Questão de Medicina — Hematologia — INSTITUTO AOCP 2025
Medicina›Hematologia
Código
qg541983
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Joinville - SC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Hematologista
Considerando que você trabalha em um ambulatório municipal de pacientes com mieloma múltiplo, assinale a alternativa que apresenta o caso com pior prognóstico.
AMulher, 70 anos, anemia leve e osteopenia, beta-2-microglobulina 3,0 mg/L, albumina 3,8 g/dL, desidrogenase lática normal.
BHomem, 72 anos, insuficiência renal e anemia moderada, beta-2-microglobulina 6,2 mg/L, albumina 3,0 g/dL, deleção 17p presente.
CHomem, 62 anos, dor lombar crônica, beta-2-microglobulina 2,9 mg/L, albumina 4,0 g/dL, desidrogenase lática normal.
DMulher, 59 anos, dor torácica por lesões líticas, beta-2-microglobulina 4,8 mg/L, albumina 3,7 g/dL, desidrogenase lática levemente aumentada.
GabaritoB — Homem, 72 anos, insuficiência renal e anemia moderada, beta-2-microglobulina 6,2 mg/L, albumina 3,0 g/dL, deleção 17p presente.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Mieloma múltiplo: fatores prognósticos e o R-ISS
Gabarito: letra B. O caso de pior prognóstico é o que reúne os marcadores de doença avançada e de alto risco citogenético: beta-2-microglobulina elevada (6,2 mg/L), albumina baixa (3,0 g/dL), insuficiência renal e deleção 17p presente — esta última é uma anormalidade cromossômica de alto risco que, isoladamente, já confere prognóstico desfavorável, conforme o Revised International Staging System (R-ISS) para mieloma múltiplo.
O mieloma múltiplo é uma neoplasia maligna de plasmócitos que se acumulam na medula óssea, produzindo uma imunoglobulina monoclonal (proteína M) e causando lesões ósseas líticas, anemia, insuficiência renal e imunossupressão. O prognóstico não é uniforme: depende do estádio da doença e do perfil citogenético das células tumorais. Para estratificar o risco, a prática clínica utiliza o R-ISS, que combina três eixos principais: (1) os níveis séricos de beta-2-microglobulina (β2M) e albumina, que refletem a carga tumoral e o estado nutricional/inflamatório; (2) a desidrogenase láctica (LDH), marcador de agressividade tumoral; e (3) as anormalidades cromossômicas de alto risco, identificadas por FISH — deleção 17p, translocações t(4;14) e t(14;16).
A lógica do sistema é simples: quanto mais marcadores adversos o paciente acumula, pior a sobrevida. No estádio I (β2M < 3,5 mg/L, albumina ≥ 3,5 g/dL, LDH normal e citogenética de risco padrão), a sobrevida em 5 anos é de cerca de 82%. No estádio III (β2M > 5,5 mg/L, ou citogenética de alto risco, ou LDH elevado), cai para cerca de 40%. A deleção 17p, em particular, é um dos fatores de pior prognóstico conhecidos — está associada a doença mais agressiva, menor resposta ao tratamento e sobrevida mais curta, sendo indicação de terapias mais intensivas.
Além do R-ISS, outros fatores clínicos pioram o prognóstico: insuficiência renal (presente em cerca de 25% dos pacientes), estádio avançado da doença, níveis elevados de LDH, albumina sérica diminuída e elevação da β2-microglobulina. A insuficiência renal no mieloma costuma ser multifatorial — hipercalcemia, hiperuricemia, infecção, deposição de amiloide e lesão tubular direta pelas cadeias leves — e sua presença já confere pior evolução. Na prática, o paciente que junta insuficiência renal + β2M muito elevada + albumina baixa + deleção 17p tem um perfil inequivocamente de alto risco.
