Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Gastroenterologia — INSTITUTO AOCP 2025

MedicinaGastroenterologia
Código
qg541876
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Joinville - SC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Cirurgião Geral - HPSJ
Um homem feodérmico de 31 anos foi internado com doença de Crohn grave, em estado nutricional precário. Em uma acutização anterior da doença, apresentou estenose intestinal extensa, tendo sido ressecados 60 cm de íleo terminal. Os exames laboratoriais mostraram deficiência de ferro, vitamina B12, vitamina D, vitamina K, cálcio, magnésio e ácido fólico, além de hipoalbuminemia. O paciente estava anêmico e com sarcopenia; conseguia ingerir alimentos por via oral, porém apresentava hiporexia. A conduta de primeira linha para restabelecer o estado nutricional desse paciente é
  1. Ainsistir com a dieta oral, por meio de alimentos toleráveis e assistência psicológica.
  2. Baumentar as doses dos medicamentos e acrescentar suplementos nutricionais orais.
  3. Cdieta enteral por meio de cateter nasoentérico e aporte dos nutrientes necessários.
  4. Ddieta parenteral e transfusões de hemácias, até se alcançar o equilíbrio nutricional.
  5. Erealizar jejunostomia para nutrição eficaz.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — dieta enteral por meio de cateter nasoentérico e aporte dos nutrientes necessários.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Suporte nutricional na doença de Crohn grave

Gabarito: letra C. Em paciente com doença de Crohn grave, desnutrido, sarcopênico e com hiporexia, a conduta de primeira linha para restabelecer o estado nutricional é a dieta enteral por sonda nasoentérica, pois o trato gastrointestinal é funcional e a nutrição enteral é mais fisiológica, associa-se a menos complicações infecciosas e metabólicas e tem menor custo que a parenteral — princípio consagrado de que "se o intestino funciona, use-o". A via oral está comprometida pela hiporexia e a parenteral fica reservada para quando a enteral é inviável ou insuficiente.

O suporte nutricional é pilar no manejo da doença inflamatória intestinal (DII), especialmente na doença de Crohn, em que a desnutrição é frequente e agrava o prognóstico. Este paciente reúne múltiplos fatores de risco: doença grave em atividade, ressecção de 60 cm de íleo terminal (que compromete a absorção de vitamina B12 e sais biliares), deficiências de ferro, vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K), cálcio, magnésio e ácido fólico, além de hipoalbuminemia, anemia e sarcopenia. A hiporexia impede que a via oral isolada atinja as metas calórico-proteicas, e a sarcopenia indica depleção grave que precisa ser revertida com urgência.

A nutrição enteral (NE) é a via preferencial sempre que o trato digestório é funcional e acessível. Ela preserva a integridade da mucosa intestinal, estimula o trofismo das vilosidades, mantém a barreira imunológica local e reduz a translocação bacteriana. No paciente com Crohn, a NE também tem papel terapêutico: dietas elementares ou semielementares podem induzir remissão da doença ativa, especialmente em doença do intestino delgado, com eficácia comparável aos corticosteroides em crianças e adolescentes. No adulto, o papel é mais coadjuvante, mas o suporte nutricional agressivo é essencial para melhorar o estado geral e preparar o terreno para o tratamento medicamentoso e, se necessário, cirúrgico.

A via parenteral (NPT) não deve ser a primeira escolha neste cenário, pois o intestino está funcionante — não há íleo paralítico, obstrução ou instabilidade hemodinâmica que a contraindiquem. A NPT é mais cara, associa-se a maior risco de infecção de corrente sanguínea, esteatose hepática, colestase e complicações metabólicas, e não oferece os benefícios tróficos da via enteral. A diretriz é clara: "se o intestino funciona, use-o". A via oral, por sua vez, é insuficiente pela hiporexia, e a alternativa de "insistir" com dieta oral, mesmo com suplementos, não garante o aporte necessário em um paciente com depleção grave.

A ressecção ileal extensa (60 cm) traz consequências específicas que precisam ser manejadas em paralelo: deficiência de vitamina B12 (absorvida exclusivamente no íleo terminal), má absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis por depleção do pool de sais biliares, e diarreia secretora por ácidos biliares. A suplementação de B12 deve ser parenteral; a dieta pode ser enriquecida com triglicerídeos de cadeia média (TCM), que não dependem de sais biliares para absorção. Esses detalhes não mudam a via de administração da dieta, mas orientam a composição da fórmula enteral.

