Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Hematologia — INSTITUTO AOCP 2025

MedicinaHematologia
Código
qg541969
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Joinville - SC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Hematologista
Em relação à hemocromatose hereditária (HH), assinale a alternativa correta.
  1. AA HH leva à demência precoce pelo depósito de ferro nos corpos calosos.
  2. BA maioria dos casos de HH é causada por homozigose para a variante C282Y no gene HFE.
  3. CFlebotomia não faz parte do tratamento da HH.
  4. DÉ necessário cerca de um ano de absorção excessiva de ferro sem perda concomitante de sangue para que ocorra deposição clinicamente significativa de ferro nos tecidos.
  5. ETodos os indivíduos homozigotos para a variante C282Y desenvolvem sobrecarga de ferro e HH, por isso é importante o rastreio.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — A maioria dos casos de HH é causada por homozigose para a variante C282Y no gene HFE.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Hemocromatose Hereditária: genética, clínica e tratamento

Gabarito: letra B. A hemocromatose hereditária (HH) é uma doença autossômica recessiva do metabolismo do ferro, e a maioria dos casos está associada à homozigose para a variante C282Y no gene HFE — mais de 90% dos casos têm mutação nesse gene, sendo as formas não-HFE raras. As demais alternativas distorcem aspectos centrais da doença: a flebotomia é, sim, o tratamento de escolha; a deposição tecidual clinicamente significativa leva décadas, não um ano; e nem todo homozigoto C282Y desenvolve sobrecarga de ferro.

A hemocromatose hereditária é uma doença genética caracterizada por sobrecarga sistêmica de ferro decorrente do aumento inapropriado da absorção intestinal desse mineral. O mecanismo fisiopatológico central é a deficiência de hepcidina, um peptídeo sintetizado principalmente no fígado que regula os estoques de ferro ao inibir a absorção intestinal. Como não há processo fisiológico de excreção de ferro — exceto por perda sanguínea ou descamação de células da mucosa intestinal e epiderme —, o excesso absorvido se acumula e lesa órgãos-alvo: fígado (cirrose e carcinoma hepatocelular), pâncreas (diabetes melito), gônadas (hipogonadismo), miocárdio (insuficiência cardíaca), além de artropatia e coloração escurecida da pele.

A base genética é o ponto central da questão. O gene HFE é o principal envolvido, e as mutações C282Y e H63D são as mais comumente relacionadas ao desenvolvimento da doença. A homozigose para C282Y é o genótipo clássico e de maior penetrância, responsável pela grande maioria dos casos diagnosticados. Contudo, é fundamental entender que nem todos os homozigotos C282Y desenvolvem sobrecarga de ferro clinicamente significativa — a penetrância é incompleta, influenciada por fatores ambientais (ingestão de ferro, álcool) e genéticos. Por isso, o rastreio populacional indiscriminado não é recomendado; a investigação deve ser dirigida a pacientes com suspeita clínica ou história familiar.

O diagnóstico se baseia nos exames do metabolismo do ferro, na análise genética do gene HFE e, em casos selecionados, na histologia hepática. O teste de rastreamento é a saturação da transferrina, considerada positiva quando superior a 45% — e não a ferritina sérica, que pode estar elevada por esteatose hepática ou inflamação sistêmica sem sobrecarga de ferro. O tratamento de primeira linha é a flebotomia terapêutica (sangrias periódicas), com indução semanal ou bissemanal até ferritina sérica em 50 µg/L e manutenção de 2 a 6 flebotomias por ano para manter ferritina entre 50 e 100 µg/L. Os quelantes de ferro (desferroxamina, deferiprona, deferasirox) são reservados para pacientes intolerantes ou refratários à flebotomia, ou quando esta é potencialmente danosa (anemia grave, insuficiência cardíaca congestiva).

A pegadinha da questão está em inverter fatos consolidados sobre a doença: trocar o órgão-alvo neurológico (a demência precoce não é característica da HH — o acúmulo cerebral de ferro é típico de outras condições, como a doença de Wilson, que acumula cobre), negar o tratamento padrão (flebotomia), subestimar o tempo necessário para dano tecidual (décadas, não um ano) e superestimar a penetrância da mutação (nem todo homozigoto adoece). Guarde esses quatro pontos: eles são exatamente o que separa a alternativa correta das incorretas.

