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Questão de Português — Interpretação de Textos — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg540882
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
MPE-RS
Ano
2025
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Ministério Público
Leia o texto a seguir para responder à questão.

Texto 1

Sem cultura não há partilha; sem língua não há
cidadania nem futuro

Falar português é mais do que dominar um idioma: é
compreender códigos sociais, partilhar valores e
histórias

José Manuel Diogo

    Nesta segunda-feira (5), Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebramos não apenas um idioma, mas uma comunidade. Uma língua não é apenas um conjunto de palavras – é um território partilhado, um exercício contínuo de cidadania. E é por isso que, ao olharmos para os recentes debates sobre imigração em Portugal, devemos recolocar a língua no centro da equação: como critério de integração, como vetor de cultura e, sobretudo, como fundamento da cidadania contemporânea.


    Os dados falam por si: dos 4.500 imigrantes recentemente notificados para deixar Portugal, apenas cerca de 10% são brasileiros. Esse número, silencioso, revela uma prática que merece ser assumida como política – a valorização da língua como instrumento de inclusão.


    Falar português é mais do que dominar um idioma: é participar de uma cultura, compreender códigos sociais, partilhar valores e histórias. É estar pronto para exercer uma cidadania ativa, mesmo antes de qualquer formalização administrativa.


    A cidadania, aliás, é o fio que liga todos os argumentos sobre imigração. Porque não se trata apenas de entrar num país – trata-se de participar nele. E essa participação só se realiza de forma plena quando há cultura comum. A língua, nesse sentido, não é uma barreira: é a porta de entrada. Quem fala a nossa língua já iniciou o percurso da cidadania. E ignorar isso é negar a própria natureza do convívio democrático.


    Portugal, como país historicamente emigrante, deveria ter essa consciência profundamente enraizada. Fomos – e somos – milhões lá fora. E o que nos manteve ligados ao país de origem não foi a distância medida em quilômetros, mas a continuidade da língua. Ela nos permitiu manter os afetos, transmitir memórias, educar os filhos. Ela foi – e é – a nossa forma mais duradoura de cidadania.


    Por isso, quando se verificam identidades, quando se traçam fronteiras administrativas, é urgente reconhecer que, sem cultura partilhada, toda a política migratória será falha. A cidadania não se constrói apenas com documentos – constrói-se com convivência. E não há convivência duradoura sem linguagem comum.


    Precisamos nos juntar cotidianamente em torno do que é diferente e partilhá-lo para que se torne comum. Isso fará com que a língua portuguesa não seja apenas celebrada em discursos, mas assumida como um pilar ativo de integração e de cidadania global.


    Neste 5 de maio, que saibamos ver na língua o que ela realmente é: um lugar onde pertencemos, antes mesmo de chegarmos. E que saibamos reconhecer nos que partilham essa língua o direito pleno de também pertencer.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/05/semcultura-nao-ha-partilha-sem-lingua-nao-ha-cidadania-nemfuturo.shtml. Acesso em: 30 jun. 2025.
Assinale a alternativa que NÃO apresenta uma interpretação correta para o excerto, considerando-se a presença do termo “apenas” como uma marca linguística que orienta essa interpretação.
  1. AEm “Uma língua não é apenas um conjunto de palavras [...]”, é possível pressupor que a língua é também um conjunto de palavras.
  2. BEm “Nesta segunda-feira (5), Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebramos não apenas um idioma [...]”, é possível pressupor que, na data mencionada, celebra-se também um idioma.
  3. CEm “Isso fará com que a língua portuguesa não seja apenas celebrada em discursos [...]”, é possível pressupor que isso fará com que a língua também seja celebrada em discursos.
  4. DEm “A cidadania não se constrói apenas com documentos [...]”, é possível pressupor que a cidadania também se constrói com documentos.
  5. EEm “[...] dos 4.500 imigrantes recentemente notificados para deixar Portugal, apenas cerca de 10% são brasileiros.”, é possível pressupor que os 4.500 imigrantes também são portugueses.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Em “[...] dos 4.500 imigrantes recentemente notificados para deixar Portugal, apenas cerca de 10% são brasileiros.”, é possível pressupor que os 4.500 imigrantes também são portugueses.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O pressuposto do termo “apenas” e a alternativa que foge ao texto

Gabarito: letra E. A questão pede a alternativa que NÃO apresenta interpretação correta considerando o “apenas” como marca de pressuposição. A letra E é a única que extrapola: o texto diz que “apenas cerca de 10% são brasileiros”, o que pressupõe que os demais não são brasileiros — jamais que “também são portugueses”. Todas as demais alternativas (A, B, C, D) estão corretas, pois o “apenas” nelas pressupõe exatamente o que cada uma afirma.

