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Questão de Português — Interpretação de Textos — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg540874
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
MPE-RS
Ano
2025
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Ministério Público
Leia o texto a seguir para responder à questão

Texto 2

Do burnout ao propósito: a nova jornada
psicológica nas organizações

Caminho consiste em abordagens preventivas, que
fomentem um ciclo virtuoso de produtividade,
comprometimento e bem-estar

Clécio Branco

O trabalho sempre ocupou um lugar central em nossas vidas – mas raramente a saúde de quem trabalha foi tratada com a mesma importância. Isso começa a mudar, ainda que lentamente. Agora, até mesmo a linguagem normativa dá sinais de transformação: a nova redação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que entra em vigor neste mês, passa a reconhecer os riscos psicossociais – como ansiedade, estresse e depressão – como parte da realidade que precisa ser cuidada no ambiente laboral.

Esse avanço regulatório é consequência de um cenário que já vinha se agravando: o crescimento dos transtornos mentais associados ao trabalho, os altos índices de afastamento e a dificuldade de retenção e engajamento dos profissionais. O adoecimento psíquico se tornou, infelizmente, uma marca da era contemporânea.

Desde os primórdios da industrialização, o bem-estar dos trabalhadores foi negligenciado. Os departamentos de pessoal, no passado, limitavam-se à lógica da produtividade. A saúde mental só passou a ser levada a sério quando os impactos econômicos do esgotamento se tornaram evidentes.

Hoje, a transformação é mais profunda. Vivemos na chamada sociedade do desempenho, em que a pressão não vem apenas do chefe: ela está internalizada. Cada profissional tornou-se gestor de si mesmo, cobrando-se o tempo todo, respondendo a e-mails no jantar, gerenciando metas pessoais como se fosse uma empresa. O telefone celular se transformou no símbolo dessa vigilância constante, dissolvendo as fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de vida.

Nesse contexto, o trabalho deixou de ser apenas atividade e passou a ser identidade. E isso trouxe consequências. Condições como burnout, déficit de atenção e ansiedade crônica têm se tornado comuns – não por fragilidade individual, mas por estruturas que não reconhecem limites humanos.

As novas gerações não se reconhecem mais nos modelos tradicionais. A ideia de uma carreira estável numa única empresa parece anacrônica. Ganha espaço uma busca por propósito, por coerência entre o que se faz e o que se acredita. O trabalhador contemporâneo quer mais do que salário: quer sentido, autonomia e saúde emocional.

Esse cenário exige um novo olhar das empresas. A "ecosofia", proposta pelo filósofo Félix Guattari, oferece uma chave de leitura interessante ao propor o cuidado simultâneo com três dimensões: o ambiente, as relações sociais e o mundo interno de cada pessoa. Negligenciar uma dessas esferas compromete o sistema como um todo.

A saúde no trabalho, portanto, não pode mais ser pensada apenas como ergonomia ou ergonomia emocional. É preciso ir além dos benefícios pontuais e promover uma mudança cultural real – onde cuidar da mente não seja exceção, mas prática cotidiana.

Apesar do avanço tecnológico, as relações de trabalho não acompanharam essa evolução. Elas se tornaram mais líquidas, mais impessoais e, muitas vezes, mais desumanas. Normas como a NR-17 já apontavam para fatores biopsicossociais, mas a mudança necessária não virá apenas por meio da legislação.

Sem saúde, a realização pessoal torna-se inviável; sem realização, o engajamento sustentável é impossível. O caminho consiste em políticas eficazes de saúde ocupacional, com abordagens preventivas, que fomentem um ciclo virtuoso de produtividade, comprometimento e bem-estar nas organizações.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/05/doburnout-ao-proposito-a-nova-jornada-psicologica-nasorganizacoes.shtml. Acesso em: 30 jun. 2025.
Assinale a alternativa em que a expressão destacada aponta para um referente do contexto extralinguístico.
  1. A“[...] a nova redação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que entra em vigor neste mês [...]” (1º parágrafo).
  2. B“Esse avanço regulatório é consequência de um cenário que já vinha se agravando [...]” (2º parágrafo).
  3. C“Nesse contexto, o trabalho deixou de ser apenas atividade e passou a ser identidade.” (5º parágrafo).
  4. D“E isso trouxe consequências.” (5º parágrafo).
  5. E“Elas se tornaram mais líquidas [...]” (9º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — “[...] a nova redação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que entra em vigor neste mês [...]” (1º parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referenciação exofórica: quando a expressão aponta para fora do texto

Gabarito: letra A. A expressão destacada "neste mês" aponta para um referente do contexto extralinguístico, ou seja, para o momento da enunciação (o mês em que o texto foi produzido/lido), e não para algo mencionado no próprio texto. Como se lê no 1º parágrafo: "a nova redação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que entra em vigor neste mês". O pronome demonstrativo "este" + o substantivo "mês" formam uma dêixis temporal: o referente só pode ser identificado se soubermos quando o texto foi escrito — informação que está fora do texto, no mundo real.