Critério

Hemocromatose Hereditária (HH)

Doença de Wilson

Metal acumulado

Ferro

Cobre

Órgãos-alvo principais

Fígado, pâncreas, coração, gônadas, pele

Fígado e cérebro (núcleos da base)

Manifestação neurológica

Não é proeminente (demência precoce não é típica)

Distúrbios neuropsiquiátricos, disartria, tremor

Sinal ocular característico

Não há

Anéis de Kayser-Fleischer

Tratamento de primeira linha

Flebotomia terapêutica

Quelantes de cobre (D-penicilamina, trientina)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que a HH leva à demência precoce pelo depósito de ferro nos corpos calosos. Erro duplo: o acúmulo de ferro na HH atinge preferencialmente fígado, pâncreas, coração, gônadas e pele — não o sistema nervoso central de forma proeminente. A demência precoce com depósito cerebral é característica de outras doenças de acúmulo, como a doença de Wilson (que acumula cobre, não ferro, e cursa com distúrbios neuropsiquiátricos e anéis de Kayser-Fleischer). A banca trocou o metal e o órgão-alvo para confundir.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A maioria dos casos de HH é causada por homozigose para a variante C282Y no gene HFE. Mais de 90% dos casos estão associados a mutações no gene HFE, e a homozigose C282Y é o genótipo mais frequente e de maior penetrância entre os pacientes com manifestação clínica. As formas não-HFE (tipos II, III e IV) são raras. A alternativa espelha com precisão a epidemiologia genética da doença.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que a flebotomia não faz parte do tratamento. É exatamente o contrário: a flebotomia é o tratamento de escolha da HH, com indução semanal ou bissemanal até ferritina sérica em 50 µg/L e manutenção de 2 a 6 sangrias por ano para manter ferritina entre 50 e 100 µg/L. Os quelantes de ferro são alternativa apenas para pacientes intolerantes, refratários ou com contraindicação à flebotomia (anemia grave, insuficiência cardíaca congestiva, acesso venoso difícil).

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma que cerca de um ano de absorção excessiva de ferro sem perda sanguínea é suficiente para deposição clinicamente significativa. Subestima drasticamente o tempo: a sobrecarga de ferro na HH é um processo insidioso e lento, levando décadas para produzir dano tecidual clinicamente relevante — por isso a doença costuma se manifestar na idade adulta, entre a 4ª e 5ª décadas de vida. O acúmulo diário de ferro é pequeno (alguns miligramas), e a capacidade de estoque do organismo é grande, o que retarda o aparecimento dos sintomas.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que todos os homozigotos C282Y desenvolvem sobrecarga de ferro e HH, justificando o rastreio. Erro de penetrância: a homozigose C282Y tem penetrância incompleta — uma proporção significativa de homozigotos nunca desenvolve sobrecarga de ferro clinicamente significativa. Fatores ambientais (ingestão de ferro, consumo de álcool) e genéticos modulam a expressão da doença. Por isso, o rastreio populacional indiscriminado não é recomendado; a investigação genética deve ser dirigida a pacientes com suspeita clínica, alterações nos exames de ferro ou história familiar positiva.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre as doenças de acúmulo de metais: na hemocromatose o ferro se deposita no fígado, pâncreas, coração e gônadas; na doença de Wilson o cobre se acumula no fígado e no cérebro, causando distúrbios neuropsiquiátricos e anéis de Kayser-Fleischer. A alternativa A troca exatamente esses órgãos-alvo. Além disso, a letra E inverte o conceito de penetrância — nem todo homozigoto C282Y adoece, e é por isso que o rastreio populacional não é indicado. Com treino, você identifica essas inversões de longe 💪.

PEGA ESSA DICA!

Para fixar os quatro pilares da HH, monte um esquema mental: genética (homozigose C282Y no gene HFE, penetrância incompleta) → fisiopatologia (deficiência de hepcidina → absorção excessiva de ferro) → diagnóstico (saturação da transferrina > 45%, não ferritina) → tratamento (flebotomia de primeira linha; quelantes apenas como alternativa). Na prova, desconfie de alternativas que neguem a flebotomia, superestimem a penetrância ou troquem os órgãos-alvo.

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/qg541969