Questão de Português — Pronomes relativos — INSTITUTO AOCP 2025
Português›Pronomes relativos
Código
qg540887
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
MPE-RS
Ano
2025
Nível
Médio
Cargo
Técnico do Ministério Público
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Texto 1
Sem cultura não há partilha; sem língua não há
cidadania nem futuro
Falar português é mais do que dominar um idioma: é
compreender códigos sociais, partilhar valores e
histórias
José Manuel Diogo
Nesta segunda-feira (5), Dia Mundial da Língua
Portuguesa, celebramos não apenas um idioma, mas
uma comunidade. Uma língua não é apenas um
conjunto de palavras – é um território partilhado, um
exercício contínuo de cidadania. E é por isso que, ao
olharmos para os recentes debates sobre imigração
em Portugal, devemos recolocar a língua no centro da
equação: como critério de integração, como vetor de
cultura e, sobretudo, como fundamento da cidadania
contemporânea.
Os dados falam por si: dos 4.500 imigrantes
recentemente notificados para deixar Portugal, apenas
cerca de 10% são brasileiros. Esse número, silencioso,
revela uma prática que merece ser assumida como
política – a valorização da língua como instrumento de
inclusão.
Falar português é mais do que dominar um idioma: é
participar de uma cultura, compreender códigos
sociais, partilhar valores e histórias. É estar pronto
para exercer uma cidadania ativa, mesmo antes de
qualquer formalização administrativa.
A cidadania, aliás, é o fio que liga todos os
argumentos sobre imigração. Porque não se trata
apenas de entrar num país – trata-se de participar nele.
E essa participação só se realiza de forma plena
quando há cultura comum. A língua, nesse sentido,
não é uma barreira: é a porta de entrada. Quem fala a
nossa língua já iniciou o percurso da cidadania. E
ignorar isso é negar a própria natureza do convívio
democrático.
Portugal, como país historicamente emigrante,
deveria ter essa consciência profundamente
enraizada. Fomos – e somos – milhões lá fora. E o que
nos manteve ligados ao país de origem não foi a
distância medida em quilômetros, mas a continuidade
da língua. Ela nos permitiu manter os afetos, transmitir
memórias, educar os filhos. Ela foi – e é – a nossa
forma mais duradoura de cidadania.
Por isso, quando se verificam identidades, quando se
traçam fronteiras administrativas, é urgente
reconhecer que, sem cultura partilhada, toda a política
migratória será falha. A cidadania não se constrói
apenas com documentos – constrói-se com
convivência. E não há convivência duradoura sem
linguagem comum.
Precisamos nos juntar cotidianamente em torno do
que é diferente e partilhá-lo para que se torne comum.
Isso fará com que a língua portuguesa não seja apenas
celebrada em discursos, mas assumida como um pilar
ativo de integração e de cidadania global.
Neste 5 de maio, que saibamos ver na língua o que
ela realmente é: um lugar onde pertencemos, antes
mesmo de chegarmos. E que saibamos reconhecer
nos que partilham essa língua o direito pleno de
também pertencer.
Considerando o excerto a seguir: “Neste 5 de maio, que saibamos ver na língua o que ela realmente é: um lugar onde pertencemos, antes mesmo de chegarmos.”, assinale a alternativa correta quanto ao uso de seus elementos de coesão.
AO emprego de “neste”, ao invés de “nesse”, justifica-se porque o termo se refere a um elemento que já foi mencionado anteriormente no texto.
BA substituição do verbo “saibamos”, no modo subjuntivo, por “sabemos”, no modo indicativo, causaria problemas de coesão no excerto.
CA utilização da elipse do pronome “nós” antes dos verbos “saibamos”, “pertencemos” e “chegarmos” não é um recurso de coesão indicado para textos jornalísticos.
DO termo “ela” funciona como um pronome catafórico, apontando para um referente que será mencionado posteriormente no texto.
EO termo “onde” pode ser substituído por “que” mantendo-se a adequabilidade na norma-padrão da língua portuguesa.
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GabaritoB — A substituição do verbo “saibamos”, no modo subjuntivo, por “sabemos”, no modo indicativo, causaria problemas de coesão no excerto.
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Coesão no excerto: o valor do subjuntivo e dos pronomes
Gabarito: letra B. A substituição de “saibamos” (subjuntivo) por “sabemos” (indicativo) quebraria a coesão do excerto, porque o subjuntivo expressa um desejo — “que saibamos ver” —, enquanto o indicativo afirmaria um fato. Essa mudança alteraria o sentido e a articulação entre as orações, comprometendo a unidade do trecho. Como se lê no excerto: “Neste 5 de maio, que saibamos ver na língua o que ela realmente é”.
