Questão de Medicina — Medicina Intensiva — INSTITUTO AOCP 2025
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qg542000
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
Prefeitura de Joinville - SC
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico Plantonista Intensivista
Paciente de 64 anos, internado na UTI por choque séptico de foco abdominal, iniciou antibioticoterapia empírica, há 72 horas, com piperacilina-tazobactam e vancomicina, apresentando melhora clínica significativa, com estabilidade hemodinâmica, queda dos marcadores inflamatórios e afebril. As culturas (hemocultura e cultura de líquido peritoneal) identificaram Escherichia coli sensível a ceftriaxona. Nesse caso, a conduta antimicrobiana mais adequada é
Amanter o esquema atual por 10 dias para garantir a erradicação.
Bsubstituir piperacilina-tazobactam por meropenem.
Csuspender vancomicina e manter piperacilina-tazobactam.
Dassociar amicacina ao esquema atual.
Esuspender os dois antibióticos e iniciar ceftriaxona.
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GabaritoE — suspender os dois antibióticos e iniciar ceftriaxona.
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Terapia antimicrobiana direcionada no choque séptico
Gabarito: letra E. Com a identificação do patógeno (Escherichia coli) e do seu perfil de sensibilidade (sensível a ceftriaxona), a conduta mais adequada é suspender os antibióticos de amplo espectro (piperacilina-tazobactam e vancomicina) e iniciar ceftriaxona, otimizando o tratamento com base no resultado da cultura e do antibiograma. Essa é a recomendação central da terapia antimicrobiana direcionada ("streamlining" ou "descalonamento"), que visa reduzir a pressão seletiva por resistência bacteriana, a toxicidade e os custos, mantendo a eficácia clínica.
O princípio que rege essa conduta é a otimização da antibioticoterapia após o resultado microbiológico. No choque séptico, a terapia empírica inicial deve ser de amplo espectro, cobrindo os patógenos mais prováveis, como foi feito com piperacilina-tazobactam (cobre Gram-negativos, incluindo Pseudomonas, e anaeróbios) e vancomicina (cobre Gram-positivos resistentes, como MRSA). No entanto, uma vez que a cultura identifica o agente etiológico e o antibiograma demonstra sensibilidade a um antibiótico de espectro mais estreito, a conduta recomendada é descalonar (ou "streamline") a terapia, substituindo o esquema empírico por um esquema direcionado ao patógeno isolado.
A E. coli é um bacilo Gram-negativo da família Enterobacteriaceae. A ceftriaxona, uma cefalosporina de terceira geração, é uma excelente opção para o tratamento de infecções por enterobactérias sensíveis, com boa penetração tecidual e perfil de segurança estabelecido. Manter o esquema de amplo espectro desnecessariamente, como na alternativa A, aumenta o risco de seleção de bactérias multirresistentes, além de expor o paciente a potenciais efeitos adversos (ex.: nefrotoxicidade da vancomicina, distúrbios hematológicos do tazobactam). A alternativa B (substituir por meropenem) é um erro grave, pois o meropenem é um carbapenêmico, reservado para infecções por bactérias produtoras de beta-lactamases de espectro estendido (ESBL) ou outras resistências, e não deve ser usado quando há opção de espectro mais estreito e sensível. A alternativa C (suspender vancomicina e manter piperacilina-tazobactam) é parcialmente correta, mas não otimiza a terapia, pois a piperacilina-tazobactam tem espectro mais amplo que o necessário e não é a primeira escolha para uma E. coli sensível à ceftriaxona. A alternativa D (associar amicacina) é desnecessária e potencialmente nefrotóxica, pois a monoterapia com ceftriaxona é suficiente para o tratamento de infecções por enterobactérias sensíveis.
A duração do tratamento também deve ser considerada. Para infecções intra-abdominais com controle de foco adequado, a duração recomendada é de 4 a 7 dias, e não 10 dias como sugere a alternativa A. A resposta clínica favorável (melhora hemodinâmica, queda de marcadores inflamatórios, afebril) após 72 horas de tratamento empírico reforça a adequação da terapia, mas não justifica a manutenção de um esquema de amplo espectro quando o agente etiológico é conhecido e sensível a uma opção mais estreita.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que a melhora clínica com o esquema empírico não é motivo para mantê-lo indefinidamente. O princípio da terapia direcionada (ou "descalonamento") é um pilar do manejo racional de antimicrobianos, especialmente em UTI, e a banca explora exatamente a tendência do candidato em "não mexer em time que está ganhando". A conduta correta é sempre revisar a antibioticoterapia após 48-72 horas, quando os resultados das culturas estão disponíveis, e ajustar o esquema para o antibiótico mais estreito e eficaz contra o patógeno isolado.
1Empírica de amplo espectro
2Cultura + antibiograma (48-72h)
3Descalonar para o mais estreito
4Duração 4-7 dias (foco controlado)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Manter o esquema atual (piperacilina-tazobactam + vancomicina) por 10 dias é um erro por dois motivos: (1) não otimiza a terapia, pois mantém um espectro desnecessariamente amplo quando o patógeno é conhecido e sensível a uma opção mais estreita (ceftriaxona); (2) prolonga a exposição a antibióticos de amplo espectro, aumentando o risco de seleção de bactérias multirresistentes, toxicidade (ex.: nefrotoxicidade da vancomicina) e custos. A duração de 10 dias também não é a recomendada para infecções intra-abdominais com controle de foco, sendo 4-7 dias o período usual.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Substituir piperacilina-tazobactam por meropenem é um erro grave, pois o meropenem é um carbapenêmico de reserva, indicado para infecções por bactérias produtoras de ESBL ou outras resistências. A E. coli isolada é sensível à ceftriaxona, portanto não há indicação de usar um antibiótico de espectro ainda mais amplo. Essa conduta aumentaria a pressão seletiva por resistência a carbapenêmicos, um problema de saúde pública crítico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Suspender vancomicina e manter piperacilina-tazobactam é uma conduta parcialmente correta, mas não a mais adequada. A vancomicina pode ser suspensa, pois o patógeno é um Gram-negativo e não há evidência de infecção por Gram-positivos resistentes. No entanto, a piperacilina-tazobactam tem espectro mais amplo que o necessário para uma E. coli sensível à ceftriaxona, e a ceftriaxona é a opção mais estreita, eficaz e com melhor perfil de segurança para este caso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Associar amicacina ao esquema atual é desnecessário e potencialmente prejudicial. A amicacina é um aminoglicosídeo com potencial nefrotóxico e ototóxico, e sua associação só é indicada em casos de infecção por bactérias multirresistentes ou em situações específicas (ex.: sinergismo para Pseudomonas). Como a E. coli é sensível à ceftriaxona, a monoterapia com esta cefalosporina é suficiente e mais segura.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Suspender os dois antibióticos (piperacilina-tazobactam e vancomicina) e iniciar ceftriaxona é a conduta mais adequada. Isso caracteriza o descalonamento (ou "streamlining") da terapia antimicrobiana: após a identificação do patógeno e do seu perfil de sensibilidade, o esquema empírico de amplo espectro é substituído por um esquema direcionado, mais estreito, eficaz e com menor risco de efeitos adversos e de seleção de resistência. A ceftriaxona é a escolha ideal para uma E. coli sensível, cobrindo o foco abdominal com boa penetração e posologia conveniente.