Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Medicina Intensiva — INSTITUTO AOCP 2025

MedicinaMedicina Intensiva
Código
qg541994
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Joinville - SC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Intensivista
A avaliação da resposta à reposição volêmica em pacientes críticos é um desafio. Qual dos seguintes parâmetros dinâmicos é considerado o melhor preditor de fluidorresponsividade em um paciente sob ventilação mecânica controlada com volume corrente de 8 ml/kg e sem incursões respiratórias espontâneas?
  1. ADébito urinário.
  2. BNível de lactato arterial.
  3. CSaturação venosa mista de oxigênio (SvO2).
  4. DMedida da pressão venosa central (PVC).
  5. EVariação da pressão de pulso.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Variação da pressão de pulso.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Fluidorresponsividade: índices dinâmicos versus estáticos

Gabarito: letra E. Em paciente sob ventilação mecânica controlada, sem incursões respiratórias espontâneas e com volume corrente de 8 ml/kg, a variação da pressão de pulso (VPP) é o melhor preditor de fluidorresponsividade entre as opções, pois é um índice dinâmico que explora a interação coração-pulmão — diferentemente da PVC, do débito urinário, do lactato e da SvO2, que são parâmetros estáticos ou de perfusão, incapazes de predizer a resposta ao volume com a mesma acurácia.

A avaliação da resposta à reposição volêmica é um dos maiores desafios na medicina intensiva. O conceito central é a fluidorresponsividade: a capacidade de o débito cardíaco aumentar (tipicamente ≥ 10–15%) em resposta à infusão de fluidos. Estima-se que apenas cerca de 50% dos pacientes instáveis hemodinamicamente sejam fluidorresponsivos — ou seja, metade não se beneficia do volume e pode, inclusive, sofrer danos com a sobrecarga (edema pulmonar, piora da oxigenação, maior tempo de ventilação mecânica). Por isso, predizer quem responde é essencial.

Os parâmetros estáticos — pressão venosa central (PVC), pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP), débito urinário, lactato, SvO2 — medem um "retrato" do momento, mas não avaliam a resposta do coração a uma variação de pré-carga. A literatura é clara: a PVC e a POAP não predizem fluidorresponsividade, pois um mesmo valor de pré-carga pode estar associado a respostas diferentes dependendo da função ventricular (curva de Frank-Starling). Já os índices dinâmicos — variação da pressão de pulso (VPP), variação do volume sistólico (VVS), variação da pressão sistólica (VPS), variação do diâmetro da veia cava inferior (ΔVCI) — baseiam-se na interação coração-pulmão durante a ventilação mecânica: a pressão positiva inspiratória reduz o retorno venoso e a pré-carga do ventrículo direito, gerando variações cíclicas no volume sistólico e na pressão arterial. Quanto maior essa variação, maior a probabilidade de o paciente estar na porção ascendente da curva de Frank-Starling e, portanto, de responder a volume.

A VPP é calculada pela fórmula: VPP = (PPmáx − PPmín) / [(PPmáx + PPmín)/2], com valor de corte > 13% para predizer fluidorresponsividade (área sob a curva de 0,98 no estudo clássico de Michard). É importante destacar que esses índices foram validados em condições específicas: ventilação mecânica controlada, sem esforço respiratório espontâneo, volume corrente > 8 ml/kg, ritmo sinusal, sem disfunção de ventrículo direito e sem hipertensão intra-abdominal. O enunciado descreve exatamente esse cenário ideal (VM controlada, VC 8 ml/kg, sem incursões espontâneas), o que torna a VPP o preditor mais confiável entre as alternativas.

A pegadinha da questão está em distinguir parâmetros de perfusão tecidual (lactato, SvO2, débito urinário) e parâmetros estáticos de pré-carga (PVC) dos índices dinâmicos de fluidorresponsividade (VPP, VVS, ΔVCI). Lactato e SvO2 indicam se há má perfusão, mas não dizem se o paciente responderá a volume. Débito urinário é um marcador tardio e inespecífico. A PVC, como visto, é um péssimo preditor. A VPP, por ser dinâmica e validada no cenário descrito, é a resposta correta.

Guarde a fronteira: estático vs. dinâmico é o critério que separa as alternativas — as quatro primeiras são estáticas ou de perfusão; apenas a letra E é um índice dinâmico validado para fluidorresponsividade.

Alternativa A — ❌ Incorreta

O débito urinário é um parâmetro de perfusão tecidual (marcador de função renal e perfusão global), não um preditor de fluidorresponsividade. Ele reflete a consequência da perfusão, não a probabilidade de o débito cardíaco aumentar com volume. Além disso, é influenciado por múltiplos fatores (drogas vasoativas, diuréticos, lesão renal aguda) e tem resposta tardia às alterações hemodinâmicas.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O lactato arterial é um marcador de perfusão tecidual e de gravidade (hipoperfusão, anaerobiose), útil para monitorar a resposta global ao tratamento, mas não prediz fluidorresponsividade. Um paciente pode ter lactato elevado por diversas causas (isquemia, disfunção mitocondrial, insuficiência hepática) e não responder a volume. É um parâmetro estático de perfusão, não um índice dinâmico.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A saturação venosa mista de oxigênio (SvO2) — ou sua substituta, a saturação venosa central (SvcO2) — é um parâmetro de perfusão tecidual que reflete o balanço entre oferta e consumo de oxigênio. Valores baixos indicam extração aumentada de O2 (má perfusão), mas não informam se o paciente está na porção ascendente da curva de Frank-Starling. É um marcador de adequação da perfusão, não um preditor de resposta a volume.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A pressão venosa central (PVC) é o paradigma dos parâmetros estáticos. Estudos e revisões sistemáticas (como a de Marik) demonstraram que a PVC não tem relação com o estado volêmico nem prediz resposta à infusão de volume. Sofre influência de disfunção diastólica, hipertensão pulmonar e PEEP. Apesar de ainda ser muito monitorizada na UTI, seu uso como guia de reposição volêmica é desencorajado pelas evidências atuais.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A variação da pressão de pulso (VPP) é um índice dinâmico que explora a interação coração-pulmão durante a ventilação mecânica. No cenário descrito (VM controlada, VC 8 ml/kg, sem esforço espontâneo), a VPP > 13% prediz fluidorresponsividade com alta acurácia (AUC 0,98). É exatamente o parâmetro validado para essa situação clínica, sendo superior aos parâmetros estáticos e de perfusão listados nas demais alternativas.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura parâmetros de perfusão tecidual (lactato, SvO2, débito urinário) e estáticos (PVC) com índices dinâmicos (VPP). O candidato que não domina a distinção pode marcar lactato ou SvO2 por associá-los a "choque". Lembre-se: fluidorresponsividade é sobre pré-carga e curva de Frank-Starling, não sobre perfusão. A VPP é a única opção que avalia diretamente a resposta do débito cardíaco a uma variação de pré-carga.

PEGA ESSA DICA!

Para questões de fluidorresponsividade, pergunte-se: "este parâmetro avalia a resposta a uma variação de pré-carga?" Se for estático (PVC, POAP, diâmetros) ou de perfusão (lactato, SvO2, débito urinário), não é preditor. Índices dinâmicos (VPP, VVS, ΔVCI, elevação passiva de pernas) são os corretos — e exigem VM controlada, sem esforço espontâneo, VC > 8 ml/kg e ritmo sinusal.

Gabarito: letra E

Link permanente: /questoes/qg541994