutores e com a situação do dizer. Argumentamos a partir do já-dito, ou seja, dos sentidos já produzidos socialmente na história e presentes como memória discursiva. E ao argumentar estabelecemos uma relação particular com o não-dito e com o silêncio, pois a língua fornece a base material para essa prática.

   Argumentamos por meio de palavras (casebre, mansão, pouco, um pouco, muito e muitas outras presentes no léxico da língua). Sufixos e prefixos também participam na argumentação (contradiscurso, antibelicista, pseudointelectual), assim como diminutivos e aumentativos (carrão, favorzinho, mulherzinha, garotão). Temos ainda locuções adverbiais (mesmo que, só que, apesar de, tanto quanto, por exemplo) e frases idiomáticas (descascar um abacaxi, enfiar o pé na jaca). E ainda há interjeições com valor argumentativo (vixe!, credo!). Argumentamos também por meio da forma de construção dos enunciados (a ordem das palavras na frase, construções passivas ou ativas, elipses etc.). As diversas formas de encadeamento dos enunciados no texto têm valor argumentativo. Algumas palavras, como as conjunções (portanto, porém, entre outras), explicitam o tipo de relação argumentativa presente no encadeamento.

   Assim, a forma específica como os enunciados estão formulados afeta a interpretação, orientando o sentido produzido em uma determinada direção. Mas toda prática de linguagem é produzida por falantes constituídos enquanto tais em um tempo e um espaço específicos. Todo dizer é assim determinado pelos processos históricos e pelos espaços de enunciação nos quais é produzido. E isso afeta constitutivamente a argumentação.

   Nas novas tecnologias de linguagem, a argumentação ganha contornos diferenciados, por meio de funcionamentos próprios do digital, como hashtags, memes, gifs e vídeos. Algumas expressões que surgiram na internet atravessam as fronteiras das redes sociais e são incorporadas na oralidade pelos falantes em suas trocas linguageiras.

   A Linguística estuda essas questões e reflete sobre os diversos modos de argumentar ao longo do tempo e em diversos espaços de enunciação. Questões semânticas e discursivas devem ser abordadas para compreender melhor o funcionamento da argumentação nos dias atuais e para ponderar seus efeitos nas práticas de linguagem na sociedade.


Adaptado de: https://www.blogs.unicamp.br/linguistica/2017/08/16/argumentarna-rede/. Acesso em: 04 de abr. de 2025.
No período “[...] ao argumentar estabelecemos uma relação particular com o não-dito e com o silêncio, pois a língua fornece a base material para essa prática.”, ocorre uma oração
  1. Asubordinada adverbial causal.
  2. Bcoordenada explicativa.
  3. Csubordinada adjetiva explicativa.
  4. Dcoordenada conclusiva.
  5. Esubordinada substantiva apositiva.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — coordenada explicativa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Classificação da oração introduzida por "pois" no período

Gabarito: letra B. A oração "pois a língua fornece a base material para essa prática" é uma coordenada sindética explicativa, pois a conjunção "pois" (anteposta ao verbo) introduz uma justificativa/explicação para a afirmação anterior, e não uma causa propriamente dita. Como se lê no trecho: "ao argumentar estabelecemos uma relação particular com o não-dito e com o silêncio, pois a língua fornece a base material para essa prática". A distinção entre explicativa e causal é o coração da questão.

O comando e o que ele pede

O enunciado pergunta qual é a classificação da oração destacada. Isso é uma questão de sintaxe do período composto, especificamente de classificação de orações. Não se trata de interpretação de texto, mas de análise gramatical. A banca quer que você identifique se a oração é coordenada ou subordinada, e, dentro disso, qual o tipo.

O texto e o trecho analisado

No texto, a autora afirma que "ao argumentar estabelecemos uma relação particular com o não-dito e com o silêncio" e, em seguida, justifica: "pois a língua fornece a base material para essa prática". A segunda oração explica o porquê da afirmação anterior: é porque a língua fornece a base material que estabelecemos essa relação. Essa relação de justificativa é típica da oração coordenada explicativa.

A técnica que decide: explicativa × causal

A pegadinha clássica é confundir oração subordinada adverbial causal com oração coordenada sindética explicativa. Ambas podem ser introduzidas por "porque" ou "pois". A diferença está na relação semântica e na estrutura sintática:

  • Causal: a oração expressa a causa do fato da oração principal. Ex.: "Não fui à festa porque estava chovendo." (a chuva é a causa de não ir).

  • Explicativa: a oração expressa uma justificativa/explicação para a afirmação feita na oração anterior. Ex.: "Estude, pois a prova será difícil." (a dificuldade da prova justifica o conselho de estudar).

No trecho, "pois a língua fornece a base material" explica por que estabelecemos essa relação com o não-dito. Não é a causa de algo que acontece, mas a razão que justifica a afirmação. Além disso, "pois" anteposto ao verbo é típico de oração explicativa (quando posposto, como em "estudou, passou pois", é conclusivo).

"ao argumentar estabelecemos uma relação particular com o não-dito e com o silêncio, pois a língua fornece a base material para essa prática"

A oração "pois a língua fornece..." é sintaticamente independente da anterior: se separarmos, cada uma tem sentido completo. Isso caracteriza coordenação, não subordinação.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Subordinada adverbial causal. A oração não expressa causa, mas explicação. Além disso, é coordenada, não subordinada. A banca tenta confundir com a relação de causa, mas o "pois" aqui tem valor explicativo.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Coordenada explicativa. A conjunção "pois" (anteposta ao verbo) introduz uma justificativa para a oração anterior. A oração é sintaticamente independente, caracterizando coordenação. Como vimos, "pois a língua fornece a base material" explica a afirmação anterior.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Subordinada adjetiva explicativa. Não há pronome relativo (que, o qual, cujo etc.) e a oração não exerce função de adjunto adnominal. É uma oração coordenada, não subordinada adjetiva.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Coordenada conclusiva. A conjunção conclusiva típica é "portanto", "logo", "pois" posposto ao verbo (ex.: "estudou, passou pois"). Aqui o "pois" está anteposto, indicando explicação, não conclusão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Subordinada substantiva apositiva. Não há dois pontos nem aposto. A oração não exerce função de substantivo (sujeito, objeto etc.). É coordenada explicativa.

Fechamento

A regra de ouro: "pois" anteposto ao verbo = explicativa; posposto = conclusiva. E para diferenciar de causal, pergunte: a oração explica uma afirmação (explicativa) ou expressa a causa de um fato (causal)? Aqui, é explicação. Gabarito: letra B.

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