O comando: o que a banca pede

A questão quer que você distinga referente textual (endofórico) de referente extralinguístico (exofórico). Quando uma expressão retoma algo dito antes no texto (um termo, uma ideia, um parágrafo), ela é endofórica — a referência se resolve dentro do próprio texto. Quando a expressão aponta para fora do texto — para o momento da fala, o lugar, os interlocutores — ela é exofórica (dêitica). O comando "aponta para um referente do contexto extralinguístico" é o mesmo que "é um dêitico".

A técnica que decide

Para cada alternativa, pergunte: o referente está no texto ou fora dele? Se a expressão retoma um termo/ideia já mencionados, é endofórica. Se depende do contexto de produção (quem fala, com quem, quando, onde), é exofórica. A banca adora colocar pronomes demonstrativos e advérbios de tempo/lugar que parecem dêiticos, mas que na verdade retomam algo do texto — e vice-versa. A pegadinha clássica é achar que "neste mês" é endofórico porque "este" é um pronome demonstrativo; mas aqui ele não retoma nada dito antes, ele ancora o evento no tempo real da enunciação.

O que é dêixis e por que ela importa

Dêixis é a propriedade de certas palavras cujo referente só pode ser determinado pelo contexto de enunciação: quem fala (dêixis pessoal), quando (dêixis temporal), onde (dêixis espacial). "Neste mês" só faz sentido se soubermos o mês em que o texto foi escrito — informação que não está no texto, mas no mundo. Já a anáfora (endófora) retoma um termo já dito: "Esse avanço regulatório" retoma a NR-1 mencionada no parágrafo anterior. A catáfora antecipa algo que virá. A banca mistura esses conceitos para testar se você sabe onde o referente mora.

A pegadinha da banca

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca pronomes demonstrativos ("Esse", "Nesse", "isso") que parecem dêiticos, mas que na verdade são anafóricos — retomam algo dito no texto. A única expressão que realmente aponta para fora do texto é "neste mês", porque depende do momento da enunciação.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver um pronome demonstrativo, pergunte: "retoma algo dito antes?" Se sim, é endofórico. Se depende do contexto de produção (quando/onde/quem), é exofórico.

Análise das alternativas

Referenciação
  • 1Endofórica (referente no texto)
    • Anáfora (retoma o que já foi dito)
      • "Esse avanço regulatório"
      • "Nesse contexto"
      • "Isso"
      • "Elas"
    • Catáfora (antecipa o que virá)
  • 2Exofórica (referente fora do texto)
    • Dêixis temporal
      • "neste mês"
    • Dêixis pessoal
    • Dêixis espacial
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"a nova redação da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que entra em vigor neste mês"

O pronome "este" + "mês" forma uma dêixis temporal: o referente é o mês em que o texto foi escrito, informação que está fora do texto, no contexto de produção. Não há, no texto, nenhuma menção anterior a um mês específico que "este" pudesse retomar. Portanto, é exofórica.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Esse avanço regulatório é consequência de um cenário que já vinha se agravando"

"Esse avanço regulatório" retoma a NR-1 mencionada no 1º parágrafo. É uma anáfora (endofórica): o referente está no texto, não fora dele. A banca tenta confundir porque "Esse" é um pronome demonstrativo, mas aqui ele é anafórico.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Nesse contexto, o trabalho deixou de ser apenas atividade e passou a ser identidade."

"Nesse contexto" retoma todo o cenário descrito nos parágrafos anteriores (sociedade do desempenho, pressão internalizada, celular como vigilância). É uma anáfora que resume uma ideia já apresentada — referente dentro do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"E isso trouxe consequências."

"Isso" retoma a ideia anterior: "o trabalho deixou de ser apenas atividade e passou a ser identidade". É uma anáfora — o referente está no texto, no próprio parágrafo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Elas se tornaram mais líquidas"

"Elas" retoma "as relações de trabalho" mencionadas na frase anterior do mesmo parágrafo. É uma anáfora — referente textual, não extralinguístico.

Conclusão

A única expressão que aponta para fora do texto é "neste mês", pois depende do momento da enunciação. As demais retomam termos ou ideias já presentes no texto. Gabarito: letra A.

NÃO CAIA NESSA!

Em questões de referenciação, identifique primeiro se o pronome retoma algo dito (endófora) ou se depende do contexto de produção (exófora). A banca adora trocar "este" (dêitico) por "esse" (anafórico) para confundir.

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