Questão de Medicina — Gastroenterologia — INSTITUTO AOCP 2025
Medicina›Gastroenterologia
Código
qg541882
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Joinville - SC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Cirurgião Geral - HPSJ
Um homem leucodérmico com 52 anos de idade, etilista nos últimos 32 anos, desenvolveu pancreatite crônica, que vinha sendo tratada nos últimos nove anos. Há dois anos, surgiu um pseudocisto de corpo pancreático, que tem aumentado seu volume. Nos últimos dois meses, o homem tem apresentado grande desconforto epigástrico em decorrência desse tumor. A tomografia mostrou um tumor cístico iniciado na borda pancreática e medindo cerca de 18 cm em sua maior dimensão. A endoscopia revelou uma compressão extrínseca da parede posterior gástrica, sem outras afecções. Assinale a alternativa que apresenta a melhor conduta para esse caso.
APancreatectomia total para prevenir o câncer e solucionar a dor retroperitoneal.
BSubmeter o homem à exérese do pseudocisto e anastomose pancreatojejunal para drenagem ampla do ducto pancreático.
CInternar o homem para ser submetido à laparostomia, abertura do espaço retrogástrico e derivação pseudocistojejunal lateral.
DAbrir o cisto por gastrotomia ampla, usando endoscopia e ecoendoscopia para sua drenagem em uma pseudocistogastrostomia.
EEsvaziar o cisto por punção transgástrica e injeção de substância esclerosante para evitar recorrência.
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GabaritoD — Abrir o cisto por gastrotomia ampla, usando endoscopia e ecoendoscopia para sua drenagem em uma pseudocistogastrostomia.
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Gabarito: letra D. Para um pseudocisto pancreático sintomático, com 18 cm, em paciente com pancreatite crônica, a conduta de escolha é a drenagem endoscópica (pseudocistogastrostomia), guiada por ecoendoscopia, especialmente quando há abaulamento gástrico evidente — exatamente o que a alternativa D descreve. A abordagem endoscópica é minimamente invasiva, eficaz e preferível à cirurgia aberta na maioria dos casos, conforme as diretrizes atuais de manejo de complicações da pancreatite.
O pseudocisto pancreático é uma coleção líquida encapsulada, rica em amilase, que se forma como complicação da pancreatite aguda ou crônica, geralmente após 4 a 6 semanas do início do quadro. No paciente com pancreatite crônica, a formação de pseudocistos é frequente e pode causar sintomas compressivos — como o desconforto epigástrico e a compressão extrínseca da parede gástrica descritos no enunciado. A indicação de tratamento surge quando o pseudocisto é sintomático, está crescendo ou apresenta complicações (infecção, hemorragia, ruptura). Pseudocistos assintomáticos, independentemente do tamanho, podem ser apenas observados.
Historicamente, o tratamento era cirúrgico, com derivações internas (cistogastrostomia, cistojejunostomia) ou ressecções. Contudo, nas últimas décadas, a drenagem endoscópica tornou-se a modalidade de primeira linha para pseudocistos que fazem abaulamento na parede gástrica ou duodenal. O procedimento consiste em, sob visão endoscópica e com auxílio da ecoendoscopia (USE), identificar o ponto de maior proximidade entre o cisto e a luz gástrica, realizar uma punção e criar uma comunicação (fístula) entre o cisto e o estômago, através da qual o conteúdo é drenado. A USE é fundamental para excluir lesões vasculares no trajeto e para confirmar que a lesão é realmente um pseudocisto e não uma neoplasia cística — distinção crucial, pois o manejo seria completamente diferente.
A escolha entre drenagem endoscópica, percutânea ou cirúrgica depende de fatores como localização, presença de necrose, comunicação com o ducto pancreático e experiência local. No caso apresentado, o pseudocisto de corpo pancreático com abaulamento da parede posterior gástrica é a situação ideal para a abordagem endoscópica transgástrica. A drenagem percutânea (punção com cateter) é uma opção, mas associa-se a maior risco de fístula persistente e infecção, sendo reservada para casos selecionados. A cirurgia, embora eficaz, é mais invasiva e fica para falhas da abordagem endoscópica ou para pseudocistos com características desfavoráveis (ex.: múltiplos, com necrose extensa, ou associados a obstrução ductal que exija derivação cirúrgica).