A pegadinha desta questão está em não se deixar enganar pelos sintomas ósseos dramáticos (fraturas, dor lombar, lesões líticas), que são comuns e chamam atenção, mas não são o que define o prognóstico. O que decide é a combinação dos marcadores laboratoriais e citogenéticos. A alternativa B é a única que apresenta simultaneamente os três piores marcadores do R-ISS (β2M alta, albumina baixa, deleção 17p) somados à insuficiência renal — um quadro de estádio avançado e alto risco citogenético. As demais alternativas, mesmo com sintomas ósseos importantes, têm β2M mais baixa, albumina mais preservada e, crucialmente, ausência de anormalidade citogenética de alto risco.
Guarde o critério decisivo: no mieloma múltiplo, o prognóstico é definido pelo R-ISS (β2M + albumina + LDH + citogenética), não pela gravidade dos sintomas ósseos. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se separam.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Apresenta um perfil de bom prognóstico: β2M 3,0 mg/L (baixa), albumina 3,8 g/dL (normal), LDH normal e sem anormalidade citogenética de alto risco. A anemia leve e a osteopenia são manifestações comuns da doença, mas não são fatores prognósticos independentes no R-ISS. Este caso se enquadraria no estádio I, com sobrevida em 5 anos em torno de 82%.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
É o caso de pior prognóstico. Reúne: β2M 6,2 mg/L (muito elevada, > 5,5 mg/L — critério de estádio III), albumina 3,0 g/dL (baixa), insuficiência renal (fator adverso independente) e, sobretudo, deleção 17p presente — anormalidade citogenética de alto risco que, por si só, confere prognóstico desfavorável e indica terapias mais intensivas. A combinação de estádio avançado + alto risco citogenético + disfunção renal coloca este paciente no grupo de pior sobrevida.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Perfil de bom prognóstico: β2M 2,9 mg/L (baixa), albumina 4,0 g/dL (normal), LDH normal e sem citogenética de alto risco. A dor lombar crônica é sintoma comum do mieloma, mas não altera o estadiamento prognóstico. Enquadra-se no estádio I do R-ISS.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Apresenta β2M 4,8 mg/L (intermediária), albumina 3,7 g/dL (normal) e LDH levemente aumentada. A LDH elevada é um fator adverso, mas isoladamente não supera o peso da deleção 17p + β2M muito alta + insuficiência renal da alternativa B. Este caso ficaria no estádio II (ou III, se a LDH for considerada elevada), com prognóstico intermediário — melhor que o da alternativa B.
Alternativa E — ❌ Incorreta
β2M 3,2 mg/L (baixa), albumina 3,2 g/dL (levemente baixa), LDH normal e sem citogenética de alto risco. As fraturas vertebrais múltiplas são manifestação óssea grave, mas não são fator prognóstico no R-ISS. A albumina discretamente reduzida pode indicar estádio II, mas o prognóstico permanece muito melhor que o da alternativa B.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de associar "pior prognóstico" aos sintomas ósseos mais dramáticos (fraturas múltiplas, lesões líticas extensas). No mieloma, porém, o que define o prognóstico é o R-ISS — β2M, albumina, LDH e citogenética — e não a gravidade da dor ou das fraturas. A alternativa E, com fraturas vertebrais múltiplas, parece grave, mas tem β2M baixa e sem deleção 17p; a B, com menos sintomas ósseos descritos, é a de pior prognóstico pelos marcadores. Fique atento: leia sempre os números e a citogenética antes de decidir.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de prognóstico em mieloma múltiplo, monte mentalmente o R-ISS: β2M < 3,5 (bom) / 3,5–5,5 (intermediário) / > 5,5 (ruim); albumina ≥ 3,5 (bom) / < 3,5 (ruim); LDH normal (bom) / elevado (ruim); citogenética de risco padrão (bom) / deleção 17p, t(4;14), t(14;16) (ruim). O pior caso é o que acumula mais marcadores ruins — e a deleção 17p é o fator isolado mais temido.