O paladar pode ser afetado por inúmeras condições clínicas. Sobre a semiologia da gustação, assinale a alternativa correta.
AA queixa de xerostomia pode contribuir para as queixas de alteração de paladar.
BO olfato tem papel pouco relevante durante a avaliação dos distúrbios gustativos.
CÉ pouco relevante perguntar sobre uso de medicamentos quando há alterações no paladar.
DSintomas de refluxo gastroesofágico não afetam o paladar.
EA anemia perniciosa não altera o paladar.
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GabaritoA — A queixa de xerostomia pode contribuir para as queixas de alteração de paladar.
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Semiologia da gustação: xerostomia e distúrbios do paladar
Gabarito: letra A. A xerostomia (redução do fluxo salivar) é causa clássica de queixa de alteração do paladar, pois a saliva é o veículo que dissolve os alimentos e transporta as moléculas gustativas até os botões gustativos — sem saliva adequada, a percepção dos sabores fica comprometida. As demais alternativas invertem ou negam relações clínicas bem estabelecidas na semiologia otorrinolaringológica.
A gustação é um sentido químico mediado pelos botões gustativos localizados principalmente na língua, mas também no palato, faringe e laringe. Para que uma substância seja percebida como sabor, ela precisa ser dissolvida na saliva e entrar em contato com os microvilos dos receptores gustativos. Por isso, a saliva não é apenas um lubrificante: ela é parte funcional do sistema gustativo. Quando há xerostomia — seja por medicações anticolinérgicas, radioterapia de cabeça e pescoço, síndrome de Sjögren, diabetes descompensado ou envelhecimento — o paciente frequentemente relata que "a comida perdeu o gosto" ou que sente "gosto metálico" ou "queimação". Esse é um dado semiológico de primeira ordem na anamnese do paciente com queixa gustativa.
O olfato, por sua vez, tem papel central na percepção do sabor. O que chamamos de "sabor" de um alimento é, na verdade, uma integração multissensorial: o paladar propriamente dito (doce, salgado, azedo, amargo, umami) é complementado pelo olfato retronasal, que ocorre quando as moléculas voláteis do alimento sobem da orofaringe para o epitélio olfatório durante a mastigação e deglutição. É por isso que pacientes com anosmia (perda do olfato) frequentemente se queixam de que "a comida não tem gosto", mesmo tendo paladar intacto — eles perdem a dimensão aromática do sabor. Na prática clínica, a avaliação de um distúrbio gustativo SEMPRE inclui a investigação do olfato, pois as duas vias são interdependentes.
A anamnese do paciente com disgeusia (alteração do paladar) deve ser minuciosa e incluir, obrigatoriamente: uso de medicamentos (inúmeros fármacos alteram o paladar — antibióticos, antifúngicos, anticonvulsivantes, anti-hipertensivos, psicotrópicos, quimioterápicos), doenças sistêmicas (diabetes, hipotireoidismo, anemia perniciosa, insuficiência renal, hepatopatias), refluxo gastroesofágico (o conteúdo ácido que atinge a orofaringe pode lesar a mucosa e os receptores gustativos), deficiências nutricionais (zinco, vitamina B12), tabagismo, etilismo, radioterapia e cirurgias prévias. A anemia perniciosa, por exemplo, é uma causa reconhecida de alteração do paladar, relacionada à deficiência de vitamina B12 que afeta a renovação celular dos botões gustativos.
A banca explora exatamente o senso comum invertido: o candidato pode achar que "xerostomia é só boca seca" e não se relaciona com paladar, ou que "o olfato é pouco relevante" porque a questão fala de gustação. Na verdade, a semiologia correta é o oposto: a xerostomia é uma das causas mais comuns de queixa gustativa, e o olfato é um dos principais componentes da percepção do sabor. Guarde essa lógica: saliva dissolve, olfato aromatiza, medicamentos e doenças sistêmicas alteram — e a anamnese é a ferramenta que amarra tudo isso.
A xerostomia reduz a disponibilidade de saliva, que é essencial para dissolver as moléculas do alimento e transportá-las até os receptores gustativos. Sem esse veículo, a percepção dos sabores fica prejudicada, gerando queixas de paladar alterado (disgeusia, hipogeusia). É uma relação fisiopatológica direta e bem documentada na semiologia otorrinolaringológica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que o olfato tem papel pouco relevante na avaliação dos distúrbios gustativos — é exatamente o contrário. O olfato retronasal é responsável por grande parte da percepção do sabor; pacientes com perda olfativa frequentemente relatam perda do paladar. A avaliação de distúrbios gustativos deve incluir a investigação do olfato, pois as duas vias são complementares.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Diz que é pouco relevante perguntar sobre uso de medicamentos quando há alterações no paladar. Na verdade, a revisão da medicação em uso é etapa obrigatória da anamnese, pois inúmeros fármacos causam disgeusia como efeito adverso (ex.: metronidazol, captopril, alguns antirretrovirais e quimioterápicos). A pergunta sobre medicamentos é uma das primeiras a serem feitas.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que sintomas de refluxo gastroesofágico não afetam o paladar. O refluxo pode levar conteúdo ácido e biliar até a orofaringe, causando irritação da mucosa e dos botões gustativos, além de queixas de gosto ácido ou amargo na boca. É uma causa reconhecida de alteração gustativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Diz que a anemia perniciosa não altera o paladar. A anemia perniciosa, por deficiência de vitamina B12, é causa conhecida de alteração do paladar, pois a vitamina B12 é essencial para a renovação celular dos botões gustativos. A deficiência leva a atrofia das papilas e disgeusia.
Gabarito: letra A — a única alternativa que descreve corretamente uma relação semiológica válida na avaliação dos distúrbios gustativos.