Questão de Medicina — Medicina Intensiva — INSTITUTO AOCP 2025
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg541993
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Joinville - SC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Intensivista
Paciente de 58 anos, com cirrose hepática alcoólica, internado por ascite refratária, evolui com piora progressiva da função renal (creatinina de 1,2 para 3,8 mg/dL em 48 horas). Não há sinais de choque, não usou drogas nefrotóxicas, e a ultrassonografia renal está normal. Após expansão volêmica com cristaloide e depois albumina por 2 dias, a creatinina permanece elevada. Qual é a terapia farmacológica de primeira escolha para o tratamento da síndrome hepatorrenal (lesão renal aguda da síndrome hepatorrenal - LRA-SHR)?
ADopamina em baixa dose para promover vasodilatação renal.
BNorepinefrina para aumentar a pressão arterial média e a perfusão renal.
CFurosemida associada à infusão de albumina.
DOctreotide associada à infusão de albumina.
ETerlipressina associada à infusão de albumina.
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GabaritoE — Terlipressina associada à infusão de albumina.
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Síndrome Hepatorrenal (SHR) e o tratamento farmacológico
Gabarito: letra E. Na síndrome hepatorrenal (SHR), a terapia farmacológica de primeira escolha é a terlipressina associada à albumina, pois a terlipressina é um análogo da vasopressina que atua como vasoconstritor esplâncnico, revertendo a vasodilatação que desencadeia a vasoconstrição renal e a queda da filtração glomerular. Essa conduta é respaldada pelas diretrizes do International Club of Ascites (ICA) e pela literatura médica, que demonstram melhora da função renal e da sobrevida com essa combinação.
A síndrome hepatorrenal é uma forma de insuficiência renal funcional que ocorre em pacientes com cirrose avançada e ascite, na qual os rins estão estruturalmente normais, mas a perfusão renal está drasticamente reduzida. A fisiopatologia central envolve uma vasodilatação arterial esplâncnica intensa, mediada por óxido nítrico e outras substâncias vasodilatadoras que não são devidamente depuradas pelo fígado cirrótico. Essa vasodilatação é interpretada pelos barorreceptores como uma diminuição do volume circulante efetivo, levando à ativação de sistemas vasoconstritores (sistema renina-angiotensina-aldosterona, catecolaminas, vasopressina) que, no território renal, causam vasoconstrição renal intensa, redução da taxa de filtração glomerular e, consequentemente, a lesão renal aguda.
O diagnóstico da SHR é de exclusão e segue critérios bem definidos. No caso apresentado, o paciente preenche os critérios: cirrose com ascite, aumento da creatinina ≥ 0,3 mg/dL em 48 horas, ausência de choque, ausência de drogas nefrotóxicas, ultrassonografia renal normal e falha na resposta à expansão volêmica com albumina por 48 horas. A primeira medida terapêutica é a suspensão de diuréticos e de outros medicamentos que possam piorar a função renal. Em seguida, após confirmada a ausência de resposta à expansão isolada com albumina, inicia-se a terapia farmacológica combinada.
O tratamento farmacológico da SHR baseia-se na combinação de albumina (para expansão volêmica e manutenção do volume circulante efetivo) com vasoconstritores esplâncnicos. Entre os vasoconstritores, a terlipressina é a mais estudada e a de primeira escolha, sendo um análogo sintético da vasopressina com ação seletiva nos receptores V1, promovendo vasoconstrição esplâncnica e sistêmica, o que melhora a perfusão renal. A associação de terlipressina e albumina está relacionada à melhora da função renal e da sobrevida, com taxas de resposta completa que variam de 32% a 50%. A dose inicial é de 0,5-1 mg a cada 4-6 horas, podendo ser aumentada até 2 mg a cada 4-6 horas na ausência de redução de pelo menos 25% da creatinina em 72 horas. A infusão contínua de terlipressina também é uma opção, com resposta similar à terapia em bolus, porém com menor incidência de efeitos colaterais.
A alternativa E é a correta, pois a terlipressina é o vasoconstritor de primeira escolha na SHR, e sua associação com albumina é o tratamento padrão. As demais alternativas apresentam opções que não são a primeira escolha ou que não são indicadas isoladamente para o tratamento da SHR. A dopamina em baixa dose (alternativa A) não tem papel comprovado na SHR, pois não reverte a vasoconstrição renal e pode até piorar a perfusão. A norepinefrina (alternativa B) é uma alternativa à terlipressina, mas não é a primeira escolha, sendo utilizada em contextos específicos, como indisponibilidade da terlipressina. A furosemida (alternativa C) é contraindicada na SHR, pois pode piorar a hipovolemia e a função renal. O octreotide (alternativa D) é um vasoconstritor esplâncnico, mas sua eficácia isolada é limitada, sendo mais utilizado em combinação com midodrina, e não é a primeira escolha.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que, embora a norepinefrina seja um vasopressor utilizado na SHR, a terlipressina é a primeira escolha por ser o análogo da vasopressina mais estudado e com maior evidência de benefício. Além disso, a furosemida, que poderia ser considerada para o manejo da ascite, é contraindicada na SHR, pois pode agravar a lesão renal. O octreotide, embora seja um vasoconstritor esplâncnico, não é a primeira escolha isoladamente.
Síndrome Hepatorrenal (SHR): Fisiopatologia (Vasodilatação esplâncnica, Vasoconstrição renal, Queda da filtração glomerular); Diagnóstico (exclusão) (Cirrose + ascite, Creatinina ↑ ≥ 0,3 mg/dL em 48h, Sem choque / nefrotóxicos, US renal normal, Falha à expansão com albumina); Tratamento farmacológico (Terlipressina + albumina (1ª escolha), Norepinefrina (alternativa), Furosemida (contraindicada), Octreotide (eficácia limitada))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A dopamina em baixa dose, na chamada "dose renal", não tem evidência de benefício na SHR. Ela não reverte a vasoconstrição renal e pode até piorar a perfusão renal. O tratamento da SHR exige vasoconstritores esplâncnicos, não vasodilatadores renais.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A norepinefrina é um vasopressor que pode ser utilizado na SHR, mas não é a primeira escolha. A terlipressina é o vasoconstritor de primeira linha, sendo a norepinefrina uma alternativa em casos de indisponibilidade ou contraindicação à terlipressina. Além disso, a norepinefrina deve ser sempre associada à albumina.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A furosemida é um diurético de alça, e seu uso é contraindicado na SHR, pois pode piorar a hipovolemia e a função renal. A SHR é caracterizada por hipovolemia relativa, e a depleção de volume adicional com diuréticos agrava a vasoconstrição renal. A albumina isolada também não é suficiente para o tratamento da SHR após falha da expansão inicial.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O octreotide é um análogo da somatostatina que atua como vasoconstritor esplâncnico, mas sua eficácia isolada é limitada. Ele é mais utilizado em combinação com midodrina, e não é a primeira escolha para o tratamento da SHR. A terlipressina é o vasoconstritor de primeira linha.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A terlipressina é um análogo da vasopressina que atua como vasoconstritor esplâncnico, revertendo a vasodilatação que desencadeia a SHR. Sua associação com albumina é o tratamento farmacológico de primeira escolha, com evidência de melhora da função renal e da sobrevida. A dose inicial é de 0,5-1 mg a cada 4-6 horas, com ajuste conforme a resposta.