O comando é de interpretação de pressupostos: o termo “apenas” (assim como “não apenas”, “não só”, “não somente”) funciona como um operador argumentativo que introduz uma pressuposição — uma informação dada como verdadeira, que não está em discussão, mas que o falante assume como compartilhada. Quando digo “não apenas X”, pressuponho que X também é verdadeiro; quando digo “apenas Y”, pressuponho que tudo o que não é Y está excluído. A banca testa exatamente essa lógica: em cada excerto, o candidato deve identificar o que o “apenas” deixa implícito.

A técnica para resolver: isole o trecho com “apenas” e pergunte “o que o autor assume como verdadeiro para poder dizer isso?”. Em “não é apenas um conjunto de palavras”, o autor assume que a língua é um conjunto de palavras (e vai além). Em “não se constrói apenas com documentos”, assume que a cidadania se constrói com documentos (mas não só). Já em “apenas cerca de 10% são brasileiros”, o pressuposto é que os outros 90% não são brasileiros — e o texto não afirma que são portugueses; diz apenas que foram “notificados para deixar Portugal”, o que não os torna portugueses. A letra E inverte o pressuposto: em vez de excluir, ela inclui os imigrantes como portugueses, o que contradiz a lógica do “apenas”.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre “pressupor o que o texto afirma” e “acrescentar informação de fora”. A letra E parece plausível porque “notificados para deixar Portugal” sugere que estão em Portugal — mas estar em Portugal não os torna portugueses. O “apenas” pressupõe exclusão, não inclusão.

Pressuposto do "apenas"
  • 1"não apenas X"
    • pressupõe que X também é verdadeiro
    • Ex.: língua é também conjunto de palavras
  • 2"apenas Y"
    • exclui o que não é Y
    • Ex.: só 10% são brasileiros → 90% não são
  • 3Erro comum
    • extrapolar: acrescentar dado de fora
    • confundir "estar em Portugal" com "ser português"
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Alternativa A — ✅ Correta

“Uma língua não é apenas um conjunto de palavras [...]”

O “não apenas” pressupõe que a língua é também um conjunto de palavras. A alternativa afirma exatamente isso: “é possível pressupor que a língua é também um conjunto de palavras”. Correta — a pressuposição está ancorada no operador “não apenas”.

Alternativa B — ✅ Correta

“celebramos não apenas um idioma [...]”

O “não apenas” pressupõe que, na data, celebra-se também um idioma. A alternativa diz: “é possível pressupor que, na data mencionada, celebra-se também um idioma”. Correta — mesma lógica da A: o “não apenas” inclui o elemento citado.

Alternativa C — ✅ Correta

“Isso fará com que a língua portuguesa não seja apenas celebrada em discursos [...]”

O “não seja apenas” pressupõe que, hoje, a língua é celebrada em discursos (e que isso mudará). A alternativa afirma: “é possível pressupor que isso fará com que a língua também seja celebrada em discursos”. Correta — o pressuposto é exatamente o que a alternativa diz.

Alternativa D — ✅ Correta

“A cidadania não se constrói apenas com documentos [...]”

O “não apenas” pressupõe que a cidadania também se constrói com documentos (mas não só). A alternativa afirma: “é possível pressupor que a cidadania também se constrói com documentos”. Correta — pressuposição fiel ao operador.

Alternativa E — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO

“[...] dos 4.500 imigrantes recentemente notificados para deixar Portugal, apenas cerca de 10% são brasileiros.”

O “apenas” aqui tem valor restritivo/exclusivo: pressupõe que somente 10% são brasileiros — ou seja, os outros 90% não são brasileiros. A alternativa afirma que “é possível pressupor que os 4.500 imigrantes também são portugueses”, o que é um erro de extrapolação: o texto não diz que são portugueses; diz apenas que foram notificados para deixar Portugal. Estar em Portugal não os torna portugueses. A alternativa contradiz o pressuposto do “apenas” (que exclui) e acrescenta informação que o texto não sustenta. Incorreta — é a única que foge ao texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver “apenas”, pergunte: “o que ele exclui?”. Se “apenas 10% são brasileiros”, exclui-se que os outros sejam brasileiros — nunca se inclui que sejam portugueses. O “apenas” restringe; não amplia.

Gabarito: letra E — a única que não apresenta interpretação correta, pois extrapola o pressuposto do “apenas” ao afirmar que os imigrantes “também são portugueses”, informação ausente do texto.

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