A alternativa D descreve precisamente a técnica endoscópica: "abrir o cisto por gastrotomia ampla, usando endoscopia e ecoendoscopia para sua drenagem em uma pseudocistogastrostomia". Embora o termo "gastrotomia ampla" possa sugerir um procedimento cirúrgico, na prática a drenagem endoscópica cria uma comunicação cisto-gástrica (pseudocistogastrostomia) sem necessidade de incisão cirúrgica externa. A essência da conduta — drenagem interna guiada por endoscopia e ecoendoscopia — está correta e é a melhor opção para o caso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as modalidades de drenagem. O candidato pode ser tentado a escolher a alternativa C (derivação pseudocistojejunal lateral), que é uma técnica cirúrgica clássica, mas hoje a endoscopia é a primeira escolha. A alternativa E (punção com injeção de esclerosante) é um erro conceitual grave, pois a escleroterapia não é indicada para pseudocistos pancreáticos. A chave é reconhecer que, com o abaulamento gástrico evidente, a via endoscópica transgástrica é a mais adequada.
1Ecoendoscopia (USE)
2Identificar ponto de punção
3Excluir vasos e neoplasia
4Punção transgástrica
5Criar comunicação cisto-gástrica
6Drenagem do conteúdo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A pancreatectomia total é uma cirurgia radical, mutilante, que causa diabetes melito e insuficiência exócrina permanentes. Não é indicada para tratar um pseudocisto, que é uma complicação benigna da pancreatite crônica. A ressecção total do pâncreas é reservada para casos extremamente selecionados de dor intratável refratária a outras terapias, e não para drenagem de pseudocisto. Além disso, a pancreatectomia total não é uma medida de prevenção de câncer nesse contexto, pois o risco de malignização de um pseudocisto é baixo e a cirurgia tem alta morbimortalidade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A exérese do pseudocisto (cistectomia) com anastomose pancreatojejunal é uma técnica cirúrgica que pode ser utilizada em casos selecionados, mas não é a conduta de primeira linha para um pseudocisto com abaulamento gástrico. A cistectomia é mais complexa e arriscada que a drenagem interna, e a pancreaticojejunostomia lateral (Puestow) é indicada para pacientes com ducto pancreático dilatado (> 6 mm) e dor, não para drenagem de pseudocisto isolado. A abordagem endoscópica é menos invasiva e igualmente eficaz, sendo preferível.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A derivação pseudocistojejunal lateral (cistojejunostomia) é uma técnica cirúrgica clássica para drenagem de pseudocistos, mas envolve laparotomia e anastomose do cisto a uma alça jejunal em Y de Roux. Embora eficaz, é mais invasiva que a drenagem endoscópica e está associada a maior morbidade. No caso descrito, com abaulamento gástrico evidente, a via endoscópica transgástrica é a preferida. A laparostomia (manter o abdome aberto) não é indicada para drenagem eletiva de pseudocisto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A drenagem endoscópica transgástrica (pseudocistogastrostomia) guiada por ecoendoscopia é a conduta de escolha para pseudocistos sintomáticos que fazem abaulamento na parede gástrica. O procedimento é minimamente invasivo, eficaz e com menor morbidade que a cirurgia. A ecoendoscopia permite identificar o ponto ideal de punção, excluir vasos interpostos e confirmar o diagnóstico. A alternativa descreve corretamente a técnica, sendo a melhor opção para o caso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A punção transgástrica com injeção de substância esclerosante não é uma técnica reconhecida para o tratamento de pseudocistos pancreáticos. A escleroterapia é utilizada em outras condições (ex.: varizes, cistos renais), mas não em pseudocistos pancreáticos, pois o risco de infecção, hemorragia e recorrência é alto. A drenagem percutânea com cateter pode ser uma opção em casos selecionados, mas a injeção de esclerosante não é indicada.