O comando pede que você analise os elementos de coesão do excerto — ou seja, os mecanismos que ligam as partes do texto e garantem sua continuidade. Não se trata de interpretar o texto, mas de reconhecer o valor gramatical e referencial de cada termo destacado. Para acertar, é preciso dominar: (1) a diferença entre modo subjuntivo (desejo, hipótese) e indicativo (certeza, fato); (2) o uso dos pronomes demonstrativos (este/esse) e sua função anafórica/catafórica; (3) o emprego do pronome relativo onde (lugar físico) e sua substituição por “em que”; e (4) o conceito de elipse (omissão de termo subentendido).
No excerto, o autor expressa um voto para o Dia Mundial da Língua Portuguesa: “que saibamos ver na língua o que ela realmente é”. O verbo “saibamos” está no presente do subjuntivo, introduzido pela conjunção “que”, formando uma oração optativa (desejo). Se trocássemos por “sabemos” (indicativo), a frase deixaria de ser um desejo e passaria a ser uma constatação — “nós sabemos ver” —, o que contraria a intenção do autor e desfaz a coesão entre o pedido e a justificativa que se segue. A coesão não é apenas gramatical; ela depende da manutenção do sentido.
A alternativa B é a única que identifica corretamente esse efeito. As demais cometem erros típicos: a letra A inverte a regra dos demonstrativos (neste refere-se ao tempo presente, não a algo já mencionado); a letra C afirma que a elipse não é adequada em texto jornalístico, o que é falso — a elipse é um recurso coesivo válido em qualquer registro; a letra D confunde catáfora com anáfora (o pronome “ela” retoma “língua”, já mencionada); e a letra E propõe uma substituição inadequada de “onde” por “que”, pois “onde” exige antecedente de lugar.
Coesão no excerto: Modo verbal (Subjuntivo (desejo) — "saibamos", Indicativo (fato) — quebraria a coesão); Pronomes demonstrativos ("Neste" — tempo presente, "Nesse" — já mencionado); Anáfora × catáfora ("Ela" — anáfora (retoma "língua"), Catáfora — antecipa referente); "Onde" (Lugar físico, Substituição por "em que" / "no qual")
Alternativa A — ❌ Incorreta
O emprego de “neste” não se justifica por referir-se a elemento já mencionado. “Neste” (este) indica proximidade no tempo presente — “Neste 5 de maio” refere-se ao dia em que se fala. Já “nesse” (esse) seria usado para algo já mencionado ou distante no tempo. A alternativa inverte a regra dos demonstrativos: “este” aponta para o que está próximo do falante ou para o futuro; “esse” retoma o que já foi dito. Portanto, a justificativa apresentada é falsa.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A troca de “saibamos” (subjuntivo) por “sabemos” (indicativo) alteraria o sentido e, consequentemente, a coesão do excerto. O subjuntivo expressa desejo, possibilidade — “que saibamos ver” é um voto, uma esperança. O indicativo expressa certeza, fato — “sabemos ver” seria uma afirmação categórica. Essa mudança romperia a articulação entre a oração optativa e o restante do período, pois o autor não está constatando um fato, mas exortando os leitores a enxergar a língua como lugar de pertencimento. A coesão depende da manutenção do modo verbal que sustenta a intenção do texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A elipse do pronome “nós” antes de “saibamos”, “pertencemos” e “chegarmos” é um recurso coesivo válido em qualquer registro, inclusive no jornalístico. A elipse consiste em omitir um termo facilmente subentendido pelo contexto — aqui, a desinência verbal já indica a 1ª pessoa do plural. Não há qualquer restrição que a torne inadequada para textos jornalísticos; pelo contrário, é um mecanismo comum de coesão e concisão. A alternativa extrapola ao impor uma regra inexistente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O pronome “ela” tem função anafórica, não catafórica. Ele retoma o termo “língua”, mencionado anteriormente no excerto: “o que ela realmente é” — “ela” = a língua. A catáfora ocorreria se o pronome antecipasse um termo que ainda viria, como em “ela é linda: a língua portuguesa”. Aqui, o referente já foi expresso, portanto a alternativa contradiz o texto e confunde os conceitos de anáfora e catáfora.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O pronome relativo “onde” só pode ser usado quando o antecedente indica lugar físico — e é o caso: “um lugar onde pertencemos”. A substituição por “que” seria inadequada, pois “que” não carrega a ideia de lugar. A forma correta de substituir “onde” seria por “em que” ou “no qual” — “um lugar em que pertencemos”. A alternativa propõe uma troca que viola a norma-padrão, pois “que” não retomaria adequadamente o valor locativo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os valores dos pronomes demonstrativos (este/esse) e entre anáfora e catáfora, além de testar o conhecimento do uso do “onde”. Fique atento: “onde” só para lugar físico; “este” para o presente; “ela” retoma termo anterior.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar coesão, pergunte-se: qual é a função de cada termo? Retoma algo já dito (anáfora)? Antecipa algo que virá (catáfora)? Indica desejo ou fato (modo verbal)? A resposta correta é a que preserva o sentido e a articulação do texto.