A pegadinha central desta questão é a tentação de escolher a via parenteral por achar que um paciente grave, desnutrido e com doença inflamatória extensa "precisa" de NPT. A banca explora exatamente o oposto do que a fisiologia manda: o intestino está funcionante, e a via enteral é superior. O critério decisivo para separar as alternativas é a funcionalidade do trato gastrointestinal: se funciona, enteral; se não funciona ou é inacessível, parenteral. Guarde essa fronteira — é nela que as alternativas se dividem.

  1. 1Intestino funciona?
  2. 2Consegue ingerir via oral?
  3. 3Sonda enteral
  4. 4Parenteral (se enteral inviável)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Insistir na dieta oral com alimentos toleráveis e assistência psicológica é insuficiente. O paciente tem hiporexia (ingestão < 50% das necessidades) e sarcopenia estabelecida, ou seja, já está em depleção grave. Aguardar a recuperação espontânea do apetite, mesmo com apoio psicológico, não restabelece o estado nutricional com a urgência que o caso exige. A via oral pode ser tentada como complemento, mas não como conduta de primeira linha isolada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Aumentar doses de medicamentos e acrescentar suplementos nutricionais orais não resolve o problema central: a incapacidade de ingerir volume suficiente por via oral. Suplementos orais são úteis quando o paciente consegue comer, mas aqui a hiporexia limita a ingestão. Além disso, "aumentar doses de medicamentos" não é conduta nutricional e não substitui o suporte enteral. A via oral, mesmo suplementada, não garante o aporte calórico-proteico necessário para reverter a sarcopenia.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A dieta enteral por cateter nasoentérico é a conduta de primeira linha. O trato gastrointestinal é funcional (não há contraindicação como íleo paralítico, obstrução ou instabilidade hemodinâmica), e a NE permite aporte controlado e completo de nutrientes, incluindo proteínas, calorias, vitaminas e minerais, superando a limitação da hiporexia. É mais fisiológica, mais barata e com menos complicações que a parenteral. A sonda nasoentérica é o acesso mais simples e rápido para iniciar o suporte em paciente internado.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A dieta parenteral (NPT) está indicada quando a via enteral é contraindicada ou insuficiente — por exemplo, em íleo paralítico, obstrução intestinal, isquemia, peritonite ou instabilidade hemodinâmica. Nenhuma dessas condições está presente. Usar NPT como primeira linha em intestino funcionante contraria a diretriz "se o intestino funciona, use-o" e expõe o paciente a riscos desnecessários (infecção de corrente sanguínea, colestase, complicações metabólicas). As transfusões de hemácias não são parte da conduta nutricional de primeira linha; a anemia deve ser tratada com reposição de ferro e B12, e a transfusão fica reservada para casos de instabilidade ou anemia sintomática grave.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A jejunostomia é um acesso cirúrgico para nutrição enteral, indicado quando o acesso por sonda nasoentérica é impossível ou contraindicado (ex.: obstrução gástrica, gastrectomia, fístula gástrica). É um procedimento invasivo, com riscos cirúrgicos e anestésicos, que não se justifica como primeira linha em um paciente que pode receber sonda nasoentérica de forma simples e não cirúrgica. A via enteral por sonda é preferível por ser menos invasiva e reversível.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você escolher a nutrição parenteral (letra D) por associar "paciente grave + desnutrido" a NPT. Mas a regra de ouro é: se o intestino funciona, use-o. A via enteral é sempre preferível quando o trato digestório está íntegro e acessível — e aqui não há contraindicação alguma. A hiporexia não contraindica a via enteral; ela apenas impede a via oral, que é superada pela sonda. Fique atento: NPT é para intestino não funcionante ou inacessível, não para paciente que apenas não consegue comer o suficiente.

PEGA ESSA DICA!

Na prova, monte o raciocínio em cascata: (1) o intestino funciona? → sim → (2) o paciente consegue ingerir por via oral o suficiente? → não (hiporexia) → (3) use sonda enteral. Só pule para parenteral se a resposta da primeira pergunta for "não" (íleo, obstrução, instabilidade). Essa sequência resolve a maioria das questões de suporte nutricional.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/qg541876